Escrever: devorar-se pelo rabo

É possível revelar-se quando não se está presente, quando não se inclui um si mesmo mais profundo, uma autenticidade?
Fonte: desconhecida

As feridas narcísicas sangram sempre que as precariedades de cada um são expostas. Em um simples texto, por exemplo: ainda que seja algo do feijão-com-arroz de cada dia, onde o traquejo do sujeito está mais que provado, expor um texto aos seus pares — que atrocidade — ameaça a mais (aparentemente) estruturada auto-estima. E haja postergação.


Vejam bem o que escreveu o jornalista e escritor Sándor Márai sobre essa pendenga tão humana:

“Durante sua vida, o homem não só age, fala, pensa e sonha; ele também silencia sobre quem somos, sobre aquele que só nós conhecemos e não podemos revelar a ninguém. Mas sabemos que aquilo que silenciamos é a ‘verdade’: nós somos aquilo que silenciamos. Mas o que silenciamos com tanta ansiedade, de dentes serrados? (…) o homem guarda esses pequenos segredos podres com uma devoção espasmódica e estúpida; mas nada vale zelar por esse saco de segredos; porque logo, no instante da morte ou às vezes até antes, torna-se patente que não havia Grande Segredo algum na vida. Temos apenas segredos residuais, pequenos, que podiam ser revelados a outro e que não valia a pena ocultar. Segredos sobre Ambição, Inveja e Família. Segredos da sexualidade.”

(MÁRAI, Sándor. Confissões de um burguês. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.)

A psicanálise de Freud diz que é preciso domar a ferocidade do julgamento implacável que se estruturaria num lugar psíquico denominado superego. Já para o psicanalista Donald W. Winnicott, há, em nós, um núcleo silencioso que de fato não deveria e nem pode ser mostrado, inenarrável pela linguagem, e expresso, de modo fragmentado e a partir da presença de um outro, pela comunicação silenciosa.

Mas, em tempos de superexposição de si, de gozo imperativo, haveria espaço para a comunicação silenciosa de Winnicott, ou para o julgamento implacável do superego freudiano?


Em 2015, o escritor e filósofo Umberto Eco afirmou que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”, que agora “têm o mesmo direito à palavra que um ganhador do Prêmio Nobel” — ideia que, à época, foi amplamente refutada pelos defensores da liberdade de informação, mas que ano após ano, vendo que a questão do “direito à expressão” tornou-se um novo paradigma, alienante e a serviço do controle, reconsideram suas contestações. Estamos não apenas livres para nos expor, mas exigidos disso. Então, o que se revela, afinal e atualmente, enquanto se expõe? O que silenciamos, e consequentemente, segundo Márai, somos?


Não sabemos o que se revela enquanto se escreve — é só depois de escrito, a posteriori, que a manifestação se dá. Quanto à superexposição, há, somente, ainda mais perguntas: não seria essa superexposição de si um ato narcísico, desprovido e desincorporado de um outro? É possível se revelar quando não se está presente, quando não se inclui um si mesmo mais profundo, uma autenticidade?


Fazemos aqui um parênteses para indicar a você, leitor, a série de textos Discursos do Silêncio | Capítulo I — O pessimismo sofisticado de Michelângelo Antonioni e Capítulo II — Antonioni e o silêncio como comunicação do amor, nos quais nosso colunista Emmanuel de Souza articula a ideia de comunicação silenciosa, de Winnicott, a partir da análise de momentos das obras A Aventura e O Eclipse, do cineasta italiano Antonioni. Também, para compreender o conceito de autenticidade que falamos no parágrafo acima, indicamos a leitura do artigo A autenticidade: uma virtude em Bolsonaro?, do mesmo autor.


Há, evidentemente, uma encruzilhada na proposta deste texto e do Portal Psicorama como um todo: enquanto escrevemos e nos revelamos nas entrelinhas e silêncios entre as palavras, sangramos nossas feridas narcísicas. Ao mesmo passo, pouco revelamos — de forma explícita — sobre nós, contrapondo-nos ao imperativo da transparência quase que pornográfica da intimidade dos tempos contemporâneos. Abrimos muitas perguntas, e não entregamos nenhuma resposta.

Formular, revisar, trocar palavras e ideias de lugar e de parágrafo manifesta-se, aqui, como o que nomeamos de redação ouroboros: enquanto escrevemos, vemos a nós mesmos nos devorando pelo rabo, engolindo o medo com certa náusea, buscando essa conexão entre a realidade que nos cerca e a interioridade que não se mostra em palavras. Seguimos e seguiremos, escrevendo, revelando e (nos) devorando.

Compartilhe:
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Posts Relacionados:

Maio da luta antimanicomial

Em 18 de maio de 1989, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu.

Leia Mais

Pilates

Os exercícios de Joseph Pilates começaram a ser reconhecidos como técnica quando nenhum dos internos do campo de treinamento onde ele era enfermeiro durante a primeira guerra mundial sucumbiu a uma epidemia de gripe que matou milhares de pessoas em outros campos da Inglaterra, em 1918.

Leia Mais