A autenticidade: uma virtude em Bolsonaro?

Seus discursos negacionistas […] por serem tão constantes, criam terreno para que surja a dúvida: ele acredita realmente no que diz?
Photo by Rafaela Biazi on Unsplash

Algum tempo após a última eleição para presidente, realizada em 2018, ouvi de pessoas próximas um comentário, utilizando um termo para qualificar o presidente eleito, que depois, vez por outra, vejo ser empregado pela mídia em geral a respeito de seu comportamento. Dizem: “não houve estelionato eleitoral, pois Bolsonaro nunca escondeu suas intenções, ele sempre foi autêntico”.


De fato, quando Bolsonaro ainda era um mero candidato à presidência, ele disse qual era sua agenda política: destruir tudo o que foi feito desde a redemocratização. O que seria posto em seu lugar é coisa que até hoje não se sabe — sua agenda tem sido tão somente negativa. O candidato disse ainda outras coisas, de modo mais ou menos claro, mas que todos puderam entender, a saber, que é homofóbico, misógino, racista, admirador de milicianos e torturadores, e favorável ao extermínio físico de seus adversários.


Após ser empossado presidente, e diante da pandemia, tem sido chocante, e quase inacreditável, ouvir as opiniões toscas que veicula sobre a doença; no entanto, seus discursos negacionistas — desacreditando as vacinas, não fazendo uso de máscaras em público, promovendo reiteradamente aglomerações, lidando com pouco caso com sua própria saúde, e dizendo crer no poder curativo da cloroquina e congêneres a despeito de todas as evidências científicas em contrário — , por serem tão constantes, criam terreno para que surja a dúvida a respeito de se, no fim das contas, por difícil que possa parecer, ele acredita realmente no que diz.

Mas que importância pode ter uma discussão mais acurada sobre essa questão diante da situação tão grave que o país atravessa?

Daí a qualificá-lo como uma pessoa autêntica, é coisa que merece ser mais bem pensada. No deturpado debate de ideias em nosso país, em que conceitos são proferidos sem levar em conta nem a semântica nem o histórico dos termos, a suposta autenticidade de Bolsonaro vem sendo discutida, sem maiores preocupações com o uso desse termo, tanto por seus opositores quanto por seus seguidores, reivindicando, estes últimos, a autenticidade como uma virtude no presidente, opondo-a “ à hipocrisia dos que fingem se preocupar com os outros”.


Meu incômodo é ver essa palavra, “autenticidade”, ser empregada como um termo que possa ser aplicado a alguém como Bolsonaro. Mas que importância pode ter uma discussão mais acurada sobre essa questão diante da situação tão grave que o país atravessa? Bem, creio que alguma. Já que outros termos têm fomentado acalorados debates — genocídio, eugenia, fascismo, liberdade, golpe de Estado — , creio haver também interesse em reivindicar um rigor maior para o uso do termo “autenticidade”.

Aaxiologia é o estudo dos valores humanos presentes numa determinada sociedade. Algumas figuras importantes da história personificam, nos relatos que temos de suas vidas, certos valores humanos fundamentais, tais como: Sócrates, o da boa-fé; Cristo, o amor, Thomas Morus, o da fidelidade. No campo da psicanálise, também pode ser feita a pergunta: qual o valor supremo, qual a principal palavra em torno da qual seus principais pensadores articularam suas obras? Uma especulação nesse terreno poderia ser assim formulada: para Freud, a liberdade; para Melanie Klein, a gratidão; para Bion, a verdade; e para Winnicott — e aí entra meu incômodo -, a autenticidade.


Sim, tenho muito apreço por este autor, Donald W. Winnicott (1896–1971), e, se for verdade que o eixo principal de sua axiologia, a autenticidade, esteja sendo encarnado por alguém como Bolsonaro, isso só pode testemunhar a pouca importância que o mundo contemporâneo dá a esse termo.


O momento histórico em que Winnicott formulou suas concepções clínicas, entre a década de 30 e a de 70 do século XX, se caracterizou pelo desencanto com o sonho do progresso. As profundas cicatrizes geradas pelas grandes guerras mundiais colocaram em questão a ideologia que enxergava na tecnologia a fonte da felicidade humana. Em seu trabalho como psicanalista, Winnicott entra em contato com pacientes cuja queixa é a de viverem uma vida artificial, de não terem a sensação de que existem de fato, de não se sentirem autênticos. Ressalte-se que o ponto central que a noção de autenticidade ocupa na obra de Winnicott não foi estabelecido por um exercício puramente teórico, mas a partir da escuta das queixas declaradas por seus pacientes.

Para Winnicott, as conquistas esperadas no desenvolvimento humano só acontecem na presença de um outro

Na visão de Winnicott existe uma natureza humana, que, para poder se realizar, necessita do apoio, da sustentação do meio ambiente, mas uma sustentação que não seja intrusiva, que não macule a originalidade, a singularidade do indivíduo, que o acolha em suas manifestações espontâneas. Sem a perturbação do meio ambiente, a criatividade originária impulsiona o desenvolvimento para que ocorra a integração da personalidade, e a unidade psicossomática.

