PERGUNTE AO PSI

Data: 14/10/2009
Nome: Lila pereira
Pergunta: Sou gaga,mas falando sozinha,sou fluente.Por que isso acontece? Gostaria de ser sempre verbalmente fluente,mas "tranco". Obrigada , abraços
Sexo: Feminino
Idade: 59
Estado: RS


Resposta:

A constituição do ser é gradual, progressiva e se sustenta em uma integração psicossomática – esta só se viabiliza com os recursos biológicos potenciais e seus desenvolvimentos em um ambiente que acolha, proteja e promova. Assim, partes do corpo e suas funções ganham proeminência em certas fases do amadurecimento.

 

Vejamos as questões da oralidade.

 
A boca, o nariz, e os outros componentes desta área corporal como a orofaringe, a laringe e as cordas vocais, o maxilar, etc, são fundamentais para as questões ligadas à oralidade: alimentação, comunicação, agressividade, principalmente. Quando há falhas substanciais na constituição desta região relativas a essas funções, podem ser acarretados vários agravos à saúde.

 

Um cliente veio ao consultório com a queixa de que seu rosto era torto, com o nariz apontando para o lado e as faces disformes: isso lhe causava muitas angústias e horas frente ao espelho, além de sistematicamente cobrir a face com as mãos e só se sentar diante de outro com o perfil direito exposto. À observação direta, entretanto, o rosto mostrava-se perfeitamente simétrico; ao falar, porém, seus lábios se contorciam e contorcem assimetricamente, principalmente quando está angustiado.

 

Os desdobramentos da clínica apontaram para a repetição de um padrão: desde onde alcança sua memória – 3 anos de idade - falava e fala para uma mãe que não pára nunca para ouvi-lo: desvia o assunto, muda constantemente de atividades, o interrompe sistematicamente,  tranca a porta do quarto diante de suas demandas deixando-o falando sozinho – sempre com sua comunicação em suspensão, sua agressividade impotente, e caíndo em oralidades

 

Winnicott conferiu muita importância para as áreas do corpo que permanecem parcialmente apartadas da integração psicossomática: causam estranhamentos, cisões, disfunções e sofrimentos. No caso do rapaz da cara-torta, o reconhecimento destas falhas repetitivas, a experiência de tristeza e raiva por ter sido mal cuidado e as implicações disso em suas dificuldades atuais, abriram as portas para o surgimento de atitudes com mais agressividade necessária, uma comunicação mais incisiva e em esforços para superar vícios ligados à oralidade.

 

Penso que a gagueira deva ser abordada da mesma forma. Lógico que os esforços de comportamento que atenuam a gagueira devem ser respeitados, mas veja bem: sua gagueira só se dá diante do outro. O outro-primeiro é a mãe, a mãe-ambiente que acolheu você. Assim, a hipótese de que houve aí falhas para sustentar seus primeiros intercâmbios com o mundo. Afinal, mamãe vem de mamar: ali, onde se dão as primeiras relações do ser com o mundo, através da alimentação, da comunicação e da agressividade.

 

A gagueira é um disfunção muito precoce e não há como contorná-la diretamente. Somente com procedimentos que permitam se apropriar mais da sua agressividade essencial, do seu potencial comunicativo, você poderá integrar progressivamente essa parte fragmentada do seu ser.

 
Mais uma coisa: falhei na demora da resposta e mais uma vez você ficou falando sozinha. Espero ajudar a reparar.

Nome: Luiz Henrique Alves - Em teoria, especialista em psicanálise, psicodrama e medicina preventiva; na prática, uma certa alquimia com o que parece funcionar. Como diria o Donald: Se puder, faço psicanálise, se não puder, faço outra coisa.
E-mail: psicorama@psicorama.com.br

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