COLABORADORES

PSIQUIATRIA E MEDICAÇÃO

25/5/2009

Uma das preocupações sociais despertadas pela prática psiquiátrica é o uso de medicamentos por setores cada vez mais amplos da população. Fazer uso de antidepressivos, ansiolíticos e estabilizadores do humor está se tornando coisa corriqueira, levantando o questionamento se não há excesso de prescrição e quais os riscos envolvidos.
 
O ambiente cultural parece favorecer o apelo por remédios. Vivemos uma era tecnológica com forte crença na possibilidade de corrigir aspectos desagradáveis ou disfuncionais em nossas personalidades, antes vistos como inerentes à própria condição humana. Não me refiro, evidentemente, ao tratamento de doenças, ou transtornos mentais, claramente identificáveis e incontrastáveis, mas a uma região “cinzenta” entre o normal e o patológico, região antes pertencente ao domínio da moralidade ou da consolação humana. Falo de situações como o luto por entes queridos, o fracasso em alcançar algum objetivo muito almejado, condições que mobilizavam acolhimento e não eram vistas como merecedoras de tratamento; falo de certas formas de compulsão, de hábitos alimentares nocivos noturnos, de ter temperamento triste, de pouco interesse nos estudos e pouca disposição para o trabalho, de ter dificuldade de arrumar parceiro amoroso, de não conseguir controlar o peso, de ter excesso de timidez, de ser pouco ambicioso, características ou comportamentos que: ou eram enfrentados no âmbito da moralidade, o que permitia um posicionamento ativo do indivíduo, uma atitude frente ao vício ou tragédia pessoal; ou eram vistos como parte da condição humana, abrindo a possibilidade de uma aceitação maior ou sublimação – ambas as possibilidades representando saídas existenciais muito mais ricas do que ver-se como portador de defeitos ainda sem oportunidade de conserto pelo conhecimento científico.
 
Outro aspecto presente no atual mundo cultural que favorece a busca por medicamentos é o que os psicanalistas chamam de imperativo do gozo ou “ditadura do prazer”. As velhas proibições, regras e castigos do passado parecem não mais valer no mundo atual. A noção de liberdade individual foi hipertrofiada e, em combinação com a falta de valores morais seguros em que se apoiar, deu origem ao culto do ego. Temos que ter sucesso em tudo o que fazemos e acima de tudo ser felizes. Eis o imperativo do gozo. E com algo mais – tal como à mulher de Cesar não basta ser honesta, mas deve parecer honesta, também nossa felicidade tem de ser testemunhada por outros.

Estes pontos representam o pontapé inicial a respeito do importante tema sobre como se dá o uso contemporâneo de medicamentos. Em meus próximos textos analisarei a própria contribuição que o saber psiquiátrico fornece para o problema do excesso de prescrições.

COMENTÁRIOS:(6)