POESIA E PROSA

NASCEM VARÕES

29/4/2010

A crônica do Rubem Braga de julho de 1949 é irretocável.

Rubem Braga

Do quarto crescente à lua cheia o mar veio subindo de fúria até grande festa desesperada de ondas imensas, e espumas a ferver. Vi-o estrondando nas praias, arrebentando-se com raiva nas pedras altas. O vento era manso, e depois do sol louro e alegre vinha a lua entre raras nuvens de leite; mas o mar veio crescendo de fúria; e as mulheres de meus amigos que estavam grávidas, todas deram à luz meninos. Sim, nasceram todos varões.

Nascem varões. O poeta Carlos faz um poema seco e triste. Disse-me: quando crescer, Pedro Domingos Sabino não lerá esses versos, ou então não os poderá entender. O poeta contempla com inquietação e melancolia os varões do futuro. Não os entende; sente que neste mundo estranho fluido as vozes podem perder o sentido ao cabo de uma geração; entretanto faz um poema. Sinto vontade de romper esse momento surdo solene em que mergulhamos; ora bolas, nasceu um menino. Afinal meninos sempre nasceram, e inclusive isso é a primeira coisa que costuma fazer: aparentemente essa história é muito antiga, e talvez monótona. Mas estamos solenes. As mães olham os que nasceram. Os pais tomam conhaque e providências. O mundo continua.

O que talvez nos perturba um pouco é esse sentimento da continuação do mundo. Esses pequeninos e vagos animais sonolentos que ainda não enxergam, não ouvem, não sabem
nada, e quase apenas dormem, cansados do longo trabalho de nascer - ali está o mundo continuando, insistindo na sua peleja e no seu gesto monótono. Nós todos, os homens, lhes daremos nosso recado; eles aprenderão que o céu é azul e as árvores são verdes, que o fogo queima, a água afoga, o automóvel mata, as mulheres são misteriosas e os gaturamos gostam de frutas. Nós lhes ensinaremos muitas coisas, das quais muitas erradas e outras que eles mais tarde verificarão não ter a menor importância.

Este lhes falará de Deus e santos; aquele, da conveniência geral de andar limpo, ceder o lado direito a dama e responder as cartas. Temos um baú imenso, cheio de noções e abusões, que despejaremos sobre suas cabeças. E com esses trapos de idéias e lendas eles se cobrirão, se enfeitarão, lutarão entre si, se rasgarão se desprezarão e se amarão. Escondidas nas dobras de bandeiras e flâmulas, nós lhes transmitiremos; discretamente, nossas perplexidades e nosso amor ao vício; a lembrança de que todavia não convém deixar de ser feroz; de que o homem é o lobo do homem, a mulher é o descanso do guerreiro; frases, milhões de frases, o espetáculo começa quando você chega, um beijo na face pede-se e dá-se, se quiser ofereça a outra face, se o guerreiro descansa a mulher quer movimento, os lobos vivem em sociedades chamadas alcatéias, os peixes são cardume, desculpa de amarelo e friagem e desgraça pouca é bobagem. Armados de tão maravilhosos instrumentos eles empinarão seus papagaios, trocarão suas canelas, distribuirão seus orçamentos, amarão suas mulheres, terão vontade de mandar, de matar e, de vez em quando, como nos acontece a todos, de sossegar, morrer.

Penso nessa jovem e bela mãe que tem nos braços seu primeiro filho varão. É o quadro eterno, de insuperável, solene e doce beleza, a madona e o bambino. Poderia ver ao lado, de pé, sério, o vulto do pai. Mas esse vulto e pouco nítido, quase apenas uma sombra que vai sumindo. Ele não tem mais importância. Desde seu último gemido de amor entrou em estranha agonia metafísica. Seu próprio ser já não tem mais sentido, ele o passou além. A mãe é necessária, sua agonia é mais lenta e bela ela dará seu leite, sua própria substância, seu calor e seu beijo; e à medida que for se dando a esse novo varão, ele irá crescendo e se afirmando até deixá-la para um canto como um trapo inútil.

Honrarás pai e mãe – aconselha-nos o Senhor. Que estranho e cruel verbo ele escolheu! Que necessidade melancólica sentiu de fazer um mandamento do que não está na força feroz da vida! Tem o verbo “honrar” um delicado sentido fúnebre.

Mas nós, os honrados e portanto os deixados à margem, os afastados da vida, os disfarçadamente mortos, nós reagimos com infinita crueldade. Muito devagar, e com
astúcia, vamos lhes passando todo o peso de nossa longa miséria, todos os volumes inúteis que carregamos sem saber por que, apenas porque nos deram a carregar. Afinal, isto pode ser útil: afinal, isto pode ser verdade; isto deve ser necessário, visto que existe. Tais são as desculpas de nossa malícia; no fundo apenas queremos ficar mais leves para o fim da caminhada.

Muitos desses pais vigiaram a própria saúde para não transmitir nenhum mal a próxima geração; purificaram o corpo antes de se reproduzirem. Cumpriram seu rito pré-nupcial e depois, na carne da mãe, já fecundada, prosseguiram em cuidados ternos, como se esperassem ver nascer algo de perfeito, um anjo, limpo de toda mácula.

