As versões de Versiani — parte 2

Versiani viveu tantas conturbações nos espaços destinados a sua análise pessoal, que começou a se perguntar se seriam obra do azar
Photo by Kristina Flour on Unsplash

Versiani é um velho amigo; é sempre um prazer encontrá-lo, não sei por que nos vemos tão pouco. Conheci meu amigo algumas décadas atrás, quando cursamos a residência médica em psiquiatria na mesma instituição. De forma muito natural, nossos interesses em comum nos mantiveram ligados também durante a formação em psicodrama e, posteriormente, em psicanálise. Nossos caminhos, a partir de então, se distanciaram, cada qual seguindo o rumo das oportunidades profissionais que lhe parecia mais atraente.

Naquele início de formação como psicodramatista e, depois, como psicanalista, Versiani viveu tantas conturbações nos espaços destinados a sua análise pessoal, que começou a se perguntar se aquela série de malogros seria puramente obra do azar — para não falar na falta de ética ou até mesmo na maldade de alguns personagens dessas histórias — e se não haveria, de forma muito decisiva, uma contribuição sua em tudo aquilo. Algo inconsciente, que lhe escapava.

Um desses malogros, de consequências funestas, ocorreu de modo aparentemente incidental, fruto de uma inconfidência infeliz. Naquela época meu amigo fazia formação em psicanálise e havia escolhido uma das professoras do curso para ser sua analista. Certa noite, Versiani recebia em sua casa o JM, que era nosso amigo e também psicanalista. Lá pelas tantas, entre um gole e outro de Cardhu, JM disse que M, o marido da professora, estava tendo um caso com B.

A pessoa embriagada dizer o que não deve é coisa que acontece — ou seja, até aí nada de extraordinário. Ocorre que, às vezes, se tem a impressão de as palavras estarem logo ali, na pontinha da língua, esperando só um empurrãozinho para serem ditas; foi o que Versiani sentiu com o coração muito ferido. JM sabia do estrago que uma revelação desse tipo pode causar em uma análise, e sabia, mais ainda, do que B significava para meu amigo.

Na perspectiva do tempo presente é fácil ver que alguns amores do passado são fruto do puro equívoco. A paixão por B. era um desses sentimentos que o tempo não só dissipa como nos faz sentir vergonha da dimensão a que chegaram. Talvez tudo tenha acontecido pela beleza inegável da moça, e pela aura de mistério que suas atitudes tinham para Versiani, mistério esse cujo segredo impalpável residia simplesmente no pouco interesse que ela nutria pelos ardores do meu amigo. Sim, hoje é fácil ver e até rir disso, mas naquele momento não era.

Algumas noites antes da fatídica inconfidência, Versiani tivera seu primeiro encontro amoroso com B., que então era sua colega de trabalho e também estudava psicanálise numa outra instituição. Um encontro de beijos, abraços, confissões e, sobretudo, ao menos para meu amigo, promessas imaginárias de futuras alegrias. Depois do encontro, para aflição de Versiani, B. mostrou-se arredia. Podia ser tanta coisa! Afinal, B. era casada… Em vias de separação, era a impressão que dava. Nesse contexto era até compreensível sua hesitação, o pudor com toda a situação. Meu amigo, contudo, mantinha muito acesa sua esperança. E foi em meio a esses sentimentos que foi tolhido pela incontinência de JM.

A bebida se encarregou de fazê-los rir: um riso desigual. JM tinha o hábito de sublinhar seus constantes excessos verbais com impudicas gargalhadas. Havia algo de sinistro naquele modo de rir: Versiani o notou particularmente naquela circunstância. Os risos logo se dissiparam e um silêncio tenso se estabeleceu. JM não se desculpou, não tinha esse costume. Os dois amigos se puseram a examinar que atitude deveria ser tomada em relação à análise em face do ocorrido — em relação a B. não havia muito o que pensar.

O que fazer? O mais sensato, se Versiani tinha a intenção de prosseguir com o tratamento, era levar o assunto para a próxima sessão. Um tema que não pode ser tocado em uma análise funciona como um “terreno baldio”, um local onde se deposita sujeira e pode abrigar malfeitores, comprometendo todo o processo.

O constrangimento, contudo, era muito grande. A vida real invadira o espaço analítico e implodiu a relação de transferência. Que consequências uma revelação como essa poderia trazer para a vida da professora? E o marido dela, também professor no curso, como lidaria com a denúncia involuntária de Versiani? Com que olhos desprezíveis o veria? Isso sem falar na identidade de B. que, forçosamente, teria de ser revelada. Talvez fosse menos ruim arrumar uma desculpa esfarrapada e encerrar o tratamento. Talvez fosse, mas não foi o que meu amigo fez.

O mal estava feito e nada poderia consertá-lo. A revelação funcionou como um parafuso que cai numa engrenagem e destrói toda a maquinaria. A professora mostrou-se muito digna e propôs que o assunto fosse tratado como material de Versiani, afinal, ele não tinha como supor nada a respeito de como era o casamento dela. Durante mais de um mês, os dois lidaram como foi possível com a situação, até que, por fim, se deram por vencidos: o vínculo havia sido irremediavelmente destruído.

Versiani prosseguiu com o curso. Contudo, no último módulo, quando começaria o seminário sobre psicose, que era ministrado por M., o marido da professora, meu amigo não foi capaz de superar o constrangimento e desligou-se da instituição.

A amizade com JM prosseguiu e o infeliz incidente com o passar do tempo foi esquecido. Versiani considerou que sentimentos hostis podiam coexistir ao lado de sentimentos afetuosos entre amigos e que, bem feitas as contas, o que prevalecia ainda era uma peculiar amizade. Quinze anos depois, um novo incidente surgiu entre os amigos e dessa vez a amizade se estragou para sempre.

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