O caso de outro mundo — cartas como objetos transicionais

“Procure ficar vesgo”, disse-me, certa vez, um antigo professor, sobre como articular os conhecimentos de psicanálise com os de psiquiatria


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“Procure ficar vesgo”, disse-me, certa vez, um antigo professor, sobre como articular os conhecimentos de psicanálise com os de psiquiatria, no entendimento de um determinado caso clínico que discutíamos. Esses dois campos do conhecimento já estiveram muito mais imbricados do que o cenário atual faria supor. Até um pouco mais da metade do século passado, não se poderia pensar a psiquiatria sem a contribuição dos conceitos psicanalíticos. Houve então uma guerra, e a psicanálise vem perdendo essa guerra. A partir dos anos 70 do século vinte, os pontos de vista da psicanálise foram sendo retirados das categorias diagnósticas psiquiátricas, e a psiquiatria elegeu uma nova companheira: a terapia cognitivo- comportamental.

O tempo só tem feito aumentar a distância entre as antigas parceiras, a tal ponto que, para alguém como eu, psiquiatra e psicanalista, por vezes a solução é “ficar vesgo” para poder fazê-las trabalhar juntas, a favor dos pacientes que atendo. A psiquiatria enxerga os pacientes desde um ponto de vista externo, a partir das alterações formais do seu funcionamento psíquico; a psicanálise, por sua vez, os vê levando em conta sua interioridade, os conteúdos ali presentes.

“O que, muitas vezes, faz avançar um caso que nos desafia na clínica, são acontecimentos inesperados […]”

Quando não se tem o conhecimento completo a respeito de um objeto (e nunca se tem), deve-se permitir, humildemente, que os conhecimentos parciais relativos a ele (o adoecer psíquico, no caso) se expressem em seus antagonismos, corrijam-se mutuamente e possam, de algum modo, somar-se no entendimento que formamos a respeito desse objeto. Esse exercício (dialético) se faz de forma muito natural em cada paciente concreto que atendo.

Ainda há um terceiro elemento, muitas vezes negligenciado em sua importância, que participa de uma melhor ou pior evolução nos tratamentos, de modo tão eficiente quanto as terapias medicamentosas e psicológicas. Falo das condições presentes no ambiente geral do paciente, e não me refiro aqui apenas ao papel que podem desempenhar para a saúde mental de uma pessoa o casamento, a vida em família, a inserção na sociedade, a relação com o trabalho etc. O que, muitas vezes, faz avançar um caso que nos desafia na clínica, são acontecimentos inesperados, cuja importância deve ser devidamente valorizada para que possam proporcionar o máximo de benefício terapêutico para o paciente. O relato que vou fazer é sobre uma dessas situações, que vivenciei como profissional e em que o fundamental foi não atrapalhar uma cura que se ofereceu ao paciente, sem o concurso de minha imensa sabedoria.

Alguns anos atrás, recebi o encaminhamento, para tratamento psiquiátrico, de um homem de aproximadamente 60 anos, que chamarei de Manfredo. Esse homem, muito queixoso e dado a algum espalhafato, desenvolveu um quadro depressivo após a perda de sua mãe, ocorrida três anos antes. Manfredo tinha grande ligação com a mãe, e a tinha trazido para morar com ele havia quase vinte anos, pouco tempo após o falecimento de seu pai. Manfredo era solteiro. Fiquei sabendo muito pouco sobre sua vida amorosa; a impressão era de ser empobrecida e, àquela altura, possivelmente ausente. Quanto a amigos e vida social, haviam ficado para trás, interrompidos pela aposentadoria do cargo administrativo que ocupava na área de contabilidade de uma empresa de chuveiros.