O papel de sustentação oferecido pelo meio ambiente é de fundamental importância, a tal ponto que Winnicott formulou um aforismo que se tornou célebre para compreender seu pensamento: “o bebê não existe”. Para o psicanalista inglês, o lactente nunca deve ser pensado como individualidade, mas sempre e essencialmente dentro da relação com as pessoas que lhe provêm os cuidados. A relação com o outro irá trilhar um percurso em que, a princípio, o outro é concebido como um elemento subjetivo criado pelo bebê, evoluindo, posteriormente, até a situação em que o outro será visto em sua objetividade, no registro da alteridade propriamente dita. Para Winnicott, as conquistas esperadas no desenvolvimento humano só acontecem na presença de um outro, de um outro que se apresente como pessoa, e aqui a palavra “pessoa” faz toda a diferença: o si mesmo se constitui na presença de um outro.

O ser humano que se desenvolve sem quebra na continuidade da experiência de ser, que alcança a integração sem aviltamento de sua singularidade, nos diz Winnicott, pode sentir-se vivo, pode manifestar sua criatividade, pode colocar sua pessoalidade em sua relação com o mundo, pode experimentar a vida de um modo autêntico. Note-se, que para esse autor a autenticidade está ligada à ideia de uma integração em que o indivíduo mantém sua ação espontânea com a realidade que o cerca, sem perder o contato com sua interioridade, com sua própria pessoa.

Tendo em vista essa noção de autenticidade a partir de Winnicott, parece muito evidente que o termo não pode ser aplicado a alguém como Bolsonaro. Nas aparições diárias e exaustivas daquele que ocupa o cargo de presidente de nosso país, que dimensão humana ele nos revela? Quando falo de dimensão humana, me refiro a nos sentirmos envolvidos por sua compaixão, por sua capacidade de se colocar no lugar dos outros. A pessoa de Bolsonaro nos é totalmente opaca, ele não tem um olhar que revele um plano mais profundo, uma comunicação anímica, sendo a amplitude de sua expressividade restrita à fanfarronice, ao escárnio e ao ódio.

Seus filhos, cada um deles, designados por números, representam um aspecto da personalidade do pai

Bolsonaro parece imune a críticas, à tragédia que assola o país. Ele não é encontrado ao ser confrontado com suas responsabilidades; sua reação nunca vai além da irritação e do desatino verbal, ficando a impressão de não ser possível atingir sua pessoa. Ele parece ter apenas externalidade sem ninguém por dentro.


Sua relação com pessoas próximas a ele não é substancialmente diferente disso. Com a esposa não se nota nem carinho nem intimidade. Seus filhos, cada um deles, designados por números, representam um aspecto da personalidade do pai: 01, a rachadinha; 02, a calúnia, a ameaça, o destempero verbal; 03, o fanatismo político ideológico, o anticomunismo enlouquecido; o filho 04 ainda não representa nada, e este nada possivelmente represente a pessoalidade que é ausente no pai. A filha, nas próprias palavras de Bolsonaro, representa uma “fraquejada”, e aí não se sabe exatamente a que tipo de fraquejada o presidente se refere. As relações com as ex-esposas e com os parentes e ex-parentes em geral foram corrompidas, subordinadas a práticas de ganhos ilegais, às rachadinhas, ao convívio com milicianos, incorporadas ao esquema mafioso por ele criado.


O comportamento de Bolsonaro muitas vezes não parece adulto, os anos não lhe trouxeram maturidade. Em seu fanatismo cego, tem-se a impressão de que ele perdeu o contato consigo mesmo, com sua dimensão pessoal (será que em algum momento seu mundo interno se constituiu de fato?). Seu modo de agir faz pensar em delinquência. Ainda quando era militar, sua ação resultou em tentativa de ruptura das normas, e o resultado foi sua expulsão da corporação. A vida de parlamentar não o modificou, nem mesmo o exercício da presidência, que era uma grande oportunidade para amadurecer. Ele permanece imutável, agindo pela via da manipulação, da calúnia, da ameaça, do desprezo às leis que deveria seguir; utilizando-se da mentira como método para criar desorientação e fazer prosperar visões negacionistas.
Na delinquência, ou psicopatia, o ressentimento triunfou, e o indivíduo não pôde alcançar a integração entre as raízes eróticas e as raízes da agressividade da personalidade, funcionando de modo cindido e obtendo a sensação de estar vivo pela violência de que faz uso.


Entre os apoiadores do atual presidente, também é muito evidente a presença do ressentimento: são cientistas que se queixam de não terem espaço, de não serem valorizados, de serem marginalizados no meio acadêmico (no qual haveria, supostamente, uma “ditadura comunista”); são religiosos que veem um ataque sistemático dos meios de comunicação aos valores que lhes são caros; são pessoas de vezo ultraconservador que denunciam um ataque à família e aos valores tradicionais; são ainda, e isso talvez seja o que há de pior, os supremacistas brancos, os machistas, os homofóbicos, e todos aqueles que se revoltam por se verem expostos em seus preconceitos etc.


