PERGUNTE AO PSI

Data: 25/5/2009
Nome: Corrado Barale
Pergunta: Como a psicologia já encarou e agora encara as diversas facetas da adoção? Quais as principais diferenças de postura e aceitação da criança que é adotada com poucos meses de vida e só depois vem a saber de tal fato em contraste com crianças de 4, 5, 6, 7 anos ou mais que ao serem adotadas já possuem plena consciência dos fatos que envolvem a adoção?
Sexo: Masculino
Idade: 43
Estado: SP


Resposta:

Sobre a primeira parte da pergunta, penso que não se trata somente de como a ciência da Psicologia vem mudando seu olhar para a família por adoção, mas um processo de transformação cultural mais ampla. A cultura da adoção construída no Brasil vem da época pós-abolicionista, quando centenas de crianças negras morriam nas ruas e a Igreja, para protegê-las, e com o intuito de que não morressem pagãs, inaugura os primeiros abrigos de crianças. São criadas as “Rodas dos Enjeitados” ou “Rodas dos Expostos”, pesada nomenclatura para os bebês que, por motivos diversos, não podiam ser criados por suas mães biológicas.

A partir dessa realidade desenvolve-se a cultura de “pegar crianças para criar”, um ato de “caridade generosa” que transforma essas crianças em filhos que não são filhos de verdade, na realidade são pequenos trabalhadores domésticos quem devem ser gratos a quem lhes acolheu, pagando por seu trabalho com casa e comida. A legislação brasileira, somente no início do século vinte, começa a reconhecer a existência dessa figura do “filho adotivo”, com enormes burocracias que causavam a lentidão no processo e reforçava a discriminação; com exemplo, o registro civil da criança deveria conter os nomes dos pais biológicos, abaixo uma observação explicitando ter sido ela adotada e citando os nomes dos pais adotivos.
 
A burocracia jurídica, os preconceitos e discriminação de toda ordem, forçam a inclusão na nossa cultura da adoção ilegal e escondida, quando os pais adotivos registram em cartório o filho adotivo como se fosse seu filho biológico. Toda essa construção cultural da adoção contribuiu para que no imaginário popular e nas entrelinhas da ciência, a família por adoção seja considerada uma família de segunda classe, de menor valor. Para proteger seu filho e protegerem a si próprias, a maioria das famílias adotivas escolhiam, e até hoje algumas ainda escolhem, manter a adoção em segredo, e o segredo precisa ser preservado dentro da família e fora dela. A transformação dessa cultura vem retirando a adoção desse mundo do segredo e influenciando as ciências da Psicologia, do Direito, do Serviço Social, da Pedagogia, da Antropologia, que também passam a reconhecer a necessidade de aprender mais sobre esse tema, principalmente reconhecendo que a criança é um sujeito de direitos e tem o direito de crescer em família, seja ela biológica ou adotiva. 
 
O Estatuto da Criança e do Adolescente vem desburocratizar o processo jurídico, reconhecer a adoção da criança resguardando seus direitos de cidadã, e inverte a ótica de que não se busca uma criança para os adultos, mas deve-se buscar a melhor família para a criança que estiver disponível para adoção. A sociedade civil se organizou, e o Brasil é o único país do mundo com uma extensa rede de ONGs que se identificam pelo nome de “Grupos de Apoio à Adoção”.
 
Atualmente são mais de cem Grupos de Apoio à Adoção, com participação de famílias adotivas, psicólogos, assistentes sociais, advogados, professores, que vêm construindo uma nova cultura de adoção. A adoção, tratada como um segredo de família, um segredo que mistura essa tentativa de se proteger do preconceito externo, é também um movimento de auto-proteção em relação às dores da construção da família adotiva. A família adotiva é uma família como qualquer outra, seus filhos crescem e passam pelo mesmo processo de desenvolvimento que qualquer criança. 
 
Vivemos em um mundo com uma diversidade de estruturas familiares, que só se diferenciam por algumas especificidades, é o caso da família mono-parental, da homo-afetiva, a inter-racial, da adotiva, das recasadas e muitas outras composições. Dentre as especificidades da família adotiva, talvez a que chame mais atenção seja a de como devemos lidar com a revelação das origens da criança e, consequentemente, o que fazer com a presença simbólica e real da família biológica na história de vida da família adotiva.
 