Manfredo não tinha seu único irmão, onze anos mais velho, em boa conta: “um egoísta que só pensa em dinheiro”. Tendo a mãe adoecido, e insatisfeito com o que julgava pouco caso da parte do irmão com o sofrimento dela, resolveu cortar relações com ele. A doença da mãe foi prolongada, e nos últimos meses o apartamento de meu paciente foi transformado em enfermaria com home care 24 horas por dia. Após o falecimento da mãe, o quarto que ela havia ocupado permaneceu intocado, como um santuário: a colcha cobrindo a cama; o xale estendido sobre o encosto da cadeira, a Bíblia aberta na última página lida. “O outro médico disse para eu doar tudo para uma casa de caridade… mas não consigo”, dizia Manfredo. Quando o pó acumulado lhe parecia um desrespeito com a falecida, permitia que a diarista, com muito cuidado, o removesse.

Como se notou no parágrafo anterior, Manfredo esteve sob os cuidados de outro psiquiatra, e trouxe consigo, na primeira consulta, um relatório deste com as medicações que haviam sido utilizadas e que, infelizmente, não tinham obtido sucesso. Constava nesse relatório, inclusive, que, não se observando efeito terapêutico positivo com as primeiras drogas testadas, o psiquiatra havia solicitado um exame farmacogenético para orientar o tratamento, e passou então a prescrever apenas substâncias que, a princípio, estavam indicadas como eficazes pelo exame. Tudo correto, mas não se viu melhora no comportamento queixoso do paciente. Com autocomiseração, notei que tinha diante de mim um caso difícil.

O quadro depressivo — um luto patológico — tinha características peculiares: meu paciente dizia ter perdido o interesse por todo tipo de atividade; sentia tristeza e períodos de dolorosa angústia (apesar de dar a impressão de cultivar essa dor, pois era comum ele entrar no quarto que havia sido da mãe e deixar-se invadir por reminiscências dela); também era comum se queixar de dificuldade de conciliar o sono e de redução do apetite. Freud, em Luto e melancolia, afirma que a diferença mais notável entre o luto normal e a melancolia é a perda da autoestima, na melancolia, pelo paciente, que se traduz em acerbas auto-recriminações, o que, nesse caso, não se verificava com Manfredo, que, muito pelo contrário, mantinha comportamento poliqueixoso e de ataque aos outros: queixava-se do irmão, do antigo chefe na empresa, de um colega de trabalho que o tratava com brincadeiras que o ofendiam; de ressentimentos do pai, com quem nunca tivera proximidade; e, lastimoso, repetia: “Perdi a única pessoa que me entendia”, sobre a falta que sentia da presença da mãe.

As queixas, muitas vezes espalhafatosas, acabaram por chegar ao nosso tratamento, como era de se esperar. Os remédios que eu indicava causavam muito sono ou produziam insônia, sentia aceleração com uns, cansaço com outros; quando algum efeito positivo era atingido, logo um efeito colateral obrigava a trocar as medicações. Estas encontravam-se permanentemente sob suspeita; qualquer desconforto, por prosaico que fosse, não podia aguardar a próxima consulta: Manfredo logo me chamava por whatsapp para perguntar se os remédios poderiam ser os responsáveis pelo desconforto.

Crescentemente pressionado pelas insatisfações de Manfredo, discutia com ele outras possibilidades terapêuticas para depressões resistentes, tais como associar a estimulação magnética transcraniana (alternativa que descartou por lhe dar a impressão de ser agressiva e perigosa) e fazer psicoterapia, o que foi rejeitado com maior horror ainda, pois ele acreditava que pensar ainda mais no assunto só faria piorar as coisas.

“Numa consulta, notei algo diferente na presença de Manfredo, e quando perguntei como se sentia, veio a inesperada surpresa — ‘venho me sentindo bem’”

Havia, contudo, uma pessoa importante na vida de meu paciente sobre quem ainda não falei. Sua importância não havia ficado clara até ser evidenciada pelo que vou contar. Era a sobrinha de Manfredo, Cibele, filha mais velha de seu irmão. A diferença de idade entre ambos era de apenas nove anos. Cibele vivera grande parte de sua infância na casa dos pais de Manfredo, e ele desenvolveu grande carinho pela menina: a “irmãzinha”, a “criaturinha inocente”, sem maldade, que lhe retribuía as atenções, formando-se entre eles um laço afetivo que se mostrou significativo na vida desse homem solitário.