Não tenho a intenção de patologizar a política, de explicar seu desenrolar através das doenças mentais dos seus protagonistas. Bolsonaro foi eleito por representar setores importantes da população e das forças produtivas. Penso, não obstante, que características de personalidade de pessoas com papel de liderança, em algum grau, podem cunhar algo de peculiar no acontecer histórico. O nazismo sem Hitler, não perderia alguma força expressiva, algum traço no modo como ocorreu? Ele, num dado momento, representou a Alemanha humilhada, cujo ressentimento exigia reparação e justificava o uso da violência.

Uma outra aproximação do que seria a autenticidade, está presente nas visões filosóficas de André Comte-Sponville (1952-). A visão de ser humano que embasa as teorizações desse filósofo, num certo sentido, é antagônica à de Winnicott, e a comparação entre ambos serve para elucidar seus pressupostos. Em Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Sponville identifica o termo com a virtude da boa-fé, que rege as relações com a verdade. A conformidade dos atos e palavras com a vida interior é uma primeira definição que o filósofo francês nos dá da virtude da boa-fé; mais adiante ele afirmará que a boa-fé “é o amor à verdade, na medida em que esse amor comanda nossos atos, nossas palavras, até mesmo nossos pensamentos. O respeito à verdade exclui a mentira, mas não o erro; não se diz sempre a verdade, mas o que se acredita ser verdade. Nesse sentido, a autenticidade seria o oposto da hipocrisia”.

Seria possível pensar, na visão de Winnicott, o canalha sincero, o fanático autêntico, o nazista de boa-fé?

A boa-fé, nos adverte Comte-Sponville, não é virtude nem suficiente nem completa: “ela não prova nada. Quantos canalhas sinceros, quantos horrores consumados de boa-fé? E, muitas vezes, o que há de menos hipócrita do que um fanático? […] Um nazista de boa-fé é um nazista: de que adianta sua sinceridade?”. Para que a boa-fé aconteça de fato como virtude ela precisaria ser acompanhada pela generosidade, pela justiça e pelo amor.


Nesse último parágrafo, já é possível assinalar a diferença que há no conceito de autenticidade entre os dois autores, Winnicott e Sponville. Seria possível pensar, na visão de Winnicott, o canalha sincero, o fanático autêntico, o nazista de boa-fé? Não, não seria, pois nesses três tipos haveria aviltamento do caráter, dissociação na personalidade e perda da esperança (que, no vocabulário do psicanalista inglês, significa doença).


Para colocar em evidência o ponto crucial (o busílis) da divergência entre os dois autores, destaco a concepção que Sponville nos apresenta sobre a polidez. Ela seria, segundo esse autor, “a primeira virtude e origem de todas […]”. [a polidez] “faz pouco caso da moral e vice versa […]. [A polidez é] “aparência de virtude e apenas isso”. Sponville nos apresenta a polidez como pura imitação destituída de moralidade, imposta por proibições externas ao indivíduo. A partir do uso, da imitação, o indivíduo iria, pelo costume, desenvolver as verdadeiras virtudes.

E é nessa na visão disseminada na sociedade em que vivemos, que celebra a exteriorização narcisista […] que Bolsonaro pode ser ‘legitimamente’ considerado autêntico

Eis aí em que reside a diferença essencial entre eles: para Sponville, as virtudes, entre elas a autenticidade, são constituídas, e até mesmo impostas ao indivíduo pelo processo educativo; já para Winnicott, o sentimento moral se desenvolve espontaneamente no indivíduo desde que não haja imposição; a autenticidade é alcançada pela personalidade que não foi tolhida em suas manifestações criativas originais. Para o psicanalista inglês, há alguma coisa sagrada no cerne da personalidade, que é original, e que se desenvolve naturalmente para o amor e para as virtudes se este cerne não for perturbado, invadido, aviltado. Aqui o meio tem o papel de oferecer sustentação para que esse núcleo original se desenvolva de modo autêntico.


Colocar essas duas concepções diferentes e respeitáveis sobre a autenticidade em relação dialética uma com a outra, confrontá-las, enriquece, a meu ver, o atual debate sobre o termo.


Há ainda um sentido mais corriqueiro, muito difundido em nosso mundo contemporâneo, de que o indivíduo é tanto mais autêntico quanto mais ele buscar e obtiver sucesso em realizar suas necessidades narcisistas em suas relações sociais. E é nessa visão disseminada na sociedade em que vivemos, que celebra a exteriorização narcisista, que aplaude a exposição pornográfica da (falsa) intimidade, que se regozija com a falta de decoro, com a afirmação de nossas piores tendências, que Bolsonaro pode ser “legitimamente” considerado autêntico. Mas aí, por essas mesmas razões, já se denuncia algo que não anda bem em nosso mundo. Algo se empobreceu em nós mesmos, pelo lugar ínfimo que concedemos ao outro, e sobretudo, pela precarização da vida interior que testemunhamos.

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