Maio da luta antimanicomial

Em 18 de maio de 1989, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu.

No mês de maio se comemora a luta antimanicomial. Esse período do ano foi escolhido por ter ocorrido em 18 de maio de 1989 o principal marco dessa luta em nosso país. Nessa data, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia, em sua dinâmica institucional, os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. O hospital passou por um processo chamado de desinstitucionalização, sendo gradualmente desativado e substituído por serviços regionais, os NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial). A experiência não foi a primeira, mas foi a que deu maior visibilidade ao movimento e serviu de referência para a criação dos CAPS, hoje disseminados em todas as regiões do país.

Foto da intervenção determinada pela então prefeita de Santos, Telma de Souza, em 1989 | Fonte: Arquivo/Jornal A Tribuna, no G1

Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu, que havia pouco deixara para trás todas as atividades que exercia, como psiquiatra e psicodramatista, na capital paulista, e, junto com minha família, que achou excelente a ideia de uma mudança para o litoral, partia para aquela que considero ter sido a experiência mais rica que tive na profissão.

Havia, naquela época, um sentido profundo e urgente de transformação. Queríamos não apenas reformar a assistência em saúde mental, mas fundar um novo olhar sobre a doença e o doente mental. Reconstruindo, em sentido inverso, os rastros do funcionamento institucional que os mantinha exilados do mundo, pensávamos construir uma nova ciência, cujas perspectivas mais distantes apontavam para uma sociedade também transformada dentro de um horizonte socialista. Pretendíamos, em nosso pequeno teatro de operações, iniciar uma revolução molecular, reinserindo, na vida social, essas pessoas consideradas “peças inúteis” destruídas pela dinâmica estabelecida pelas relações sociais capitalistas.

Na foto, uma bandeira verde com a seguinte frase escrita em tinta preta e amarela: “Liberdade é o melhor cuidado” | Foto por André Antunes (EPSJV/Fiocruz) no Desinstitute

Havia, nos anos que se seguiram ao fim da ditadura militar, uma atmosfera de renovação da vida social. Anseio esse que se cristalizou em ações dos governos democráticos que se estabeleceram naquela ocasião, por um intenso investimento nas instituições no sentido de democratizá-las. Os diferentes segmentos progressistas da sociedade promoveram discussões, refletindo sobre o papel que exerciam na vida política do país e, principalmente, sobre como desempenhavam suas atividades profissionais.

Na cidade de Santos, nossos opositores, aqueles que tiveram que deixar a Casa de Saúde Anchieta e perderam a liderança das ações em saúde mental no município, lançavam contra nós todo tipo de acusação (quase todas na base de fakenews); uma delas, no entanto, a mais singela, a de que éramos sonhadores, é a que destaco para um olhar mais acurado, por conter um interessante paradoxo.

Sim, éramos sonhadores, mas a cada passo que dávamos nos deparávamos com obstáculos, com uma realidade adversa que só podia ser enfrentada com muita sensatez. O terreno no qual tínhamos que nos mover era muito estreito: de um lado, estava o sonho, muitas vezes messiânico, que era o que nos alimentava e nos mantinha unidos; de outro lado, havia a consciência de nossas limitações, de que remávamos contra a maré, de que estávamos na contramão de como a sociedade funcionava, e, infelizmente, ainda funciona. O sonho criava problemas para a sensatez e vice-versa.

Como sonhadores, nossas ações podiam se tornar confusas, complicadas ao extremo, quando, por exemplo, tínhamos de enfrentar certas situações que surgiam espontaneamente do atendimento aos pacientes, tais como: lidar com pacientes agitados que necessitavam de alguma contenção mecânica; fazer valer o dispositivo da internação, dada a fragilidade de nossos recursos, o que nos levava muitas vezes a passar horas tentando convencer os pacientes, e nem sempre conseguindo, de que tinham que permanecer na unidade e aceitar a medicação. Falar em portas, e sobretudo em fechar portas, podia despertar a suscetibilidade de alguns membros da equipe, daqueles mais imbuídos do que chamei de messianismo, e então surgiam divisões, conflitos que demandavam muito esforço até que se chegasse a um consenso: o sonho não podia ser maculado.

“Que sonhos coletivos se podem ter nos dias atuais? Fala-se mais de distopias do que de utopias.”

