Discursos do silêncio | Capítulo II

Antonioni e o silêncio como comunicação do amor
Frame do filme O Eclipse (1962), de Michelângelo Antonioni

A chamada “trilogia da incomunicabilidade” de Antonioni termina com “O eclipse” (1962). Não tenho a intenção de comentar o filme como um todo, destacarei apenas um trecho dele, contendo o diálogo de duas personagens, um homem e uma mulher, que penso ser representativo da visão que o diretor veicula, ao longo dos três filmes, sobre o amor — e a equivalência que estabelece entre estar amando e estar em comunicação com alguém.

Antes, porém, de trazer esse trecho para discussão, direi algumas palavras sobre como compreendo a estética proposta por Antonioni nessa trilogia. O diretor italiano surpreende o espectador ao propor a ele que participe da obra, que interaja com ela, e não meramente que a observe de fora. Para tanto, utiliza recursos estéticos que se valem mais das sensações que despertam do que de diálogos ou cenas densamente explicativas, convidando a quem assiste a participar de uma experiência. Antonioni não oferece um narrador onisciente, um ponto de vista privilegiado no qual as ações e intenções das personagens são esclarecidas e reveladas ao espectador; pelo contrário, este é colocado na mesma circunstância das personagens, posicionado frente a uma experiência existencial semelhante à que todos temos no contato com o mundo: o sentido dos acontecimentos não são transparentes nem unívocos; o outro se apresenta como mistério; o sentimento de orfandade e a sensação de incerteza são pervasivos.

observador e objeto mantêm entre si uma relação dialética em que um determina o outro

A psicanalista inglesa Marion Milner (1900–1998) construiu o principal de sua obra estudando o imaginário; sua contribuição no campo da estética é também notável. Essa autora, conforme G. Safra, faz uma distinção entre dois modos de estar presente diante de uma obra de arte (e do mundo): um modo centrado na racionalidade, em que o observador e o objeto estão distintamente separados; e um modo centrado na atenção, no qual não há separação nítida entre observador e objeto, e sim conexão entre o fenômeno observado e a experiência de si que o observador tem diante do fenômeno. Nesse segundo modo, que pode ser chamado de experiencial, observador e objeto mantêm entre si uma relação dialética em que um determina o outro.


Entendo que os filmes de Antonioni não devem ser apreciados de uma perspectiva iluminista, racionalista, mas de acordo com o modo que propõe a participação numa experiência. A sustentação da atenção não direcionada para a busca de conclusões, de julgamentos — deixando-se, o espectador, afetar pelos elementos sensoriais que lhe são oferecidos — , vai fazendo surgir imagens na interioridade deste, e do interjogo dessas imagens com as veiculadas pela obra é que vão se tecendo sentidos e significações sempre em abertura com a experiência.

Antonioni conta que a narrativa do filme nasceu mais de uma sensação do que de uma ideia

O enredo do filme é bem simples: Vittoria, após supostamente passar a noite discutindo com Riccardo, decide separar-se dele. O diálogo do casal, nesse momento de ruptura, contém mais silêncio do que palavras. Piero, um jovem que opera na bolsa de valores, incidentalmente conhece Vittoria. Os dois se aproximam e iniciam um relacionamento. Vittoria, contudo, vivendo ainda o luto do namoro acabado, decide não levar adiante esse novo relacionamento com Piero.


Antonioni conta que a narrativa do filme nasceu mais de uma sensação do que de uma ideia. Em 1962 ele testemunhou, em Florença, um eclipse. O diretor ficou impactado com “um silêncio diferente de todos os outros silêncios”, com a qualidade da luz que antecedeu o mergulho na escuridão. Sua sensação foi a de que tudo ficou paralisado naqueles breves momentos em que as trevas estiveram presentes, até mesmo os sentimentos. A personagem Vittoria encontra-se mergulhada nesse eclipse, seu mundo afetivo está congelado, ela não está disponível para começar um novo relacionamento. A trama do filme é tecida a partir de múltiplos contrastes: a luminosidade, o amor e a comunicação, de um lado; a escuridão, a separação dos amantes e o silêncio, do outro.


