A verdade na undécima hora

Terapia diante da morte
Wikimedia Commons/Reprodução

Já debilitada e gravemente adoecida por um câncer, Clarice Lispector afirmou que mais uma vez gostaria de ser escutada, de ter um interlocutor com quem falasse. Quem lê “A Paixão Segundo GH” e outros textos seus sabe da profundidade com que a escritora percorria os meandros de procedimentos psicanalíticos, e, de maneira estupenda no primeiro capítulo deste livro, da ousadia e coragem diante da verdade: buscar saber mais de si, dos outros e da pétrea condição da alteridade humana. E se dispunha a isso mesmo diante da morte vindoura — a certeza incontornável.

E esta é uma das proposições mais assertivas do procedimento psicanalítico: o compromisso último com a verdade do sujeito, a verdade que despoja o Eu das ilusões cotidianas e o encaminha para colocar as rédeas da vida nas próprias mãos. E qual a hora certa pra fazer esse confronto? Freud, em um de seus artigos sobre técnica, faz uma espécie de contraindicação da psicanálise aos maiores de 50 anos; ora, parece uma bobagem rematada: o próprio Freud fez sua produção mais essencial após os 60. Felizmente, e a despeito do pai da psicanálise, hoje é comum pessoas idosas, principalmente mulheres, procurarem psicoterapia.

E esta é uma das proposições mais assertivas do procedimento psicanalítico: o compromisso último com a verdade do sujeito, a verdade que despoja o Eu das ilusões cotidianas e o encaminha para colocar as rédeas da vida nas próprias mãos

Entretanto, a atitude de Clarice diante de sua doença fatal não é comum a outras pessoas acometidas por câncer. Há oito anos, fui convidado por uma clínica oncológica para oferecer suporte psicoterapêutico para os clientes, e pude constatar que poucos dos indicados vinham para o consultório logo após a notícia impactante. Nos que aceitavam psicoterapia, dois fenômenos aconteciam diferentemente das psicoterapias comuns. Primeiro, a rememoração era mais agilizada, porém com resistências a maiores elaborações. Segundo, após um curto processo onde se transcorria a negação, a raiva, a tristeza diante da fatalidade, verificava-se pequena adesão à continuidade da terapia.

Não parecia tratar-se de resistência. Certamente o confronto com a realidade última da vida e sua aceitação produzia uma espécie de resignação e a busca de defesas outras para impedir cargas maiores de sofrimento no pouco de vida restante. Talvez, uma sábia decisão.

Afinal, a conquista última da vida é a morte.

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