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NÃO HÁ ESPAÇO PARA OS DIFERENTES!

25/5/2009

Estamos vivendo em um mundo que não aceita as diferenças. Todas as crianças e adolescentes têm que apresentar um único modo de comportamento, definido previamente pela escola. As melhores escolas selecionam os melhores alunos, tanto no comportamento como no aprendizado, e por isso são boas escolas. Os diferentes, seja porque parecem distraídos, inquietos, curiosos, agitados, ou ainda, porque são muito quietos, passivos, tímidos, não participam das atividades propostas, são considerados como um problema, que cabe aos pais resolverem. Na escola, essas crianças e adolescentes são de imediato rotuladas como tendo hiperatividade, déficit de atenção, depressão, transtorno bipolar. A confirmação destes diagnósticos ocorre através do uso de testes e provas, elaborados de tal forma que servem para transformar em sinais de doença manifestações que podem ser normais, quando se considera o contexto de cada criança.

Preenchendo certo número de critérios das escalas de comportamento (Conners, por ex.), as crianças e adolescentes são encaminhadas pela escola para os médicos, mais especificamente, neurologistas. Apesar de os exames neurológicos não mostrarem alterações objetivas para se firmar o diagnóstico de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDA/H), as crianças são medicadas com drogas psicoestimulantes, em geral, o metilfenidato, conhecido com o nome de Ritalina. O tratamento medicamentoso deixa para a família e para a criança e o adolescente a confirmação de que se trata realmente de uma doença. Observa-se de imediato uma mudança no comportamento da criança e dos adolescentes, que em estado de torpor apresentam-se calmos, muito diferente de antes. Tem sido descrito que essas crianças e jovens perdem a espontaneidade no comportamento e o uso em altas doses da ritalina pode levar a comportamentos obsessivo-compulsivos. Por outro lado, observam-se os efeitos que esses encaminhamentos têm sobre a auto-estima da criança, ao verem-se como portadores de uma doença que as impede de aprender como os outros.
 
A tentativa de relacionar o transtorno hipercinético a um quadro neurológico de base (seja lesional, disfuncional e/ou constitucional) é bastante antiga. Os primeiros estudos com esse objetivo - particularmente, o de identificar uma "lesão cerebral" como etiologia dos "transtornos hipercinéticos" -, datam do século passado e tiveram grande impulso a partir da observação, em algumas crianças, de seqüelas comportamentais e cognitivas resultantes de traumatismo ou infecção cerebral. Entretanto, a dificuldade de demonstrar a existência de uma lesão cerebral nas demais crianças levou à substituição do termo Lesão Cerebral Mínima por Disfunção Cerebral Mínima (DCM).

A inexistência de critérios objetivos para a definição dessa disfunção permitiu que Clements e Peters, em 1962, identificassem, somente na literatura americana, mais de quarenta denominações para descrever a criança hiperativa e 99 características que poderiam ser atribuídas à DCM. Esta situação é condizente com o título do artigo publicado pelo neurologista Gomez (1967): “Disfunção Cerebral Mínima, Confusão Neurológica Máxima”.

A heterogeneidade existente no grupo de crianças rotuladas como apresentando DCM levou a Academia Americana de Psiquiatria a propor sucessivas classificações e denominações, na tentativa de uniformizar os diagnósticos. Dessa forma, pode-se observar uma seqüência de termos para essa suposta entidade clínica: "Distúrbios por Déficit de Atenção" (ADD), “Distúrbio de Hiperatividade por Déficit de Atenção (DHDA) e mais recentemente “Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade” (TDA/H). As mudanças nos termos utilizados revelam muito mais a falta de critérios objetivos e base científica para a definição da hiperatividade como entidade nosológica, do que avanços no seu conhecimento.

Até 1990, o consumo de metilfenidato era reduzido. Nos anos subseqüentes houve um aumento na produção deste fármaco, que passou de menos de três toneladas em 1990 a mais de 8,5 toneladas em 1994. Segundo um periódico americano de medicina, este boom coincidiu com o fato de que nas escolas, estava começando a se incluir o diagnóstico de TDAH e a difundir o metilfenidato no tratamento desse transtorno. Desde então, segundo a revista inglesa New Scientist, a venda desta droga é "um dos fenômenos farmacêuticos mais extraordinários de nosso tempo". Hoje, 10 por cento da população infantil americana,  incluídos bebês de um ano, tomam esses comprimidos. Só nesse país, os ingressos anuais derivados do mercado de remédios para o TDA/H alcançaram valores superiores aos 3.100 milhões de dólares.

O mais grave é que hoje se sabe que a ritalina tem efeitos colaterais graves.  Ultimamente a revista Pediatrics, vem publicando um debate com vários artigos nos quais se discute que o uso prolongado do metilfenidato pode aumentar o risco de morte súbita e o aparecimento de problemas cardíacos e de crescimento. Entre 1990 e 2000, o programa de Vigilância Médica do FDA (Food and Drug Administration) reportou 186 mortes por consumo prolongado de Ritalina. Segundo o site Ritalin Death (elaborado pelos pais de um adolescente de 14 anos que faleceu "por uso prolongado de metilfenidato, Ritalina, como consta do atestado de óbito) esses números não representariam mais que 10 ou 20 por cento da cifra real.

