OLHO VIVO

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OCEANO MAR

19/6/2009

Certa vez, o pai de uma namorada me surpreendeu com uma pergunta, prefaciada por "você que é um rapaz inteligente e culto...". Assim: "diga-me, de uma vez por todas... Deus existe ou não existe?"

Não me lembro das várias interpretações possíveis. Recordei-me agora do caso quando li umas frases de Oceano Mar (editora Iluminuras) de Alessandro Baricco
.

-
Não complique as coisas, Padre Pluche. A questão é simples. O senhor acredita realmente que Deus existe?

- Bem, agora, existir parece-me um termo meio excessivo, mas creio que ele esteja, é isso, de um jeito muito particular, esteja.



"Existir parece-me um termo meio excessivo... "

Não sei se o verbo "ser" em italiano é como no português, quando distinguimos "ser" ou "estar" (alô, LOREDANA*). Deve fazer muita diferença pra nós que, com mais naturalidade, convivemos com os excessos de existir, de ser, de estar... né?

[* È si, caro: L’essere in italiano è proprio uguale al portoghese! E c’é pure un dettato che dice: "tra il dire e il fare, c’è in mezzo il mare"...]

Acho que em "existir" esconde-se a sub-stância (insisto? desisto? resisto à ânsia da instância?). Quanta coisa carregam as palavras se prestarmos-lhes atenção. E o que é hoje essa tal extante restante bastante substância? O que vem ao encontro do nosso sonho e não o destrói?

A tal frase do Baricco, sobre a demasia da existência de Deus, é uma das sentenças fundamentais do livro e nem me percebi disso na hora. Veja que elegante. Ele faz o Padre Pluche responder que Deus, se não existe, pelo menos "está" e, como exemplo, fala de um hóspede oculto que os demais inquilinos naquela estalagem apenas supõem estar habitando um dos quartos rente ao sótão: se o sabem lá "estar" (porque lhe entregam refeições regulares, luzes se acendem e apagam, há ruído de passos), ainda assim não tem como garantir que ele "exista".

 

E adorei a resposta da LOREDANA. Me reportou ao Calabar do Chico:

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto.

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa.

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa...


E, sigo com Baricco, Oceano Mar, com rompantes líricos às vezes excessivos, mas que depois se estabilizam e retornam à poesia, sem carnaval de sensações abstratas. Num dado momento ele quase sugere algo que, nunca, tinha percebido antes. Que, aquele que está na praia olhando o mar, está à beira de um abismo!! E foi assim que ainda, abismado, acrescentei à imagem do homem que não é uma ilha... Ora, ilha não é destroço flutuando no mar, é pico de montanha, tem conexão com as outras ilhas, conexões abissais... E Baricco descrevendo as fantasias sobre o mar, local demoníaco segundo Santo Agostinho na citação dele, é magnífico.

COMENTÁRIOS:(1)

  • 16/7/2009 17:57:19
    Nome:MARIO MAZEU
    Comentário:Gostaria de saber o que você respondeu para o pai da moça... Hoje, especificamente hoje, quinta feira, sei que, mais difícil do que exorcizar demônios é mandar às favas um Deus com síndrome de Down. Se existe, não sei mas... ôôôô se está aqui, sr. Gibilo!

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