POIZÉ

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CRIANÇA FELIZ, FELIZ A CANTAR, ALEGRE A EMBALAR SEU SONHO INFANTIL

7/10/2010

Eu era feliz? Eu não sabia.

 
Todos somos vítimas de nossa infância, de um modo ou de outro. As inúmeras atividades, esforços, peripécias para sustentar uma vida adulta difícil, muito difícil, nos fazem recorrer à ideia de um paraíso perdido,  a fantasias idílicas sobre uma feliz vida infantil. Generosos esforços reparatórios.
 
Mas a infância foi, é e será mesmo um mar de rosas como nos fazemos crer? 
 
“Criança feliz, feliz a cantar,
alegre a embalar seu sonho infantil
ó meu Bom Jesus, que a todos conduz,
olhai as crianças, do nosso Brasil”
 
Bobagem. O ser humano nasce precário e fragmentado e só vai se constituindo mais integralmente num processo onde não faltam nem trancos nem solavancos. A começar da dura jornada do parto, nossa vida é inaugurada por rupturas, choro, frio, e segue um cortejo de dificuldades sem fim, com duras e penosas conquistas; desamparo em um mundo de adultos, uma incompreensão sem limites, embates na socialização, acossado por sentimentos ambivalentes em relação aos pais e irmãos, premido por impulsividades sexuais que não podem ser realizadas, e por aí vai. Desamparo, porém imbuído de ideais de completude. 
 
Ora, não é à toa que um dos maiores devaneios da vida infantil é tornar-se adulto, crescer rapidamente, fugir dos fantasmas que a atacam, e desfrutar, por fim, do fantasiado alegre porvir da vida adulta. Criança pensa de modo difuso, à moda da fantasia.
 
Devaneios deste tipo se prolongam até após a adolescência, e, se olharmos com cuidado, os identificamos em lampejos e fragmentos dos já mais maduros: até nestes persiste&insiste a ilusão de um mundo melhor, e sonham reiteradamente com a realização de desejos, como se estivessem embebidos numa espécie de tarefa de retificação da vida real. Assim, em uma esperançosa ilusão, nos sonhos dos adultos é recorrente a (re) valorização dos pais; como numa dívida impagável. 
 
Freud, em Lembranças Encobridoras (1899) e em Romances Familiares (1909), discute a complexa reinscrição das lembranças da primeira infância. Na verdade, não possuímos lembranças factuais da nossa infância, e sim lembranças relativas à nossa infância reconstituídas a posteriori - é tudo que podemos ter. “Nossas lembranças infantis mostram-nos nossos primeiros anos não como eles foram, mas como nos apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas”.(Lembranças Encobridoras) As lembranças não teriam valor de per si, mas sim às relações existentes entre aquele conteúdo lembrado e algum outro que foi suprimido. 
 
No seu processo de amadurecimento, o ser fragmenta lembranças, recalca episódios traumáticos, realça recordações confortadoras; enfim, romantiza sua vida infantil em puros mecanismos de defesa. A pesquisa  psicanalítica minuciosa demonstra antes que estas falsificações de lembranças seguem uma tendência –  elas servem a objetivos de repressão ou de deslocamento das impressões de experiências tidas como repulsivas ou desagradáveis.
 
Na experiência clínica, após rupturas de certas resistências, iniciam-se as dolorosas recordações que se destacam do romancear e do encobrimento e revelam suas verdadeiras conexões: um chicote de rabo-de-tatu pendurado na porta, chiados de bronquite asmática, o difícil controle dos esfíncteres, as estapafúrdias teorias sexuais infantis, a humilhação diante de maiores, o medo da hostilidade na socialização, o pavor de fantasmas, os terrores noturnos. A cena primária testemunhada ou fantasiada - constatação da vida sexual dos pais - é aterradora para a criança, uma experiência incontornável e de fazer o coração entupir a garganta.
 
Já nos ensinam os Contos da Carochinha que nos povoam na infância que no universo infantil há cisões variadas. Fantasmas e terrores nos atravessam e apavoram, mas  coabitam com experimentações e promessas de delícias. Mistérios dolorosos e gozosos que se entrelaçam. 
 
Sem gozo quase algum, temos as Experiências mais arcaicas que são reveladas por vivências de fobias experimentadas na atualidade e fontes de muitas angústias - as chamadas ansiedades impensáveis: queda sem fim, fragmentação, incomunicabilidade total, esmagamento -, são guardadas na memória corporal. Experimentadas precocemente, são mantidas como marcas indeléveis no psico-soma e perduram pela vida a fora.
 
Bem, se a existência infantil primária, e que se esconde na amnésia, é sempre  difícil, as experiências em etapas posteriores não lhe ficam atrás. À primeira infância segue-se a dura travessia do período de transitoriedade da latência que exige esforços sublimatórios, a dessexualização de objetos, o aparecimento dos diques morais do pudor e da repugnância, a imposição do  aprendizado formal, as rupturas violentas com o brincar espontâneo.
 
A puberdade, fim da infância e prenúncio da adolescência, também não é simples. Há a perda progressiva do corpo infantil, a ruptura com os pais da infância, novas demandas sociais, o temor ao enfrentamento da socialização competitiva, o anseio por alcançar as fantasiadas benesses da genitalidade.
 
Se ontem era assim, hoje nem se fala. A tal  e atual sociedade da imagem torna o processo de amadurecimento infantil mais atordoante: expectativas narcisícas parentais desmedidas, o brincar estupidamente pedagogizante, a erotização precoce, as exigências descomunais de desempenho, o encurtamento do período de latência, a sexualização precoce na puberdade. 
 
Felicidade infantil mais parece um outro conto da carochinha.
 
Tempos difíceis, né? Mesmo assim, Bom Dia das Crianças para todos. Especialmente para o Cláudio que está sessentando nesta data.
 

COMENTÁRIOS:(3)

  • 7/10/2010 19:25:46
    Nome:MARIA LUIZA GUIÃO BASTOS
    Site / Blog:www.psicorama.com.br
    Comentário:Caros! adorei o texto, vou dividi-lo pois está atualíssimo, e excepcionalmente bom. A autoria não surge -é assim mesmo que Vocês desejam?! Bem, não importa, realmente, importa é o bem que faz. Grata!

  • 7/10/2010 21:02:28
    Nome:ANA MARIA
    Comentário:Gostei do texto:claro e verdadeiro.Fez-me ver com ainda mais clareza o que me leva a ter tanta solidariedade(identificação?) com as crianças.

  • 9/10/2010 10:57:19
    Nome:ANDREA
    Comentário:Eu não era feliz e não sabia?

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