POESIA E PROSA

DEIXE MINHA CULPA EM PAZ

9/12/2009

Vejam como ele brinca com as culpas...

 
Fabrício Carpinejar
 
Todos, aviso: todos!, pedem para que me livre da culpa. Assuma meus atos. Não transfira a responsabilidade.

Todos, aviso: todos!, são desencanados, leves, budistas. Ou tentam parecer que se entendem.

A culpa estragaria, a culpa imobilizaria, a culpa nos induziria a enganos. O problema é sempre da culpa.

Não desperdiço, não jogo fora a minha culpa. Minha culpa é pai e mãe, é Espírito Santo. Família é boa para gerar traumas, aproveitemos, traumas são as únicas lembranças que não serão esquecidas.

A culpa nos torna atentos, missionários dos cílios. O homem só é romântico com a culpa. As flores criminosas crescem à vontade na ponta de seus dedos. Homem culpado é humilde e amoroso como um chapéu na cadeira, um avental no gancho. O sexo é muito mais intenso e voraz com a culpa. Trepa-se como se fosse a última vez sempre. Os pais pedem desculpas pela culpa. Largam a arrogância dos castigos pela audição dos pés. Os bichos aprendem seus hábitos pela culpa. Trocam o cativeiro pela obediência.

Culpa, ó palavra bonita, gostosa de se repetir, dádiva próxima do perdão.

Culpa é voltar para o lugar que nascemos. É se arrepender antes de fazer e continuar fazendo. Uma teimosia que nos leva à perfeição dos erros. Um erro perfeito é virtude. A culpa, não consigo parar de repeti-la, não nos resolve, é um tratamento sincero. Não nos salva, é uma verdade médica. Percebemos que sempre nos enganaremos. Mas é se enganar com gosto, com vontade.

Quem procura se curar é careta. A culpa não tem cura, é libertina, libertadora, retirar adrenalina de todo pecado. Ou alguém nunca se sentiu culpado por nascer? Culpado por amar? Culpado por ser sincero? Culpado pelo talento ou pela falta de talento?

Não pretendo pagar a conta sozinho. Sem culpa, eu me isolo, eu me vejo independente e pronto. Consumido. Não há vela que não se derreta por todos os lados. Culpa é minha crisma, minha primeira comunhão, a alegria de saber que Deus está me enxergando.

Culpa me limita, me põe a recuar na raiva, a desistir da arma e da faca, me violenta antes que cometa violências. Ninguém mata o outro com culpa. A culpa é civilizada. Que tenha culpa antes do que depois.

Sem culpa, não existe vida eterna. É vassoura e cinzas. Uma pazinha e acúmulo de asas transparentes na horta.

Sem culpa, não existe literatura, sequer leitor angustiado pelo final da história.

Aproximem-se, fiéis, da culpa. Para comprar um apartamento, dependo de fiador. A culpa é o fiador da memória. A conversa fiada do medo. Não bancarei minhas falhas, não sumirei com a nota fiscal da taverna. Se não gozar, coloque a culpa nela. É melhor do que arrebentar de estresse. Se não for feliz, coloque a culpa nele. É melhor do que acumular pedras nos rins. Não tome as culpas para si, não seja egoísta. Doe sua culpa para doer menos. A culpa é contagiosa.

Não procure manter a pose de esclarecido, centrado, tranquilo. A teoria não prevê um cavalo atravessando um rio. Somos um cavalo nadando.

 
*

 
Gostei da crônica porque foi escrita de um modo resoluto&resolvido. Não sei se todas as conclusões combinam entre si, mas a lista foi grande.

Na véspera da leitura sem carpições tive um momento interessante ao anoitecer, talvez ligado à culpa, mas não sei porque, se ela existe, pra mim é algo inconsciente. Foi ligado ao pecado original e ao mito sobre a queda de Lúcifer... no caso dos cristãos, sempre a idéia de "felix culpa", já perdoada de antemão.

[Devo ter ficado a ler William Blake demais e a visitação noturna não se deixou esperar. Acho que eram os tomistas (jesuítas, portanto) que definiam o mal como "ausência do bem" e não como força ativa. E, em Freud, a pulsão de morte não deixa de ser, como o veneno da cobra, algo totalmente "natural". Outro dia, pressenti um "mal" ativo, onipresente como nas lendas populares sobre k-petas&demos. Martinho Lutero, contam, jogou um tinteiro contra eles e até ontem achava que foi um episódio alucinatório. E o que me deu essa intuição da "pura maldade"?? Nem sei ao certo porque não é ligada a bondade ou maldade, mas a uma quebra de conexão. Como se acreditar, em excesso, na individualidade fosse o pecado mais grave e o único que não seria perdoado porque arroga o nietzscheano a um lugar fictício de "além do bem e do mal"]
   
Pena que dormi em seguida.

Mas já vivemos também a voracidade do entrelace sexo&culpa ao surpreender-espiar, coração pela boca, o embate surpreendente dos pais na (semi)calada da noite - a decantada e inesquecível cena primária. E por acaso já viveu quem não experimentou o transbordante tesão do sexo nas esquinas&desvãos da vida?? Tudo como se fosse pela primeira e última vez!?
 
Andamos por essas bandas? Quando não in totum, ao menos em boa parte??

Sexo sweeet&gentle é apaziguador, confortante. Fica sempre a dúvida, porém, se novamente se fará presente&reconfortante como a cada incursão... (?)

Já sexo-transgressão - no bom sentido (rss) com eventuais arranhões psíquicos - traz à tona culpas cristãs que, devidamente escorraçadas, o tornam delicious...
 
Enfim... essa eu não imaginaria nunquinha, ficar privado de algumas emoções "sensacionais" por não viver a culpa das transgressões... Será que, pros menos-atormentados, será preciso fazer ainda mais&mais&mais psicanálise até a culpa ficar todinha na ponta da língua?? Ou das "flores dos dedos"?!??

COMENTÁRIOS:(3)

  • 10/12/2009 17:22:57
    Nome:CÉLIA
    Comentário:Haikai para Baudelaire/ Toco as "flores do mal" com as pontas dos dedos/ cheiro como um bicho/ o perfume inebriante do pecado/ algo errado???

  • 10/12/2009 18:53:10
    Nome:SUELI - PORTO ALEGRE
    Comentário:É VERO !!!!! abraço no blog

  • 10/12/2009 23:50:42
    Nome:LOREDANA
    Site / Blog:www,psicorama.com.br
    Comentário:E se non è vero, è ben trovato!