Do lado da sensatez os problemas não eram menores, ao contrário, éramos funcionários públicos e vivíamos a precariedade inerente a uma tarefa sempre maior do que os recursos que se podiam mobilizar. O salário e outras condições de nosso trabalho não eram animadoras, assim como não são para o funcionalismo em geral na área da saúde. Quando algum de nossos colegas se demitia, sentíamos um abatimento profundo, e, por vezes, revoltados e cansados, maldizíamos tudo e pedíamos que os muros se erguessem novamente.

Mas o sonho nos levava…

Passaram-se décadas e, agora, encontro-me aqui: na capital paulista, vivendo os sonhos que me são possíveis como profissional liberal. Quando penso em tudo que se passou naqueles oito anos em que tivemos o controle das ações em saúde do município (em 1997 nossos opositores reconquistaram a prefeitura), sinto não ser capaz de traduzir a intensidade do que vivi em pensamentos claros, em afirmações livres de contradições. Contudo, disse que queria destacar um aspecto que me parece fundamental: o paradoxo a que acima me referi, de que nosso trabalho cotidiano era tecido com a presença simultânea de sonho e sensatez. Para que eu consiga sair-me melhor no que pretendo dizer, vou utilizar em meu auxílio as ideias de D. W. Winnicott.

Para esse autor o conceito de criatividade ocupa posição central em suas formulações. A saúde ou a doença estão na dependência da possibilidade de ser criativo ou da impossibilidade de sê-lo. O ser humano vem ao mundo numa condição original de desamparo e de orfandade, fato ontológico que, mesmo nas situações mais favoráveis que venha a encontrar, sempre o acompanhará. Ele necessita continuamente inventar-se, projetar-se para um futuro, colocar-se em devir. Nesse sentido, o ser humano é fundamentalmente ação, é gesto criativo. Mas, para que o indivíduo possa constituir-se de um modo tal que o gesto criativo seja possível, ele necessita do acolhimento, da presença de um outro que lhe dê sustentação. A pessoa só pode ser a partir de ter um lugar numa família, numa cultura, numa dada organização social e política.

A partir desse pertencimento, o indivíduo pode exercer sua ação criativa, justamente vindo a reposicionar essa sociedade que encontrou, que lhe constituiu, influenciando de forma pessoal na cultura que recebeu e que lhe dá sustentação. Essa marca pessoal se dará se ele for capaz de conjugar, num único elemento, a subjetividade e a objetividade. Se o centro de sua vida se der pela subjetividade, o indivíduo vive de forma alucinatória e delirante; por outro lado, se predominar a objetividade, a pessoalidade se perde e ele se distancia de si mesmo. Eis o paradoxo que nos coloca Winnicott: a existência simultânea da objetividade e da subjetividade não pode ser rompida e, se o for, haverá o adoecimento.

Nos anos em que trabalhei em Santos, eu encontrava no dia a dia de meu trabalho esses dois elementos reunidos, tudo estava por se inventar, e nós, mergulhados na construção de algo novo, tínhamos de reinventar a nós mesmos a cada instante. Em nosso momento contemporâneo, o mundo se acha estruturado em torno da objetividade, da quantificação, do fazer, da impossibilidade do repouso (em que a sensibilidade poderia ser despertada). Na esfera do trabalho, durante o século XX, na chamada sociedade disciplinar, funcionava o capitalismo industrial, no qual os trabalhadores eram treinados para realizar uma parte específica da produção, vivendo em alienação o processo como um todo. Hoje, o capitalismo se tornou financeiro, não tem mais sua referência na produção da fábrica, nas fronteiras de uma nação. Vivemos o mundo pós-industrial, a sociedade do controle na qual se dissemina o mito de que cada trabalhador deve ser o empresário de si mesmo. Esse funcionamento social aumentou muito o sentimento de solidão, de não pertencimento a uma comunidade, de relações sociais que se dão na base de um narcisismo com um fim em si mesmo: os laços sociais se enfraqueceram. Antes, o trabalhador se relacionava com a máquina; hoje, é como se ele tivesse sido jogado para dentro da máquina e se relacionasse com um novo deus: o algorítimo. Já se fala em subjetividade maquínica.

Que sonhos coletivos se podem ter nos dias atuais? Fala-se mais de distopias do que de utopias. Contudo, uma das poucas utopias que sobreviveram ao tempo no campo específico do trabalho em saúde mental, embora circunstancialmente enfraquecida, foi justamente a luta antimanicomial. Neste maio frio, de pouco sol, a esperança ainda persiste.

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