História do Grupo Independente na psicanálise britânica

Uma breve história da Escola Britânica de Psicanálise, particularmente a do Grupo Independente: The Middle Group
D. W. Winnicott com crianças em seu consultório | Fonte: Winnicott Trust/Wellcome Collection via Revista Cult

Freud, no final do século XIX, apresenta suas descobertas sobre o inconsciente e dá, assim, origem à psicanálise. O novo campo de conhecimento encontra rápida difusão nos países ocidentais. Ao longo do tempo alguns países desempenham, por determinados períodos, o papel de eixo organizador, de local de referência de produção teórica e de prática clínica, sendo a partir de sua influência que outros países organizam suas sociedades científicas nesse novo campo de interesse humano.


No final do século XIX e início do XX, Viena, então capital do império Austro-Húngaro, foi a cidade natal da psicanálise, o local em que Freud e seus discípulos construíram as bases de um novo método para o tratamento das neuroses e para onde afluíam aqueles que buscavam qualificar-se para o exercício dessa nova ciência. A partir dos anos 1920 e 1930, contudo, a psicanálise passou a ser hostilizada pelo movimento nazista que, a partir da Alemanha de Hitler, espalhava sua influência nefasta sobre a Europa. A maior parte dos praticantes da psicanálise era composta de judeus, que se viram forçados a emigrar para outros países a fim de salvar suas vidas. Em 1938, às vésperas da anexação da Áustria pelos nazistas, a família Freud se muda para a Inglaterra, que passa então a ocupar o lugar de centro para o movimento psicanalítico internacional. Durante as décadas de 1930 a 1950, a Inglaterra foi o país de produção conceitual mais efervescente. Depois, a partir dos anos 1960 até o final do século XX, o polo criativo da psicanálise passou a ser ocupado pela escola francesa. O interesse aqui, não obstante, é narrar a história da Escola Britânica de Psicanálise, particularmente a do Grupo Independente: The Middle Group.

Sigmund Freud (terceiro, da esqueda para direita) chega a Paris após deixar Vienna, em rota para Londres, 1938, acompanhado de sua filha Anna (à esquerda de Freud), Marie Bonaparte (segunda à esquerda), e seu filho Príncipe Pedro da Grécia e Dinamarca (à direita). Fonte: Pictorial Parade / Getty Images via ThoughtCo.

A origem da psicanálise britânica se acha ligada ao nome do psiquiatra inglês Ernest Jones. Em 1913, Jones vai a Budapeste colocar-se sob os cuidados de Sandor Ferenczi, nesta que é considerada a primeira análise didática de que se tem registro: durante dois meses, Jones realizou duas sessões por dia com seu analista. Nesse mesmo ano, o psiquiatra inglês retorna a Londres e funda a Sociedade Britânica de Psicanálise. A iniciativa, contudo, termina em malogro, e a Sociedade não vinga. Em 1919, Jones, em melhores condições, a refunda, dessa vez com êxito.


A princípio, Freud olhava com muita desconfiança a capacidade de Jones de liderar a psicanálise na Inglaterra, e tal desconfiança se agravou quando ocorreu o vazamento do romance do psiquiatra inglês com Joan Riviere, sua então analisanda; com o tempo, todavia, Jones iria conquistar a confiança do mestre e reservar seu lugar na galeria dos pioneiros da psicanálise, tanto como analista quanto como historiador.

Mathilde Hollitscher (filha de Freud), Sigmund Freud e Alfred Ernest Jones | Fonte: Fotógrafo desconhecido, para International News Photos via National Portrait Gallery

Os historiadores da psicanálise apontam três fatores como os mais importantes para o sucesso da Sociedade Britânica de Psicanálise, a saber: a aceitação da análise leiga; a oferta de psicanálise para as crianças; a interação da psicanálise com o ambiente cultural inglês da época.


Aos olhos do stablishment médico da época, a questão da psicanálise ser ou não acreditada passava pela análise poder ou não ser praticada por profissionais não médicos. A polêmica galvanizou as discussões de tal modo que a radicalização das opiniões ameaçou romper a unidade do movimento psicanalítico internacional. A Associação Psiquiátrica Americana tomou posição a favor da prática ser restrita apenas a profissionais médicos. Freud, no entanto, em 1926, escreve o artigo “A questão da análise leiga”, em que defende o acesso à prática a qualquer profissional que se submeta a formação específica, afirmando ainda que a formação médica vai na direção oposta à da psicanálise.


Jones, a princípio, assume posição contraditória: por um lado, tece largos elogios à qualidade do trabalho efetuado por membros leigos da Sociedade Britânica de Psicanálise; por outro lado, defende que o direito de prescrição cabe apenas a médicos. Para Jones, ao contrário de Freud, a psicanálise seria um ramo da medicina. A posição da Sociedade Britânica de Psicanálise pendeu mais para Jones, provavelmente no intuito de acomodar os conflitos e ganhar tempo. Ao fim, prevaleceu que o profissional médico faria a avaliação e prescreveria a análise, e que daí para frente o paciente poderia procurar o profissional, devidamente credenciado, que preferisse. Com o tempo, vencidas as resistências iniciais, os analistas médicos ou não médicos desfrutariam do mesmo prestígio no interior da instituição inglesa.

