COLABORADORES

PSICODRAMA, SOCIODRAMA E AXIODRAMA PÚBLICO

25/11/2009

Assisti pela primeira vez a um psicodrama público em 1967, durante o Congresso Latino-Americano de Psicoterapia de Grupo,em São Paulo, que aconteceu no Teatro da Universidade Católica (TUCA) e foi dirigido por Rojas-Bermudez. Teve grande repercussão na comunidade psiquiátrica e psicológica da cidade. Fiquei surpreso com a forma como as pessoas desnudavam-se psicologicamente e pela maneira espontânea com que o público interagia com os protagonistas. Mais tarde, já como psicodramatista, assisti e dirigi inúmeros psicodramas públicos. Mas nada me impressionou tanto quanto as sessões abertas no Instituto Moreno, em Beacon, Estados Unidos, em 1979. O que mais me encantou foram os participantes que iam em busca de ajuda psicoterápica.
 
Diferentemente de minhas experiências anteriores, em que os grupos eram constituídos basicamente por profissionais da área de psicologia, em Beacon o público era formado preponderantemente por leigos desprovidos do interesse do aprendizado da técnica. Essa experiência americana determinou que o Daimon-Centro de Estudos do Relacionamento (http://www.daimon.org.br), em São Paulo, entidade que coordeno, iniciasse as Sessões Abertas de Psicoterapia em 1984 e as mantivesse até agora: vinte e seis anos de experiência. Há seis anos essa experiência foi levada com sucesso ao Centro Cultural São Paulo – Vergueiro por Antonio Carlos Cesarino, Cida Davoli e equipe, atingindo outra faixa da população paulistana.
 
O psicodrama público, a mais curta das psicoterapias, foi apresentada por Moreno como decorrência de suas experiências com o teatro da espontaneidade. Se era possível apresentar uma peça de teatro criada pelo público, pelos atores e pelo diretor em um único mis-en-scène, também seria possível realizar o tratamento de um grupo e de uma pessoa de uma só vez. Essa possibilidade favoreceu o aparecimento das demonstrações de técnicas ao vivo (workshops), em contraposição aos relatos de casos clínicos pré-preparados (nos quais, em geral, os profissionais relatam somente os seus sucessos), dos grupos de encontro, que tiveram seu apogeu nas décadas de 60 e 70, das maratonas de fim de semana e de muitas outras formas flexíveis de psicoterapias grupais. Não podemos esquecer ainda que as chamadas psicoterapias breves, ou focais, também receberam, de alguma maneira, influências da psicoterapia brevíssima que é o ato terapêutico psicodramático, o psicodrama público ou a sessão aberta de psicoterapia.

O psicodrama realizado em grupos que se reúnem semanalmente é uma psicoterapia processual de grupo. Inspira-se na psicoterapia psicanalítica de grupo, que segue o modelo da psicanálise individual: sessões reiteradas e continuidade do processo terapêutico a longo prazo. Ao adquirir o Sanatório Beacon Hill (mais tarde transformado no Instituto Moreno de treinamento em Psicodrama), em 1936, Moreno passou a realizar sessões psicodramáticas diárias com os pacientes internados e com os que retornavam para seguimento clínico. Os grupos apresentavam uma dinâmica inconstante, devido às altas clínicas e entradas de novos pacientes. Apesar de não constituírem um psicodrama público propriamente dito, os grupos também não guardavam as características dos grupos processuais (semanais) contemporâneos. Neste período, originaram-se os protocolos de casos clínicos de Moreno. Uma revisão deles revela que Moreno já operava com o que mais tarde denominou-se psicoterapia breve. As psicoterapias psicodramáticas relatadas em seus protocolos têm a duração máxima de dez meses.
 
Moreno nunca abandonou, no entanto, o psicodrama público. Continuou realizando-o pelo mundo afora, em congressos, hospitais e escolas. Trabalhou protagonistas individuais, temas grupais e síndromes culturais como o fez, por exemplo, com a Guerra Fria (conflito político-ideológico entre Estados Unidos e União Soviética) e com a morte de Kennedy. Preservou as sessões abertas (open sessions) no teatro terapêutico de Nova York e depois no Instituto Moreno, em Beacon.
 