Vittoria e Piero também são muito contrastantes: ela é silenciosa e vive a melancolia do luto amoroso; ele fala incessantemente em seu trabalho de operador da bolsa de valores. Ela vive em contato com sua interioridade; ele tem que se manter superficial para não se afastar da peregrinação do dinheiro.


Abro aqui um parênteses para esclarecer que este texto que o leitor tem diante de si dá continuidade a uma série que chamei “discursos do silêncio”. A motivação desse empreendimento foi despertada pelo silêncio intrigante de uma paciente que atendo em análise. O tema da comunicação, e o silêncio dentro dele, passou a interessar-me de uma maneira especial. Quando vislumbro em determinada obra de arte que o tema é abordado, sinto que faço contato com alguma dimensão da comunicação enigmática dessa paciente. Não quero com isso dizer que haja um paralelismo, que as situações presentes nas obras possam ser justapostas ao que vivemos nas sessões. Não é isso. Quando estabeleço essa conexão, sinto que a comunicação entre mim e ela se enriquece.


Não é por meio de palavras que o amor põe duas pessoas em contato

Voltando ao filme, num determinado trecho, Piero e Vittoria, que estão
atraídos um pelo outro, e supostamente iniciando um relacionamento, passeiam juntos num dia ensolarado, e Piero sente, subitamente, uma insegurança em relação aos sentimentos que Vittoria tem por ele. Ela parece muito fechada em si, hesitante, e Piero lhe pergunta:

– Gostaria de saber se você se entendia com seu namorado anterior.

E Vittoria responde:

– Enquanto houve amor, houve entendimento… nada havia a entender.

O diálogo evidencia a equivalência entre estar amando e estar em comunicação. Note-se, contudo, a presença de um paradoxo na resposta de Vittoria: no amor se entende o outro sem que haja, propriamente, o que entender. Ficam, dessa forma, implícitas duas modalidades de entendimento (ou de comunicação): uma delas, situada no registro do verbal, e de cunho racional; a outra, pertencente ao domínio do pré-verbal, e do âmbito da afetividade. Não é por meio de palavras que o amor põe duas pessoas em contato.

Introduzo aqui, para uma maior compreensão dos tipos de comunicação a que me referi, o conceito de “comunicação silenciosa” de Winnicott (1896–1971). Dentro da visão do autor, de que o psíquico é algo a ser constituído ao longo do desenvolvimento do indivíduo, a mãe, ou pessoa substituta, ao cuidar de seu bebê, além de provê-lo de cuidados físicos adequados, também estabelecerá com ele um contato empático, que Winnicott nomeia “atenção materna primária”. A mãe, identificada com seu bebê, é capaz de entender as necessidades dele através de uma comunicação silenciosa, sensorial, intercorpórea, não invasiva, que respeita o tempo do bebê. Nessa relação sintônica entre mãe e bebê têm lugar a onipotência, a magia e a ilusão — que participam na “criação” de uma realidade experimentada como pessoal — , e é essa relação que constitui a fonte originária da alegria e da sensação de estar vivo. A comunicação silenciosa, para prosperar, necessita de que haja confiança e fidedignidade no ambiente fornecido pela mãe.


A comunicação silenciosa a que me referi no parágrafo anterior é denominada “comunicação não explícita” por Winnicott. Ela se constitui a partir das experiências estéticas, sensoriais; é uma linguagem anterior às palavras e irredutível ao domínio lógico-racional. Posteriormente, quando o indivíduo alcançar a comunicação explícita — ou seja, quando tiver acesso ao código verbal em comum, que utilizamos na vida em sociedade — , esta vai se assentar sobre as bases criadas pela experiência de comunicação silenciosa que o indivíduo vivenciou. Ambas as comunicações, a silenciosa e a explícita, é sempre bom lembrar, estão presentes durante toda a vida, ainda que uma delas, ou as duas, possam estar definitivamente prejudicadas ou apenas temporariamente inacessíveis.

