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ANÁLISE JUNGUIANA

15/4/2010

É impossível dissociar a teoria quando se pensa na prática psicoterápica junguiana. As concepções de Jung sobre energia psíquica e inconsciente bem como os conceitos de arquétipo, símbolo, Self, complexo e individuação fornecem as bases para a abordagem clínica. Aqui, entretanto, darei apenas uma "pincelada" sobre alguns aspectos característicos da abordagem junguiana.
 
A questão colocada pela análise junguiana é mais o "para quê" do que o "por quê", ou seja, é uma teoria mais finalista do que causalista. Evidentemente há uma investigação sobre o passado e a história de vida do paciente, mas o foco se estende para o sentido e a direção apontada pela energia psíquica. Afinal, para que existe este sintoma? Qual seu sentido ou qual a indicação do que precisa ser integrado à consciência? Isto leva ao pressuposto de uma credibilidade maior dada ao material inconsciente, de que é lá que vamos encontrar as pistas para responder a estas questões. Em suma, quem vai "orientar" o processo é o inconsciente, onde estão não apenas os elementos perturbadores, mas o potencial de "cura", pois, segundo Jung, na psique há uma tendência natural para a auto-cura. Assim, à semelhança da visão homeopática, o desequilíbrio, a doença e o sintoma são vistos como a expressão da busca deste equilíbrio, da homeostase interna.
 
Falei em "cura", no entanto, a importância desta é relativizada na visão junguiana, pois em geral a análise vai muito além de uma melhor adaptação, resolução de conflitos ou alívio de sintomas. O processo de individuação é a meta maior da análise junguiana, que leva a uma ampliação da consciência cujo objetivo é o desenvolvimento da personalidade individual. Representa um esforço consciente da pessoa para tornar-se aquilo que ela “é”, aquilo que tem potencial para ser. É um processo, um caminho, e não um alvo alcançado. Portanto, nunca falamos: fulano está "individuado" (e também não é "individualismo").
 
Outro aspecto importante é que na relação terapêutica, o terapeuta não é o detentor exclusivo do "saber"; atua como uma testemunha ou um observador participante cuja tarefa é criar um campo ou espaço facilitador de acesso (e confronto) ao inconsciente, que chamamos de temenos ou de vaso alquímico, para que o processo de individuação seja posto em movimento. O que se pretende é que a pessoa estabeleça uma relação adequada com seu inconsciente.
 
O analista é o mediador, um Hermes, por vezes, uma Hécate levando as tochas para iluminar o caminho que, em condições ideais, já deve ser relativamente conhecido pelo analista. Daí a importância que Jung dava a análise pessoal do terapeuta. A imagem mitológica de Quíron, o curador ferido, é uma analogia bastante utilizada pelos junguianos em relação à figura do terapeuta nesta abordagem. A proclamada posição de imparcialidade do analista é questionada, pois a relação analítica afeta e transforma ambos, terapeuta e paciente: "ele (o terapeuta) é parte integrante do processo psíquico do tratamento" e "só vai curar na medida de seu próprio ferimento", diz Jung.
 
As principais indicações da análise são dadas pelos sonhos e símbolos mobilizados no processo. O símbolo tem um papel de destaque na teoria e prática junguianas. Símbolo para Jung é sempre algo que permanece em parte desconhecido, não é possível ser esgotado pela interpretação; é um mediador entre consciente e inconsciente. É possível que esta ênfase na abordagem simbólica da psique tenha dado margem à visão infundada sobre a psicologia analítica como sendo mística.
 
Amplificação é o termo empregado na Psicologia Analítica para o tratamento dado ao material simbólico. A amplificação se baseia no processo associativo utilizando analogias com referenciais mitológicos e culturais que ampliam o contexto e o significado das imagens simbólicas. Funciona como um mapa para a compreensão dos padrões arquetípicos atuantes na dinâmica do paciente.
 
Mas isto não quer dizer que ficamos na sessão falando de arquétipos e símbolos. Os conflitos gerados pela ativação dos complexos pessoais (convém esclarecer que a “casca” do complexo sempre apresenta conteúdos da história pessoal do paciente, mas em seu núcleo estão os arquétipos) é que constituem os temas de boa parte da análise.
 
Existem três escolas de pós-junguianos. A escola clássica é a mais fiel ao pensamento original de Jung; a escola desenvolvimentista aproxima-se muito da psicanálise e a escola arquetípica de Hillman, enfatiza os aspectos fenomenológicos da Psicologia Analítica, em que a imagem é vivenciada diretamente e não interpretada.
 
Assim, há os que enfatizam o trabalho transferencial, os que utilizam mais os recursos expressivos, sandplay (jogo de areia), técnicas imaginativas e os que trabalham com o corpo – aqui no Brasil observamos este último desenvolvimento através do trabalho com toques sutis de Petho Sandor. Também há a terapia de casal e a de grupos vivenciais, um campo que se abre cada vez mais dentro da abordagem junguiana.
 
Espero que com esta introdução eu tenha instigado questões e interesse para futuras conversas.
 
Saudações!

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