Príncipe Mohammed Masud Raza Khan

Um criativo transgressor nas hostes psicanalíticas
Masud Khan, aos 46, em sua casa em Knightsbridge, Londres. Crédito: Neil Libbert

Mohammed Masud Raza Khan (1924–1989), esse aristocrata reconhecido por muitos como príncipe, além de ser um excelente teórico da psicanálise, teve uma clínica intensa, extensa e inovadora. Sua vida vigorosa e tortuosa provocou inúmeros embates nas hostes psicanalíticas e ganhou até ares de folclore. A fama, como um anátema sobre o afamado, cria sempre um falso ser.

“A psicanálise é uma disciplina de sensibilidade e perícia, de caráter extremamente privado. A prática da psicanálise desdobra essa privacidade, transformando-a num relacionamento especializado entre duas pessoas, que, pela própria natureza da exclusividade que uma observa em relação à outra, modifica ambas. O que desejo dizer em primeiro lugar a respeito do trabalho apresentado nestes escritos, é que meus pacientes me ajudaram a dar vida e a personalizar meu potencial de pensamento, afetividade e esforço, convertendo-o num modo de viver que considero profundamente satisfatório. Tivesse eu seguido outra carreira, talvez minha vida fosse mais intensa e diversificada, porém, nunca tão plena. Meu trabalho com os pacientes me ensinou a ser humilde e a ver a necessidade da dependência que temos do outro para sermos e nos tornarmos nós mesmos.”

Masud Khan — prefácio do livro “Psicanálise: Teoria Técnica e Casos Clínicos”

Nasceu num ambiente que era o desvão do mundo: de origem tribal paquistanesa, viu-se engolido pela Grande Albion que dominava a Índia e através dela outros povos — Grandes Ingleses Dominadores — e tudo em nome da rainha. Haja devoção. E foi neste vórtice de culturas que medrou Masud Khan.
Há passagens folclóricas.

Um cliente entrando em seu consultório abismou-se com a quantidade de livros distribuídos pelas estantes e perguntou meio maroto: “O senhor já leu todos esses livros?”, e ouviu: “Eu não leio livros, eu vivo com livros!”. Quem reconhece a preciosidade dos livros-objetos, sabe a diferença entre ler livros ou conviver com eles.


Dizem que um cliente lhe enviara uma mensagem de país estrangeiro, dizendo que não poderia se deslocar naquele período para as sessões de análise; ele, não teve dúvidas, pegou seu avião e foi atendê-lo em casa. Grande disposição ou esnobismo puro?

E há passagens em que, aos olhos de seus críticos, suas atitudes foram vistas não mais como meramente extravagantes, mas até mesmo como sinais de loucura ou de perversidade. Em seu último livro, “Quando a primavera chegar”, obra de um clínico maduro e de grande qualidade literária, pode-se ler algumas de suas posições frente ao manejo da contratransferência, que despertaram as críticas mais contundentes de uma parte de seus pares. Neste livro, com transparência incomum, M. Khan descreve o modo duro (insultante para alguns) como lida com as manipulações de um paciente perverso. Acontece que este analisando era judeu, homossexual e tinha tendências suicidas, o que levantou a polêmica de Khan ter agido de modo preconceituoso e discriminatório.

Em favor do analista paquistanês pode-se lembrar do conceito de contratransferência objetiva, de seu grande amigo D. W. Winnicott. No texto “O ódio na contratransferência”, Winnicott defende a ideia de que, no momento adequado do processo analítico de um paciente (respeitando suas possibilidades de receber esse tipo de comunicação), o analista pode se utilizar do ódio despertado na contratransferência, quando esse ódio é justo, correspondente a características reais do analisando, e, dentro do cuidado que envolve o tratamento, comunicar, de alguma forma, o quão afrontoso, incompadecido e manipulador é o comportamento do paciente em relação a seu analista. No caso polêmico descrito por Khan, suas atitudes, ao menos no relato que apresenta, não causaram nenhum desastre.


A maneira heterodoxa, independente, muitas vezes extravagante, como Khan conduzia sua clínica e sua vida, foi sempre vista com escândalo para alguns, vindo a ser acusado de promiscuidade entre sua vida profissional e sua vida íntima: de não respeitar os preceitos de abstinência indicados na prática psicanalítica. A dimensão real do que de fato houve nunca foi de todo esclarecida, suas atitudes encontraram muitos detratores, mas, por outro lado, sempre houve os que o defendessem e não vissem com grande gravidade o relacionamento que estabelecia com seus pacientes.


Assim, o Príncipe Khan causa fascínio, admiração, e por outro lado repulsa.

Nos últimos quinze anos de sua vida, expulso da sociedade britânica de psicanálise e com diagnóstico de um câncer que terminou por vitimá-lo, Khan experimentou a marginalização da sociedade e de seu meio profissional. Embora tenha lutado com altivez contra o câncer que o consumia, mantendo até o fim sua atividade como psicanalista, não se pode evitar um olhar sombrio para os últimos anos de uma personalidade tão radiante e fascinante para muitos que o conheceram.

Compartilhe:
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Posts Relacionados:

Maio da luta antimanicomial

Em 18 de maio de 1989, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu.

Leia Mais

Pilates

Os exercícios de Joseph Pilates começaram a ser reconhecidos como técnica quando nenhum dos internos do campo de treinamento onde ele era enfermeiro durante a primeira guerra mundial sucumbiu a uma epidemia de gripe que matou milhares de pessoas em outros campos da Inglaterra, em 1918.

Leia Mais