A expressão de um rosto, a entonação de uma frase, o vislumbre de um olhar fornecem uma base de entendimento muitas vezes mais sólida do que o conteúdo do que está sendo dito por uma pessoa

O paradoxo colocado pela personagem Vittoria — “enquanto houve amor houve entendimento… nada havia a entender” — , além de conjugar dois tipos de comunicação numa única frase, contém, ainda, dois tipos de conhecimento: o conhecimento racional e o conhecimento afetivo. Razão e afeto pertencem a dois modos distintos de experiência; no entanto, não é correto dizer que o conhecimento só é adquirido pela via racional. A palavra afeto implica algo pertencente à realidade daquele indivíduo que o afetou, que o modificou, que lhe comunicou algo. A expressão de um rosto, a entonação de uma frase, o vislumbre de um olhar fornecem uma base de entendimento muitas vezes mais sólida do que o conteúdo do que está sendo dito por uma pessoa; da mesma forma, no contato com o mundo natural, a via intuitiva, que é um conhecimento imediato, anterior à operação da racionalidade, é a primeira forma de aproximação de um determinado fenômeno. Está comprovado que uma maior quantidade de informações não leva, necessariamente, à tomada de decisões mais acertadas. A intuição transcende as informações disponíveis e segue sua própria lógica.


A racionalidade, para colocar-se em operação, necessita das sensações, da afetividade e da intuição. A memória se presentifica através de imagens, e estas produzem conhecimento, um tipo de saber; ao comparar o já vivido (o familiar) com a experiência atual (o não familiar), a abordagem racional é acessada a partir dessa comparação de imagens. Na noção de devir — relação dialética entre o familiar (já conhecido) e o não familiar (o novo) — o interjogo entre imagens é preponderante. Winnicott diz que o corpo, para ser o corpo de alguém, passa por um processo de elaboração imaginativa. Cada parte, cada função, cada sensação do corpo é transfigurada em imagens, dando origem ao que ele chama de psiquismo. As imagens e as sensações tecem significados, fornecem as raízes para os conceitos. Com relação a isso, G. Safra diz: “Quando há funcionamento mental sem substrato imagético corporal, há uma mente funcionando sem experiência de si, há uma organização defensiva”. Nesse sentido, para Winnicott, a comunicação verbal surge da comunicação silenciosa, a palavra vem do silêncio: o sentido, a empatia, a alegria e, no que quero destacar, a capacidade para o amor são originários da comunicação silenciosa.


Vittoria está distante, seu coração está eclipsado, o luto pelo amor fracassado o embaça com uma névoa tênue, Piero pode pressenti-lo… As palavras de nada valem. Tudo está dito, e o silêncio da comunhão, que poderia tê-los envolvido, não pôde ser tecido. A narrativa avança para o fim sem que nada seja dito, explicitamente, sobre a desistência de Vittoria em relação a Piero, mas no olhar perdido dela, em sua gestualidade contida, se entende o que as palavras não poderiam expressar melhor. As últimas cenas do filme são de imagens de paisagens urbanas, de construções inacabadas, do dia ensolarado que subitamente mergulha nas trevas do eclipse, da tímida luz de um poste aceso num horário incomum; por fim, num branco que inunda toda a tela.

Procurei destacar a primazia que a comunicação silenciosa tem sobre a comunicação verbal, que o silêncio tem sobre a palavra. Levando em conta essa constatação, pergunto: em que estado se encontra a comunicação silenciosa no mundo contemporâneo, nesta era que alguns chamam de “era da comunicação digital”?