Eu mantinha poucas esperanças, conforme vinha dizendo, em obter um resultado satisfatório no tratamento desse paciente. Apostava em algum efeito que a passagem do tempo pudesse exercer, ou em algum acontecimento fortuito… E foi o que então se deu. Numa consulta, notei algo diferente na presença de Manfredo, e quando perguntei como se sentia, veio a inesperada surpresa — “venho me sentindo bem”. Foi nesse ponto que a importância da relação com Cibele se revelou. Ela também havia sofrido muito com a perda da avó, e uma sincera solidariedade se estabelecera entre ambos, que, condoídos, faziam contato um com a dor do outro.

Numa de suas visitas ao tio, alguma coisa no comportamento dele, talvez uma liberdade maior ao falar da falecida mãe, encorajou Cibele a revelar o que vinha guardando fazia tempo, à espera de uma ocasião propícia. Contou que havia mais de um ano, conversando com seu chefe, lastimou a penosa situação em que o tio se encontrava e a impotência que sentia para ajudá-lo. O chefe, por sua vez, disse conhecer uma pessoa que poderia ser de grande auxílio e forneceu-lhe o telefone para o contato. Procurada por Cibele, essa pessoa disse comunicar-se com pessoas falecidas através de algo chamado captação energética. “O contato pode dar certo ou não, mas posso tentar”. Ao longo desse quase ano e meio, os contatos teriam, enfim, acontecido e se corporificado em três cartas ditadas pela falecida.

Ao ouvir o relato da sobrinha, Manfredo foi tomado de grande agitação ansiosa; parecia dividido entre o desejo intenso de ler o quanto antes as cartas e o temor de estar penetrando em algo sombrio, como se estivesse prestes a cometer um ato profano: será que tais práticas estariam de acordo com o pensamento cristão? Decidiu que iria ler as cartas, mas desde que tivesse a aprovação do padre. E o que o padre disse? “Pode ler, Manfredo, há mais mistérios entre o céu e a terra do que podemos compreender. Há pessoas que têm sensibilidade para captá-los, não importa o nome que se dê.” Agora sim, com a anuência recebida, combinou um encontro com a sobrinha para a leitura das cartas.

As cartas haviam sido escritas com meses de intervalo uma da outra, pois a captação só seria possível quando a pessoa que partiu tem o desejo de se comunicar. O conteúdo das cartas era em primeira pessoa, e a mãe falecida, na primeira das cartas, dava notícia de um grande sofrimento, encontrando-se ela num local muito escuro, e pedia orações para ajudá-la; na segunda e terceira cartas, uma luminosidade cada vez maior começa a incidir no local, o sofrimento se ameniza, mas ainda muita oração é solicitada para que ela encontre seu destino.

Logo na leitura da primeira carta, tio e sobrinha se olham, e a sobrinha diz: “É a vovó!”. Os dois são tomados de grande emoção, se abraçam e os olhos se enchem de lágrimas. Sim, Manfredo estava convencido, era sua mãe falando.

“Não sei se o senhor acredita nisso, não é religião, é ciência. Quem faz a captação explicou isso. Se o senhor quiser deixo as cartas para o senhor ler”, disse-me um Manfredo aliviado, que até então eu desconhecia. Peguei as cartas e compartilhei, sem espalhafato, do entusiasmo acanhado, da esperança tímida que via nascer naquele homem soturno. Li as cartas, que não continham nada além do que já disse; confesso que cheguei a ficar desapontado: elas não apresentavam nada que parecesse pessoal, nenhuma marca característica havia sido revelada pela falecida. Contudo, importava mais o efeito que produziam e que se mostrava de grande valia.