Nesse caminho, muitas ansiedades e angústias são vivenciadas pelos pais adotivos. Se a criança foi adotada muito pequena, portanto sem lembranças de sua família biológica, será necessária essa revelação que pode se dar naturalmente. Em algum momento (por volta de três a quatro anos) a curiosidade infantil provocará as primeiras perguntas relacionadas à percepção de que as crianças saem das barrigas das mães, e ela perguntará a sua mãe adotiva: “eu também saí da sua barriga?” ou “eu também morei na sua barriga?”. Nesse momento é importante que os pais adotivos entendam que essa criança não está perguntando se foi adotada, ela não tem maturidade para compreender o significado de “adotar”, ela só quer saber se saiu da barriga daquela mãe que lhe dá amor e colo. Basta dizer: ”Não. Você saiu da barriga de outra mamãe”. A criança repetirá essa pergunta diversas vezes e de formas diferentes, num processo de elaboração dessa informação. Também não é momento de sentir medo de que a criança possa querer conhecer seus pais biológicos, ela também ainda não tem capacidade de compreender o que significa “biológico” e não tem elaboração suficiente para iniciar esse tipo de busca.
 
A experiência dos Grupos de Apoio à Adoção e de algumas pesquisas recentes, mostram que o filho adotivo que conhece sua origem desde cedo raramente manifesta desejo de buscar a família de origem; os que o fazem, em geral descobrem, ou confirmam, sua condição de adotivo na adolescência ou já adultos. A mãe biológica será eternamente presente nessa família, às vezes mais intensamente, por exemplo, com referencias diretas: “você conheceu minha mãe de barriga?”. Outras vezes, após períodos de “desaparecimento”, retorna nas tarefas escolares, nas aulas de ciência, genética, religião e outras abordagens das origens humanas.
 
E quando a criança é adotada já grande? Vem com uma história de vida de convivência com sua família biológica, nem sempre com boas lembranças, e um período de vida em uma instituição de abrigo. Não é necessário passar pelo processo de revelação das origens, ela sabe que está sendo adotada e tem lembranças de suas origens. Essa família adotiva precisa acolher essa criança com toda sua história, permitir que ela fale de suas lembranças e aos poucos encontre seu lugar nessa nova família.
 
Gosto de comparar esse processo com o que nós adultos vivenciamos quando começamos a namorar, queremos ouvir e conhecer a história da pessoa com quem iniciamos o namoro, saber do que ela gosta, quem é e como é sua família. Também queremos contar para ela a nossa história. Essa convivência pode ou não evoluir para o casamento. É mais ou menos assim, que funcionam os programas de adoção tardia: há uma exigência de um período de convivência antes da adoção, com diversas visitas à criança no abrigo, passeios de curta duração e retorno ao abrigo, evoluindo para passar finais de semana na casa dos possíveis pais adotivos, concluindo com a família e a criança sejam ouvidos pelos técnicos que acompanham essa aproximação, para que, finalmente, ambos possam dizer se querem pertencer a uma mesma família.
 
O desejo dessa criança de vir a pertencer a essa família também precisa ser manifesto, ela precisa querer adotar esses adultos como seus pais. Assim como nós adultos namoramos e casamos com uma pessoa com quem não temos laços sanguíneos, não negamos isso e não proibimos a pessoa que escolhemos para construir nossa nova família de falar de sua história anterior ao casamento, quem adota uma criança grande necessita compreender que não deve negar a história dessa criança, não deve proibi-la de falar de sua família biológica, pois estará negando e destruindo parte do “EU” dessa criança. Caso contrário, a criança terá dificuldades em se sentir filho por inteiro, e não dá para ser filho pela metade. Há crianças que sentem tanto medo de amar e passarem novamente pela dor da rejeição, que provocam vários tipos de “problemas” na família, como se estivessem testando o desejo e capacidade dessa família em acolhê-los como filhos, como se dissessem “se for para me devolver, façam isso logo, assim eu sofrerei menos”.
 
Podemos concluir que adotar é um ato de amor, mas que só o amor não basta, e é preciso se preparar para lidar com as especificidades da família adotiva, é preciso saber ouvir a criança, acolhe-la por inteiro, com toda sua história de abandono, seja um bebê recém nascido ou uma criança maior. E não ter medo do tamanho desse amor, que transcende os laços de sangue.

Nome: Vera Lucia Alves Cardoso, gestora pública, especialista em psicodrama pedagógico, fundadora do Grupo de Estudos e Apoio à Adoção de Goiânia e autora do livro “Você me quer para ser sua mãe?”
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