As versões de Versiani — parte 1

O Versiani é psicanalista como eu e lembrei de algumas coisas que ele me contou décadas atrás, coisas que o deixaram furioso.
Photo by Henry & Co. on Unsplash

Dia destes, ao descer na estação Sumaré do metrô, notei, atrás de uma máscara de proteção contra o coronavírus, um rosto conhecido: era o Versiani. Encontrar inesperadamente um velho amigo que não se vê há muito tempo é ser tocado momentaneamente pela alegria. Não tínhamos muito tempo para conversar; atualizamos rapidamente o que foi possível e prometemos nos zapear para marcar um papo de verdade.

O Versiani é psicanalista como eu e o tenho como um bom profissional. Lembrei de algumas coisas que ele me contou décadas atrás, coisas que o deixaram furioso, ele que é tão calmo e sensato. Naquela época éramos ainda bem jovens e fazíamos formação para nos qualificar em psicoterapia de grupo. A formação consistia em seminários teóricos, supervisão clínica e participação, como paciente, em um grupo terapêutico.

Meu amigo sentia-se muito satisfeito com seu terapeuta de grupo, o professor G. Além da terapia, Versiani fazia grupo de estudo coordenado por esse professor, que também o havia orientado num trabalho que apresentara, com boa repercussão, num congresso de práticas grupais. Meu amigo sentia-se um discípulo dileto do professor G. e acalentava a fantasia de futuramente ser seu colega de trabalho. A mesma pessoa desempenhar vários papéis na formação é terreno propício para confusões, mas era assim que as coisas funcionavam.

Certo dia, no início de uma sessão do grupo terapêutico, o professor G. anunciou sua intenção de convidar outro terapeuta para auxiliá-lo na coordenação e submeteu o nome por ele escolhido para aprovação do grupo. Todos anuíram com a ideia e com o nome escolhido. Todos… menos Versiani.
Aquele que seria o futuro parceiro de trabalho de seu estimado G. não era outro senão S., um colega de Versiani um pouco à frente na formação. O anuncio gelou seu coração! Ainda mais porque, recentemente, soubera por um outro amigo, de um modo casual, por fofoca mesmo, que S. mantinha um caso secreto com M., a então adorada de Versiani, por quem ele se derretia sem, contudo, ir além de conquistar uma amizade especial.

Versiani, esforçando-se por não transparecer o quanto estava perturbado, apresentou as razões de seu veto: era um amigo, e não tinha como enxergá-lo como seu terapeuta. Como abrir seus problemas, suas neuroses, a alguém que fazia parte do grupo de amigos com quem saía para tomar cerveja e jogar conversa fora?

O professor G. ouviu compassivamente as razões de meu amigo, mas não recuou. Sua escolha fora feita com muito critério e estava certo de que os escrúpulos de Versiani logo seriam superados. Afinal, estávamos todos acostumados a participar de vivências terapêuticas em que as intimidades subjetivas eram expostas, e, além do mais, nas supervisões de caso, os aspectos neuróticos contratransferenciais dos futuros terapeutas é que eram focados, para que não interferissem na condução dos atendimentos.

Meu amigo contra-argumentou que, nesses mesmos espaços referidos por seu professor, quando não se levavam em consideração as relações presentes entre os participantes, o que se via era algo muito tímido; por vezes, o que era exibido não passava de um faz de conta, ficando a verdadeira intimidade sempre protegida, e quando alguém se deixava levar pelas emoções, e ia além de seus próprios limites, o resultado da exposição podia ser danoso para essa pessoa.

A discussão tomou o tempo inteiro daquela sessão. Os argumentos eram apresentados e rebatidos num clima tenso, embora jamais descambassem para a franca altercação. O grupo acompanhava o debate em silencioso respeito. Versiani era muito querido pelos demais participantes do grupo, mas nenhum deles estava disposto a sacrificar sua relação com o professor G., que até então se conduzira com muita correção com todos e era, inegavelmente, um bom terapeuta.

A certa altura do confronto já havia ficado claro para todos, inclusive para Versiani, que o professor G. não mudaria sua decisão; ainda assim, os argumentos finais foram apresentados. Meu amigo lembrou que o grupo, quando da sua constituição, havia feito um contrato unicamente com o professor G., e que, após três anos de funcionamento, um outro terapeuta não poderia ser imposto sem que houvesse um consenso entre todos os participantes.

Versiani julgou ter apresentado um argumento de peso, pois esse entendimento esteve subjacente ao longo de todo o tempo em que o grupo desenvolveu suas atividades. Tendo-o por fé as pessoas abriram seus corações, seus sentimentos mais inconfessáveis, desenvolveram expectativas, numa palavra: estabeleceram sua rede de transferências. Mas não teve jeito, o professor G., de modo muito decepcionante para meu amigo, mostrou-se irredutível e caprichoso: “Eu tenho o direito de escolher com quem quero trabalhar”.

Assunto encerrado! Versiani recolheu os cacos, despediu-se do grupo e partiu. Mais tarde, pesando bem as coisas, julgou já estar preparado para atender pacientes em grupoterapia com o que havia aprendido e interrompeu também o curso de formação.

Quando encontro Versiani logo me vem a lembrança de seu rosto contrafeito, dizendo como que para si mesmo: “Tenho o direito de escolher com quem quero trabalhar! O que isso tem a ver?”… Meu amigo estava certo.

Compartilhe:
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on email

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Posts Relacionados:

Maio da luta antimanicomial

Em 18 de maio de 1989, na cidade de Santos, o poder municipal interveio na Casa de Saúde Anchieta, um hospital psiquiátrico que reunia os caracteres nocivos contra os quais o movimento se propunha combater. Isso tudo ocorreu há 33 anos, e lá estava eu.

Leia Mais

Pilates

Os exercícios de Joseph Pilates começaram a ser reconhecidos como técnica quando nenhum dos internos do campo de treinamento onde ele era enfermeiro durante a primeira guerra mundial sucumbiu a uma epidemia de gripe que matou milhares de pessoas em outros campos da Inglaterra, em 1918.

Leia Mais