O psicodrama público é o verdadeiro psicodrama de J. L. Moreno. Dirigir uma sessão aberta em que não se conhece o grupo, nem o protagonista, nem os egos auxiliares (originados do grupo) é o supremo desafio para o psicodramatista. Ele não conta como trabalha, ele demonstra. O psicodrama público não tem script previsível, é novo a cada apresentação. O ritual se repete, mas o produto é sempre inesperado. Quem e como será o protagonista? Como será a direção? Qual será a ressonância do grupo? Nada é previsível, tudo é novidade! A sociodinâmica do psicodrama público não se insere na dinâmica dos pequenos grupos, tampouco na psicologia das massas. Os cinco instrumentos (diretor, protagonista, egos-auxiliares, palco e platéia), as três etapas da sessão (aquecimento, dramatização e compartilhamento)e as técnicas (desempenho de papéis, inversão de papéis, duplo, espelho, etc.) do psicodrama são os trilhos por onde corre o trem da espontaneidade. A ‘espontaneidade’ no psicodrama é diferente do ‘espontaneísmo’ do happening que é anárquico e narcísico. No psicodrama há um encontro entre o protagonista e o diretor. Eles são aliados contra o inimigo comum: o conflito ou a doença. Quem vencerá? Iniciam o percurso psicodramático. Esquivam-se das resistências. Esgueiram-se pelos labirintos transferenciais. Recebem o click télico, chegam à espontaneidade. Algo é posto para fora (acting-out terapêutico) e reorganizado na catarse de integração.
 
Os psicodramatistas contemporâneos apresentam diferenças técnicas — pluralidades — especialmente em seu modo de atuar em psicoterapia individual. Essas diferenças são menos evidentes na direção de grupos terapêuticos processuais e praticamente desaparecem quando se trata do psicodrama público. É claro que as características pessoais influem na maneira de dirigir, mas as diferenças técnicas são mínimas nesta modalidade de trabalho. As diferenças entre os diretores de psicodrama público assentam-se, basicamente, na compreensão psicodinâmica e na conseqüente passagem de cenas (cortes de uma cena para outra). Cada profissional a realiza de acordo com seu referencial teórico. Moreno deixou pouco sobre psicoterapia individual, deixou algo sobre psicoterapia de grupo e muito sobre psicodrama público. O psicodrama público (sessão aberta, ato psicodramático) é a forma mais acabada do psicodrama.
 
A característica pública das sessões abertas permite a plena apreensão dos valores socioculturais (contexto social) presentes. Este fato transforma o psicodrama-sociodrama público em um poderoso instrumento para o tratamento das síndromes culturais de uma sociedade. O objetivo é oferecer possibilidades para a comunidade organizar-se diante de uma dificuldade comum. Tal é o caso dos sociodramas e axiodramas que abordam epidemias, guerras, convulsões sociais etc. Constituem sociopsicoterapias in situ. O psicodrama público demonstra uma especial efetividade em situações de elaboração de sentimentos que envolvem rituais sociais de passagem: casamento, nascimento, separação e morte. A elaboração do luto crônico, por exemplo, com freqüência não consegue ser realizada somente em psicoterapia individual. A morte situa-se na esfera do individual (psicológico) e do coletivo (social): a dor é pessoal, mas os rituais de elaboração da perda são sociais. O velório, o enterro, as missas, as visitas de pêsames, enfim, os rituais de despedida, conclamam a participação da comunidade. O psicodrama público, por assim dizer, chama a comunidade de volta para re-elaborar o que não foi realizado completamente na primeira vez. Em outras palavras, podemos dizer que o psicodrama público exorciza, com o aval do grupo, os fantasmas pessoais de um sofredor.
 
Outra pluralidade do psicodrama refere-se à sua prática específica. Há dificuldades em se discriminar suas modalidades de ação: teatro espontâneo, sociodrama, axiodrama e psicodrama, pois, na verdade, são práticas que se entrelaçam. Creio que uma solução pragmática para esse impasse seja defini-las segundo o contrato de trabalho que se estabelece, implícita ou explicitamente, com o grupo. Assim, defino como psicodrama (terapêutico), stricto sensu, se há um contrato para tratar pessoas no grupo; como sociodrama, se o contrato se refere ao tratamento de um grupo que apresenta dificuldades relacionais; como axiodrama, se o grupo deseja aprofundar e questionar valores culturais e morais da sociedade; e como teatro espontâneo, se a proposta básica é o desenvolvimento da espontaneidade de seus membros através do exercício do desempenho de papéis, sem preocupação terapêutica principal. O privilégio, então, se dirige para o objetivo maior da proposta. Ninguém nega que uma boa conversa com um amigo ou uma relação amorosa possam ser terapêuticas, mas elas não consolidam uma psicoterapia propriamente dita, pois constituem mera decorrência do propósito primordial.
 
Acredito que estas primeiras considerações dão uma idéia contextualizada do psicodrama público, das sessões abertas de psicoterapia. Em breve farei uma descrição das Sessões Abertas promovidas pelo Daimon e pela Sociedade de Psicodrama de São Paulo.

COMENTÁRIOS:(5)