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NEOCAROLAS DO BRASIL, UNÍ-VOS!

18/10/2010

Desde o fim da ditadura, fato conseguido, aliás, através da luta constante dos mais variados movimentos sociais apoiados por uma frente ampla de oposição que aglutinou os setores progressistas e de esquerda, houve avanços significativos naquilo que alguns acadêmicos chamam de mentalidade política. Por mentalidade política subentende-se a forma como se concebe o poder do Estado, o exercício da cidadania, a liberdade de organização social e de expressão, a circulação da informação e da cultura, etc.

 
No arcabouço do que se convencionou chamar de formação cultural do Brasil, sabe-se que as religiões tiveram e têm um papel preponderante na forma de pensar e de se expressar do povo brasileiro. Por isso mesmo, é de fundamental importância que seja assegurado que o Estado seja “laico”, ou seja, que opere e legisle de forma a garantir que todos os cidadãos sejam livres para usufruir do patrimônio material e imaterial público e dos avanços científicos que a humanidade vem conquistando.
 
Posto isso, é preciso ter muita clareza da diferença entre respeitar as mais variadas posições religiosas – já que isso está pressuposto num Estado democrático – e permitir que haja ingerência de dogmas particulares de uma determinada fé na administração da coisa pública.
 
Em tempos de recrudescimento, em escala mundial, dos fundamentalismos religiosos, estamos assistindo a algo muito preocupante no cenário deste segundo turno da disputa à presidência do Brasil.
 
Embora os dois candidatos venham da esquerda, cujos núcleos mais combativos se destacaram por lutar contra todo tipo de demagogia e populismo, ambos acabam envolvidos num bate-boca neocarola, recheado de hipocrisia e cinismo.

José Serra, no intuito de conquistar votos dos setores mais reacionários dos evangélicos e dos católicos, quer posar de bom cristão, ao mesmo tempo em que tenta demonizar a candidata Dilma Roussef, acusando-a de ser a favor da descriminalização do aborto. Além de ser uma atitude de baixíssimo nível e de uma tremenda incoerência de alguém que se diz progressista, empobrece enormemente o debate político, desviando-o de questões muito mais importantes relativas à administração de um país de dimensões continentais.

 
Dilma Roussef, por sua vez, ao invés de ficar na defensiva, tentando provar que também é uma boa cristã, desperdiça uma grande oportunidade de contra-argumentar que a questão do aborto, assim como a questão da ampliação dos direitos do casamento aos casais homossexuais, deveriam ser ampla e democraticamente discutidas pela nação, como questões relacionadas aos direitos civis e não como dogmas de fé, dando assim, um salto de qualidade decisivo para o avanço da mentalidade política brasileira, no sentido de se construir um Estado democrático, laico e moderno.
 
Enfim, posicionamentos políticos podem mudar dependendo da conjuntura, mas alguns pressupostos estruturais da democracia oriundos da modernidade, precisam se manter firmes e não devem ir ao sabor dos preconceitos e nem ceder diante de lobbies retrógrados que, infelizmente, infestam a política brasileira.

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