Procuram assim, aflitamente, limpar em pouco tempo todos os longos pecados da espécie, toda a triste acumulação de males através de geração. Agora [os pais] estão com a consciência tranqüila; agora podem começar a nobre tarefa de transmitir ao novo ser o seu vício e a sua malícia, a sua tristeza e o seu desespero, todo o remorso dos pecados que não conseguiram fazer, todo o amargor das renúncias a que foram obrigados. O menino deve ser forte para agüentar a vida - esta vida que lhe deixamos de herança. Deve ser bem forte! Forremos sua alma de chumbo, seu coração de amianto.

Nascem varões neste inverno; a lua é cheia, o mar vem cresce de fúria sob um céu azul. Mas sua fúria sagrada é impotente; nós só viveremos: o mundo continua. E as ondas recuam, desanimadas. 

*
 
Do jeito que o cronista descreve a mãe pros filhos (pra Jesus Cristo foi assim mes-mo, não se voltou pra ela e, se não me engano, a cena faz parte de um relato que termina com "deixa os mortos enterrarem os seus mortos"), a mãe virou um winnicottiano "objeto transicional": a criança precisa dele como da própria vida, não o larga um instante e, de repente, feito carneiro que pára de saltar na campina e abaixa a cabeça ao atingir a maturidade, abandona o "trapo".

E é bom que seja assim. Pra mãe e pro filho. Honrar tá de bom tamanho, sem exagerar demais. Até a advertência contra os dramas edípicos aparece nessa escolha: "honrar".

Mas, pode-se passar mais pros filhos, além das incertezas&conteúdos maliciosos. Pode-se passar a "malícia" em si. E algumas certezas.

Certa vez, uma pessoa lembrava dos natais na infância, e se apresentava como cristão. Pouco depois citou umas linhas conhecidas ("caminhante não há caminho, se abre caminho ao caminhar") e euzinho exclamei: "Alto lá!". Revidei: "Jesus disse, ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim’ Cristão não é espírita e não é hinduísta. Tem só uma chance. Nasce só uma vez. Se vai alcançar a vida eterna ou não depende do que fizer enquanto estiver vivo pois sua vida individual tem começo&fim" (ou algo por estas bandas).

Hoje em dia a gente quer "tudo" como crianças com o menu do McDonald’s. No entanto, ao contrário do infinito das 1000&uma noites árabes ou as aventuras do herói com o qual uma tchurma inteira se identifica, na cultura "judaico-cristã" do Ocidente existe só isso: "Era uma vez Lara, Loredana, Luiz e Cássio...". Só uma pois o resto é repetição, conto de fadas...

Outro dia saquei que histórias de fadas descrevem um evento único que é tão traumático que precisa ser repetidamente apresentado na repetição do seu "Era uma vez". Porque não são duas vezes o que, por si só, assusta. Ainda me lembro da cara do garoto no filme do Superhomem, depois que este o salvou de uma queda nas cataratas do Niágara, se agarrando a capa vermelha e gritando: "Again! Again!". O grande atrativo do cristianismo está no fio duro do que não se repetirá nova-mente. Só me aflijo com a promessa de um paraíso chegando no final (acho que não mereço o inferno!). A vida, não será esta uma dádiva suficiente??

E a mãe?!?? Ah, mãe é uma só e não tem como repetir o petisco. Pode honrar os ossinhos. Pode honrar a memória.

Já as mães, ou os pais se abrem em multiplicidades futuras.

COMENTÁRIOS:(3)

  • 1/5/2010 11:13:08
    Nome:CÉLIA
    Site / Blog:www.sensivelldesafio.zip.net
    Comentário:Pois é, mãe é uma só e cada um tem a sua sem direito a devolução...Mais que uma só, mãe é única em cada momento, em cada manifestação do "ser mãe." Difícil alguém "reeditar" os mesmos zelos e as mesmas manias..Quando as perdemos, até os seus "excessos" deixam um vazio. Igual à mãe,nunca mais!!Mães são peculiares como os filhos, cada um é um, e a gente às vezes nem sabe como podem pertencer à mesma família, à mesma "ninhada", tão diferentes uns dos outros....Interessante é que um dia invertemos papéis e passamos a ser pais dos nossos pais,embora a gente queira sempre o "aconchego materno", mesmo quando as mães já andam frágeis como papel de arroz. Drummond descreve bem a eterna "emoção filial": "Fossse eu Rei do Mundo,/ baixava uma lei:/ Mãe não morre nunca,/ mãe ficará sempre/ junto de seu filho/ e ele, velho embora,/será pequenino/ feito grão de milho." ...Mas não sei não Drummond, se ser "filho/ milho," seria bom...Milho precisa crescer e...dar espigas.

  • 1/5/2010 22:09:19
    Nome:PAULO
    Comentário:Como assim "intocável"? Não seria irretocável???

  • 2/5/2010 11:09:05
    Nome:ANTONIETA
    Comentário:Idealizações, idealizações e mais idealizações: toda carga de frustrações pretéritas. Este é o legado ofertado à sua majestade,o bebe.