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O DESEJO ANORÉXICO - NININHA IV

9/12/2010

O que deseja Nininha?


Deseja o mesmo que todos nós, alguma coisa inalcançável ou proibida: totalidade, incesto ou tocar no tabu da morte. Desejo enigmático, obscuro. O mito da felicidade perdida, para Aritófanes (O Banquete de Platão), estava na completude: o ser humano ancestral era pleno, redondo, bastava a si mesmo; tão feliz, provocou a inveja de Deus  que, em sua divina ira, dividiu o ser ao meio; até hoje vagamos por aí em busca da parte que nos falta para a felicidade.

No cotidiano, desejamos ali, aqui, acolá, com um desejo deslizante, incerto, transitivo entre objetos que são substituídos;  sobrevivemos porque nos colocamos distantes daquele desejo fascinante e inalcançável. Em uma palavra, realidade - submetemo-nos à função de realidade.

Mas como Nininha lida com a coisa?
 
Nininha parece ter uma satisfação alucinatória com os alimentos: tornam-se encantados para ela, venerados, quase sagrados. E não pode comê-los, engoli-los, incorporá-los. Faminta, grita com o corpo e o cola ao real. E o corpo confundido perde os contornos. Para os outros um corpo esquálido, encaixotado, sem sexo e sem Eros. Para Nininha um corpo balofo, gordo, obsceno e abjeto. Assim sua realidade psíquica organiza sua percepção, assim ela lida com a realidade.
 
O desejo alucinado de um corpo sem furo. O desejo de completude, o medo de não cumprir com as demandas do infante ego idealizado. Desejando parar o tempo, cai na vertigem da imortalidade. 
 
 
À Imagem de...
 

“Mm...” de mamãe e de mamar. Coincidência? Não. Em episódios de polarização eufórica de humor, pacientes, na maior parte do tempo deprimidos, relatam uma sensação agradável nos lábios, como um zunido, que vem espontaneamente, como se expressassem “Mm...” Estão jubilosos neste período, agraciados pela sorte, como se repetissem a antiga sensação quando acreditavam ser o preferido da mamãe.[1]  Experimente fazer “Mm..” e  poderá verificar que a  mesma entonação quase musical é freqüentemente expressada ao ver um prato esmerado e seu sabor prenunciado pelo aroma: apetite aguçado, antecipação de prazer e de saciedade. O bebê começa a emitir este som em torno dos dois meses de idade quando sente fome – expectativa de satisfação oral. E mãe é esta instituição que “dá de comer” o seu próprio corpo.
 
Mama é mãe em suas variações do grego, francês, espanhol, italiano, inglês, albanês, hebraico, e também na língua materna da mãe de Nininha. Vínculo inequívoco entre a instituição materna e a estruturação da linguagem.

 
Estamos deslizando para a assimilação da linguagem associada aos mecanismos de identificação. Além da hóstia, vem o canto de louvor: o surgimento do marcador no grande outro do discurso através da mãe. Em resposta ao grito virá o afeto, o rosto especular, a musicalidade,  a nomeação da necessidade – a introdução do corpo na cultura, na linguagem; a marcação da alteridade.
 
Nos processos identificatórios não há possibilidade de assimilação completa e assim, o outro pode tornar-se intrusivo.[2] O excesso agride, cria marcas de hostilidade; no limite, não organiza nem a alucinação, nem o imaginário e não dá acesso à simbolização. Essa sideração de plenitude pode ser o veículo de instalação de uma relação destrutiva de objeto, como no sadismo e no canibalismo. [3]
 
Esse caminho de identificação maciça, totalizadora por incorporação, tem sido um bom referencial teórico para pensar as adicções, com as quais os transtornos alimentares se assemelham.
 
Os desligamentos do eu do outro só se faz gradualmente, por movimentos paradoxais de avanços e recuos – introjeção, onde parece se instalar uma promessa: “você vai ver” - a idealização do eu. Nesta aposta, o eu pode ir gradativamente se distanciando da casa-corpo materno, do narcismo primário; mas carrega consigo a nostalgia do aconchego e o desejo do retorno. É lógico que não há  aí um eu capaz de tamanha atividade. Esse processo requer uma mãe “suficientemente má”.
 
Diante de embates traumáticos, uma das possibilidades é a busca do shangrilá alucinado. A idealização não é mais promessa, é urgência. Perde-se “la durée” do tempo e o sujeito pode ser tragado pela torrente vertiginosa do desejo de imortalidade.[4] Há regressão à maneira mais arcaica de identificação – a incorporação. É a fuga do complexo de castração onde poderia se instalar a incompletude e o desejo.
 
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[1] Greenson, R. R -  Investigações em Psicanálise, Rio de Janeiro, Imago , 1978
[2] Corazza, Leda – Fome de Que? – Colóquio de monografias/2004 Sedes Sapientiae. O texto que abrange também a tecitura familiar/geracional da bulimia, diz: “Devorar, engolir, expulsar, expressam não só a força da oralidade, mas a sustentação agressiva. O sintoma carregando a ambivalência e o mortífero, instalados nas relações familiares”.
[3] Alonso,S.L. – Novos Arranjos para a Melodia, in Desafios para a Psicanálise   Contemporânea, São Paulo: Escuta, 2003
[4] A vertigem da Imortalidade – título do livro de Paulo Schiller  sobre questões psicanalíticas em adolescente com doenças graves . São Paulo: Companhia Das Letras, 2000

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