Mas que doença é essa? Um ponto fundamental quando se discute a TDA/H é que, apesar de aventada como hipótese há quase um século, até hoje, jamais se conseguiram evidências científicas que comprovem sua existência. Com o advento de exames neurológicos mais sofisticados, hipóteses ainda não comprovadas tentam achar uma base biológica para a TDA/H. Controvertida desde o início, no interior da própria Medicina, observa-se que ao longo deste século essa falta de evidências desapareceu da sua história, e passou-se a difundi-la como um conhecimento cientificamente embasado, inquestionável. Entretanto, observa-se na literatura que mesmo os autores que defendem sua existência chegam a admitir a ausência de conhecimento cientificamente construído que a suporte.

A hiperatividade (o sinal clássico da TDA/H) é provavelmente o sinal mais subjetivo, dependente dos padrões e expectativas do adulto observador. Miller (1978) relatou a ausência de concordância entre os julgamentos emitidos por diferentes adultos (pai, mãe, professor, psicólogo e um ou mais médicos), a respeito da presença/ausência de hiperatividade em uma mesma criança. Atualmente, apesar de a grande maioria da literatura endossar a hiperatividade como uma doença clínica, outras abordagens procuram entender esses comportamentos a luz de outros referenciais não biomédicos.

O que fica evidente é o modo como os rótulos são impostos a essas crianças e adolescentes, marcando suas vidas e seu desempenho escolar. Não se procura escutá-las, entender porque se comportam assim. São inúmeras as condições que levam as crianças e adolescentes a se portarem assim. São infinitos os modos de aprender, construir uma linguagem, constituir-se como sujeito. Trata-se de crianças e adolescentes que apresentam comportamentos construídos ao longo das relações familiares e sociais e acentuados na vivência escolar.
 
É importante entender o papel da escola e da família na gênese desses comportamentos. Atualmente a Educação está dirigida para o sucesso acadêmico, graduação em uma carreira profissional, especialização, pós-graduação. Crianças e adolescentes que têm outras aspirações como serem artistas, dançarinos, atletas, não conseguem se adequar ao modelo de ensino nas escolas. Muitas vezes não conseguem manter a atenção nas tarefas da escola, as quais se mostram defasadas ou estranhas ao seu ambiente. Entretanto, desenvolvem atenção para jogar videogames, ouvir música, decorar letras de músicas, atividades com as quais se identificam. O fraco desempenho escolar que muitas dessas crianças e jovens apresentam gera nos pais o medo de que fiquem fora do sistema. Daí ser mais fácil aceitar que se trata de um problema nos neurotransmissores que pode ser tratado.

Tudo se passa como se esse modo de agir fosse determinado por um cérebro doente, e não por uma criança. Não se considera a subjetividade e a singularidade de cada criança, as suas relações familiares e o contexto onde vive. Dessa forma, trata-se o cérebro com medicações que visam de alguma forma homogeneizar os comportamentos. Eliminar os diferentes. Nega-se e destrói-se a criatividade, como algo que pode ameaçar a ordem na escola, na família, na sociedade. Sonhos e devaneios na sala de aula são considerados transgressões. A ordem é obedecer sem questionamentos. Elimina-se, assim, a possibilidade de rebeldia.
 
A agressividade e a rebeldia, entretanto, têm um efeito positivo na aprendizagem. Para Alicia Fernandes “a agressividade faz parte da criatividade... não é algo que tenha que ser evitado, uma enfermidade que precisa ser curada. É, segundo Freud, inclusive, um componente constitutivo de toda pulsão e, portanto, também da pulsão epistemofílica e do desejo de saber e aprender”. Para Paulo Freire, não se pode viver sem rebeldia, rebeldia, por exemplo, contra a ordem estabelecida visando tornar mais justa a escola. Há que se diferenciar a agressividade do ato agressivo e entender como se produzem na escola esses atos de agressão. A Ritalina tem a função de enquadrar essas crianças e adolescentes para que a ordem se estabeleça, para que cada um assuma seu lugar pré-determinado e ninguém saia da norma.

Lidar com essas crianças e adolescentes, entendendo-as como sujeitos singulares, é antes de tudo, evitar que sejam rotulados e que acreditem ter uma doença. Sempre é possível criar novas maneiras de trabalhar essas características que estão dificultando suas conquistas no campo social, afetivo e intelectual. É fundamental escutá-las, entender seus desejos, seus temores, seus conflitos, seus sofrimentos. Reconstruir a história dessas crianças e adolescentes para entender como foram se produzindo esses comportamentos ao longo de suas vidas.
 
Não se pode esquecer que esses comportamentos são fruto do modo como funciona a sociedade atual, e o uso de medicamentos para ajustar as crianças e adolescentes a esse modo de viver constitui uma violência contra os mesmos.

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