As controvérsias: M. Klein x A. Freud

Desde seus primórdios, o tema da psicanálise de crianças interessou aos membros da Sociedade Britânica de Psicanálise; mais adiante, duas escolas iriam se colocar em disputa em relação a esse tema: a de Melanie Klein (na foto, 1957, Courtesy Melanie Klein Trust and Wellcome Collection | Fonte: Freud Museum) e a de Anna Freud. Em 1919, a húngara Melanie Klein se torna analisanda de Sandor Ferenczi e publica seu primeiro estudo sobre o atendimento em psicanálise de crianças: “O desenvolvimento da criança”. Em 1921, Klein se muda para Berlim, inicia análise com K. Abraham, e apresenta seu relato do atendimento ao menino Fritz, que marca o início da técnica do brinquedo.

Nessa mesma época, em Viena, Anna Freud também realiza estudos em psicanálise de crianças. Já nesse período surgem as primeiras divergências entre as duas pesquisadoras. Para Klein, a técnica do brinquedo é comparável à regra básica da associação livre para adultos, enquanto para Anna Freud a interpretação do brinquedo é uma interpretação onírica puramente simbólica e, portanto, insatisfatória.

No início dos anos 1920, vários psicanalistas ingleses deixavam Londres para fazer análises didáticas em Berlim. Quando voltavam, relatavam entusiasmo com o método desenvolvido por Klein para o tratamento de crianças. Em 1925, Klein realiza uma série de palestras na Sociedade Britânica de Psicanálise, e com a morte de seu analista, K. Abraham, em 1926, muda-se para Londres, onde residiria até seu falecimento em 1960.


Anna Freud publica seu livro de análise infantil em 1927, o qual é duramente criticado por Klein no Simpósio de Análise Infantil realizado nesse mesmo ano. A disputa entre as duas autoras ganha corpo institucional a partir de então, havendo, inclusive, a censura pública de Freud pai, lastimando a aceitação de Melanie Klein pela Sociedade Britânica de Psicanálise.


O clima entre os membros dessa instituição vai se tornando cada vez mais tenso, embora a disputa tenha ficado encoberta até 1935. Nesse ano, Klein publica seu artigo “Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos”, texto em que apresenta o conceito de “posição depressiva”; a partir daí, a Sociedade Britânica de Psicanálise se divide entre os que apoiam as inovações propostas por Klein e os que cerram fileira em defesa da metapsicologia proposta pelo pai da psicanálise. Além dos dois agrupamentos em disputa, um contingente expressivo dos membros, insatisfeitos com o clima tenso e sectário presente nas reuniões científicas, não se alinha com nenhum dos lados.

Anna Freud | Fonte: Bettmann / Contributor / Getty Images via ThoughtCo.

Após alguns anos de conflito selvagem, a instituição chega a um acordo: as divergências teóricas seriam tratadas em reuniões científicas que ficariam conhecidas como “as controvérsias”. Entre janeiro de 1943 e maio de 1944 são organizados debates com o propósito de esclarecer a posição de Klein vis-à-vis com a metapsicologia de S. Freud. As proposições em disputa jamais chegaram a um consenso, sendo ainda hoje solo fértil para acaloradas discussões; no entanto, a profundidade a que chegaram os debates constituem o ponto mais alto da vida científica da Sociedade Britânica de Psicanálise, e um dos momentos mais marcantes da história da psicanálise desde o seu surgimento.


A defesa do legado freudiano foi feita por Anna Freud, uma vez que seu pai já havia falecido por ocasião das “controvérsias”. Os debates deixam claro que Klein, embora afirme seguir Freud, propõe uma nova metapsicologia. Entre outros pontos importantes que estiveram em pauta, destacam-se: o conceito de instinto de morte; a vida inconsciente de fantasia das crianças em estágio pré-verbal; a estrutura arcaica e o sadismo do superego; a crença na existência de relações objetais desde o nascimento; a datação do surgimento do ego e do complexo de édipo; a concepção diferente do desenvolvimento sexual feminino; a eliminação do narcisismo primário; o papel das ansiedades iniciais, e assim por diante.

O Grupo Independente: The Middle Group

As “controvérsias”, conforme já mencionado, não solucionaram as divergências, mas a elaboração das diferenças, que ameaçavam romper a Sociedade Britânica de Psicanálise, fez surgir um terceiro grupo na instituição: o Middle Group. Esse terceiro contingente não dispunha de um programa unitário, de uma concepção única; ele se caracterizou, nas palavras de G. Kohon (1994), “por uma afinidade teórica, técnica, ideológica e sobretudo pessoal, que apresentava como traço distintivo o compromisso com a liberdade de pensamento e ação, em sua atividade clínica, científica e institucional”.