Um olhar superficial basta para enxergar o óbvio: as pessoas, conectadas em seus aparelhos ou mesmo em interação social (que está, ou deveria estar, muito reduzida pela pandemia), se encontram lançadas numa vertigem comunicacional ininterrupta: por um lado, todos os espaços de privacidade, as janelas de repouso da presença do outro, os lugares de refúgio discreto foram saqueados e devassados; por outro lado, a solidão atroz, o sentimento de ausência de um verdadeiro contato humano, são queixas cada vez mais ouvidas. Há muita comunicação, mas que qualidade tem essa comunicação?


Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência, afirma que, em nome da liberdade de informação e do combate à corrupção, a questão da transparência foi elevada a uma condição de novo paradigma da contemporaneidade, tornando-se tema totalizante e transformando-se num fetiche que transbordou da esfera pública e invadiu a esfera privada. Não há domínio social ou privado em que a transparência não seja posta como uma necessidade inquestionável. Sua presença se faz sentir inclusive em como se experimenta a temporalidade, sendo esta aplainada numa sequência de um presente sempre disponível (incluindo o futuro), um tempo sem destino e sem eventos, ficando abolida a noção de devir. Para o autor, a sociedade da transparência é o abismo infernal do igual, cujo traço totalitário é a uniformização.


A finalidade da transparência, diz Han, é tornar as ações operacionais, passíveis de se subordinarem a um processo de cálculo, governo e controle. No campo da comunicação, que me interessa mais de perto destacar, esta alcança sua velocidade máxima (conforme é necessário para o funcionamento neoliberal) em que o igual responde ao igual, ficando suprimida a dimensão do outro, da alteridade. A linguagem transparente, para Han, é formal, mecânica, operacional, e elimina toda ambivalência. A respeito das palavras, o autor chama a atenção para W. Humboldt, que, sobre a intransparência fundamental da linguagem, afirma: “na palavra, ninguém pensa justa e precisamente aquilo que o outro [pensa], e por menor que seja a diferença, ela oscila, como um círculo na água, e atravessa toda a linguagem. Todo compreender é ao mesmo tempo um não compreender; toda concordância de pensamentos e sentimentos é igualmente uma divergência”. E conclui Han: “um mundo que consistisse apenas de informações e cuja comunicação fosse apenas a circulação de informações, livre de perturbações, não passaria de uma máquina”.

O que põe duas pessoas em contato é de uma ordem anterior às palavras

A afirmação de W. Humboldt deve ser entendida no sentido de que não existe a possibilidade de o ser humano ser completamente objetivado, sempre há, ainda que circunstancialmente massacrada, a dimensão do desconhecido, do oculto, do mistério que mantém vivas as relações. Não obstante, nem tudo é desconhecido, o encontro com algumas facetas do outro (não com o outro por completo) pode ocorrer, e é necessário que ocorra. Aqui, a noção winnicottiana de comunicação silenciosa fornece uma resposta ao sentimento de isolamento, experimentado na contemporaneidade, contraposto à dominante hipercomunicação. O que põe duas pessoas em contato é de uma ordem anterior às palavras: é do estético, do sensorial, do intuitivo; estabelecida essa base, a comunicação com palavras é uma experiência agradável e viva.


Antonioni nos legou a “trilogia da incomunicabilidade”, e esta permite muitas reflexões sobre o tema. Em “O eclipse”, procurei destacar que a comunicação silenciosa não acontece entre os amantes, Vittoria não se abre para uma nova relação, fica como que aguardando o eclipse, a escuridão se dissipar. É verdade que ela se encontra em luto, o que explica em parte sua não disponibilidade. Mas não se pode desconsiderar o fato de que Piero faz parte do mundo da hipercomunicação, do mercado financeiro, em que é preciso manter-se permanentemente voltado para o caminho que o dinheiro segue, e isso também tem papel importante no desencontro. E é nesse ponto que nos encontramos: a aceleração vertiginosa necessária aos negócios, o fetiche da transparência invadindo todos os domínios, a perda da privacidade imposta pela “era da comunicação digital” está resultando em solidão, em desamparo, em perda da comunicação autêntica.

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