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O USO DE REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS E A CONTRIBUIÇÃO DOS ALIENISTAS

7/8/2009

Conforme havia prometido, prossigo meus comentários sobre a crescente tendência contemporânea em apelar, pelos mais variados motivos, ao uso de remédios psiquiátricos. Desta vez enfocarei a contribuição fornecida por nós próprios psiquiatras.

Quando se pensa em estabelecer limites entre o normal e o patológico, é inevitável trazer à mente a divertida novela de Machado de Assis, “O Alienista” - creio que todos psiquiatras sofremos da síndrome de Simão Bacamarte. Onde mesmo se acha a linha divisória que separa a normalidade da patologia? Que critério adotar? O estatístico? O adaptativo? Não há por certo critério definitivo em termos de atribuir valores aos comportamentos humanos. Na incerteza usam-se todos. Há um que gosto muito e é sempre de grande utilidade: trata-se do próprio indivíduo perceber que está diferente de seu padrão habitual de funcionamento e há sofrimento importante presente.
  
As dificuldades prosseguem quando se quer chegar a um diagnóstico preciso para nomear determinado comportamento considerado patológico. O diagnóstico em psiquiatria é feito por critérios eminentemente clínicos; vale dizer que não há exames específicos que confirmem a presença das “doenças mentais”. Para a maioria das doenças físicas há sinais e sintomas que levantam possibilidades diagnósticas, e que podem ser confirmadas ou não pela realização de exames ou medições. Se determinados sintomas sugerem hipertensão arterial, uma medição constatando valores fora dos parâmetros de normalidade confirma sua presença; o tipo e estadio de um tumor são esclarecidos por uma biópsia; o tipo de vírus responsável por determinada infecção pode ser conhecido pela realização de sorologias específicas, e assim por diante. Mas como fazer para confirmar a presença de determinada “doença mental”?
  
Terminei o último parágrafo colocando entre aspas a expressão doença mental, não porque não existam doenças mentais, mas por que o atual conhecimento em psiquiatria ainda não permite assim denominá-las. A razão é que não são conhecidos os agentes etiológicos e os mecanismos fisiopatogênicos que lhes dão origem. Prefere-se a denominação transtorno. Este termo reúne um critério clínico: lista de sintomas mais freqüentes que o caracterizam; um critério adaptativo: disfunção laborativa, familiar ou social, e a aceitação tácita do relativismo cultural implícito, ou seja, o reconhecimento de que alguns comportamentos, hoje considerados patológicos, podem não ser assim vistos em outros contextos culturais.
 
Os limites atuais para o diagnóstico em psiquiatria terminam por aumentar a chance de erros e imprecisões, sendo a mais comum o excesso na atribuição de diagnósticos, problema mais conhecido popularmente com o nome de “rotulação”.  Há um consenso entre os psiquiatras de que os atuais critérios diagnósticos “superincluem”, isto é, são pouco exigentes, permitem facilmente se “fechar um diagnóstico”. Veja-se o caso das depressões. Estas podem ser de intensidade grave, moderada ou leve; no caso do diagnóstico de depressão leve, pela falta de exames comprobatórios, pelo diagnóstico ser sempre resultado de uma avaliação subjetiva e por critérios clínicos pouco rigorosos, o resultado é um excesso de diagnósticos desta condição e, por conseguinte, um excesso de prescrição de antidepressivos.
 
Outro fator, que caminha concomitante com a falta de critérios mais precisos, é a descoberta da eficácia de determinado medicamento sobre algum transtorno. Nos anos 80, por exemplo, descobriu-se que o uso de antidepressivos podia suprimir ataques de pânico, o que, ao lado do grande progresso terapêutico que proporcionou, trouxe uma enxurrada de diagnósticos deste transtorno, muitas vezes de forma indevida. O mesmo se deu com as depressões: nos anos 80 e 90; com o desenvolvimento de novas drogas antidepressivas, houve aumento vertiginoso no diagnóstico da depressão; passadas duas décadas, viu-se as conseqüências do uso pouco criterioso destas medicações na desestabilização de sintomas bipolares, erroneamente diagnosticados como depressão. Agora se vive a era da bipolaridade e qualquer depressão acompanhada de algum elemento de instabilidade, ansiedade, ou impulsividade já recebe um estabilizador do humor (quais as conseqüências a médio ou longo prazo do uso maciço destas substâncias?).
 
Há algo parecido com seitas na psiquiatria, como se a ciência permitisse “ideologias”. Vive-se assim em relação aos transtornos bipolares: existem os partidários de critérios mais rigorosos para transtorno bipolar, levando em conta a antiga tradição; assim como cresce na academia os partidários de critérios muito mais amplos e abrangentes. Ambos os lados têm achados, estatísticas e certezas de suas convicções.
 
Além da precariedade ainda presente sobre o funcionamento da mente humana, por certo outros fatores, de ordem subjetiva e institucional ocorrem. Só para dar alguns exemplos: em relação aos fatores subjetivos digo que há uma tentação de prescrever para não ficar numa posição de impotência diante da dor do outro; em relação aos institucionais, posso citar o exemplo do atendimento em emergência psiquiátrica nas condições em que acontece na rede de saúde pública, em que o excesso de procura gera estresse no psiquiatra, que termina por prescrever mais do que deveria numa atitude defensiva - “entregar os anéis para não perder os dedos”.
 
Em meu próximo texto abordarei o papel da indústria farmacêutica no forte apelo contemporâneo por remédios.

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