A ambição do Grupo Independente nasceu de um paradoxo difícil de resolver: respeitar os ensinamento de Freud sem abrir mão da independência de pensamento. As teorias que nasceram desse veio fecundo ampliaram a noção freudiana de transferência, devido ao trabalho com pacientes graves e com crianças. Teorias originais, a partir de concepções enraizadas nas clínica, foram desenvolvidas por autores para os quais Winnicott desempenhou o papel de uma liderança fraterna, não autoritária (na foto, D. W. Winnicott em atendimento a uma criança | Fonte: Freud Museum).


Alguns estudiosos da produção científica do Grupo Independente, embora reconhecendo na diversidade de concepções a sua principal riqueza, apontam um traço convergente nas elaborações realizadas por seus membros: o centro de suas formulações gravita em torno da teoria das relações objetais. O modo de o indivíduo se relacionar com o seu mundo, sua maneira de desenvolver-se e de organizar sua personalidade, a busca primordial dos instintos por objetos (o prazer tem função formativa e seletiva e não é a meta instintual) e o relacionamento entre sujeito e objeto estiveram entre seus principais interesses.

Após a disputa extenuante e insolúvel das “controvérsias”, a Sociedade Britânica de Psicanálise reconhece a existência de três grupos na instituição; é, então, firmado um “acordo de damas”, entre Klein, Anna Freud e Sylvia Payne, com a elaboração de dois programas de formação, A e B, nos quais são acomodados representantes dos três agrupamentos. Tal acordo prevaleceu até 1973, ano em que o candidato que ingressava na instituição passou a ter o direito de escolher livremente sua própria grade de seminários.

Os excêntricos do grupo de Bloomsbury

De capital importância para o florescimento da psicanálise em solo inglês foi o ambiente cultural da época, em especial o interesse despertado no stablishment intelectual leigo. Os médicos, em grande parte, desempenharam um papel opositor: estiveram mais preocupados na defesa de seus interesses de classe. Numa terra que valoriza a excentricidade, os praticantes da psicanálise e seus pacientes foram logo reconhecidos como os novos excêntricos do clube, e conquistaram seu lugar, despertando simpatias e antipatias naquele ambiente cultural.


Alguns dos primeiros psicanalistas ingleses provieram de uma poderosa elite intelectual, às vezes vinculada ao que se chamava na imprensa da época de “grupo de Bloomsbury”. Essa mesma elite contribuiu para a constituição de outros grupos, tais como o Clube dos 17, a Sociedade Fabiana e o Partido Trabalhista. Bloomsbury designava um grupo de amigos cuja relação com a psicanálise era complexa. Entre seus apoiadores estavam celebridades como Adrian Stephen, irmão de Virgínia Woolf; a esposa deste, Karin Costelloe, discípula de Bertrand Russell e membro da Sociedade Aristotélica; e Joan Riviere, que viria a tornar-se a segunda analista de Winnicott e que provinha da Família Verral, de eminentes eruditos que se achavam envolvidos, em Cambrigde, com a Sociedade de Pesquisa Psíquica.

Da esq. para a dir.: Lady Ottoline Morrell, Maria Nys (ambas não integravam o grupo), acompanhadas de Lytton StracheyDuncan Grant e Vanessa Bell | Fonte: desconhecida

Entre os detratores da psicanálise pertencentes ao Bloomsbury, estavam os não menos célebres Virgínia Woolf, que jamais se submeteu a tratamento analítico, e Lytton Strachey, que escrevia paródias cômicas com as descobertas de Freud, entre muitos outros. James Strachey, que viria a ser o primeiro analista de Winnicott, aludindo à sua filiação, reconhece no obituário de Riviere: “Proviemos da mesma caixa, classe média, profissional liberal, letrada, vitoriana posterior” (1963).

Os pioneiros da psicanálise na Inglaterra partilhavam algumas características em comum com essa elite intelectual, a saber: certo grau de perturbação psicológica (elemento importante para o pensamento criativo?); uma imensa curiosidade intelectual; uma atitude não moralista.

Os analistas britânicos independentes incluem nomes eminentes como os de Edward Glover, James Strachey, Ernest Jones, Margaret Little, Donald Winnicott, Michael Balint, Paula Heimann, Ella Sharp, Sylvia Payne, John Rickman, Ronald Fairbain, Alix Strachey, James Glover, Barbara Low, Marjorie Brierley, Marion Milner, Charles Rycroft, Masud Khan e outros.

(Na foto, placa memorial em Gordon Square ou Praça Gordon, 51, Londres | Fonte: desconhecida)

Compartilhe:
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Posts Relacionados:

Maio da luta antimanicomial

Em 18 de maio de 1989, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu.

Leia Mais

Pilates

Os exercícios de Joseph Pilates começaram a ser reconhecidos como técnica quando nenhum dos internos do campo de treinamento onde ele era enfermeiro durante a primeira guerra mundial sucumbiu a uma epidemia de gripe que matou milhares de pessoas em outros campos da Inglaterra, em 1918.

Leia Mais