Nas consultas que se seguiram, Manfredo manteve os progressos em relação ao estado depressivo arrastado que mantivera anteriormente. Mostrou-se, entretanto, nos encontros subsequentes, menos feliz do que nesse primeiro momento, tendo seu humor se aproximado mais do que era o seu estado habitual, ou seja, mais para o melancólico. Todavia, uma nova carta poderia chegar a qualquer momento, e isso renovava as esperanças em seu mundo pessoal. Ele também sentia a presença da mãe próxima de si e mais de uma vez, ao entrar no quarto santuário, vislumbrou a figura da mãe habitando o local. Depois, com coragem, pensou que seria mais correto ouvir o que lhe diziam a sobrinha e o padre, pois poderia não ser bom para a mãe mantê-la ligada a coisas terrenas. Aconselhado por eles, decidiu, por fim, desfazer o quarto e doar seus pertences, acreditando que isso poderia ajudá-la a encontrar seu destino. Com o correr do tempo, Manfredo pediu para iniciar a redução das doses dos medicamentos: sentia-se melhor e desejava ficar livre dos remédios. Foi o que fizemos, de forma gradativa, sem que isso tenha ocasionado o retorno dos sintomas angustiantes que sentia, até que por fim pude lhe dar alta. Desde então não o vi mais.

Para resumir, simplificadamente, meu entendimento sobre esse episódio que narrei, destaco três pontos para discussão: o papel que desempenharam as cartas; o que representou o “jogo teatral” que se desenrolou entre o paciente, sua sobrinha e o padre; e o papel que desempenhei no ocorrido.

“As cartas também lhe deram um lugar dentro do mundo”

As cartas, independentemente de quem tenha sido o autor delas, tiveram um valor simbólico, e quando falo de valor simbólico, utilizo esse conceito a partir do pensamento de Donald Winnicott (1896–1971). De acordo com as noções desse grande psicanalista britânico, as cartas cumpriram aqui a função de objetos transicionais. Nesse tipo de objeto, o simbolismo não se dá unicamente por sua capacidade de representar algo — neste caso, a união com a mãe -, mas, principalmente, pela possibilidade do uso real e concreto que se possa fazer dele, e esse uso pode ter diferentes sentidos. Destaco dois, importantes para o entendimento deste caso: o sentido de travessia e o sentido de lugar.

Como travessia, as cartas permitiram que Manfredo pudesse se separar da mãe, tornando-o mais capaz de lidar com a tristeza, afastando de si a ameaça de mergulhar num estado melancólico profundo ou sem limites; a partir das cartas, o trabalho do luto pôde se colocar em marcha, e o paciente pôde se destinar em devir, rompendo a estagnação e o isolamento em que se encontrava.

“Winnicott diz que pacientes em análise muitas vezes vivem experiências em seu cotidiano, fora do setting analítico, que são fundamentais para os avanços que esperam alcançar com o tratamento.”

As cartas também lhe deram um lugar dentro do mundo; através delas, Manfredo pôde interagir com outras pessoas, participar de um jogo ao lado de outros atores — e, aqui, a dimensão do jogo (do brincar, para Winnicott) foi o que tornou possível o uso do objeto. Para que tudo pudesse funcionar dentro do tempo e das crenças do paciente, foram fundamentais o modo como a sobrinha lidou com a situação, aguardando o momento oportuno para mostrar as cartas, e o modo como o padre autorizou Manfredo a lê-las, como um pai o faria. As cartas não teriam cumprido seu papel transicional sem esse jogo interacional.

Faltou falar sobre o papel que representei nessa importante conquista realizada pelo paciente. Winnicott diz que pacientes em análise muitas vezes vivem experiências em seu cotidiano, fora do setting analítico, que são fundamentais para os avanços que esperam alcançar com o tratamento. O autor afirma que essas experiências são aspectos da transferência vividos com outras pessoas possibilitados pela sustentação oferecida pelo vínculo com o analista. Embora eu não fosse o analista de Manfredo, e nossos contatos fossem bem menos frequentes do que o são durante um processo de análise, creio que o meu papel nesse episódio pode ser entendido dentro dessas linhas traçadas por Winnicott. Eu fui a testemunha do sofrimento de meu paciente, de sua impossibilidade de se afastar da mãe, minha participação ajudou a promover uma maior integração das experiências; eu também fui aquele que complementou a frase que o padre dissera, parodiando outro conhecido autor inglês — “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”.

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P.S.: Ao relatar esse caso adotei, em respeito às questões éticas, uma série de procedimentos para tornar irreconhecível a identidade do paciente em questão.

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