COLABORADORES

Imprimir

A SEVERIDADE E A DUREZA DO PAI DA HORDA, SÓ ERAM ABRANDADAS COM O ALÍVIO DE SUA AUSÊNCIA

1/12/2010

O Homem Sistemático 


O homem sistemático estava sempre ali, ao alcance da minha imaginação infantil. A ele devia-se um temor religioso, cuidados na aproximação, reverência com comedido distanciamento, e, o que mais se esperava, ser agraciado com o alívio de sua ausência. Sabia-se muito bem de sua severidade, sua dureza, sua lepra; sabia-se da crueza com que envelhecera sem nada modificar do que já era antes. E era assim que se qualificava o homem – sistemático.

 
Naquela minha idade, o sistemático, sem outras referências, permanecia na penumbra das fantasias, algo que espreitava, um mal qualquer que poderia ocorrer, e dele  sempre havia um resto, daquilo que nunca se sabe, um espectro, um quê de enigmático. Esse homem construíra desde seu passado remoto a fama de rude, irritadiço, circunspecto: espalhara,  em seu destino de origem pouco revelada, uma aura de medo. E era nesta aura que se construía o enigma do sistemático: para seus filhos, seus vizinhos, suas mulheres e suas amantes, seus desafetos, e também, curiosamente, esse poder imanente espraiava-se  para seus animais. Quando o conheci, já em sua senectude, conduzia charretes: os cavalos, ao estalar de seu chicote, arregalavam os olhos como se entreolhassem extasiados com a própria morte; os cães o seguiam ganindo, com o rabo entre as pernas; de sua boca saiam estalidos e muxoxos que os animais à volta compreendiam muito bem: submetiam-se  ou fugiam de perto.
 
Tudo isso me assombrava, maravilhava, e, atraído, queria espreitá-lo de longe. Uma imagem, encobridora, ia além deste fascínio: sua binga acobreada, equilibrada entre seus dedos apodrecidos, fazia o milagre do fogo ao triscar de duas pedras e, ao faiscar o lume, acendia seu cigarro de palha – aí o esplendor de seu poder ancestral recobria todo o resto, e  se experimentava  uma veneração imperiosa. O gesto iluminava as marcas profundas – sulcos ancestrais - em seu rosto atrás da fumaça: um velhinho alquebrado pelo duro da vida mas onde permanecia aquela máscara renitente e eficaz que dizia: fique aí, não se aproxime, é perigoso.
 
Há uma foto em branco e preto emblemática de como esse chefe organizava o clã dos Alves: perfilados, uniformes em algodão cru, bonés e descalços,  um pelotão de crianças de pobreza evidente, iniciando com um pirralho de 3-4 anos de idade, e numa escada ascendente passava por 7 meninos de idades variadas  e culminava com o Sr. Agostinho, altivo, olhar severo e  relho na mão. A mão que conduzia como pai-patrão seu exército infantil no trabalho pesado de uma olaria artesanal. Como soldado raso deste pelotão de resistência, meu pai estava ali, com olhar triste e peito estufado, no auge de seus 6 anos de idade. Esta foto era mostrada com um misto de orgulho e tristeza, mas sempre como exemplo do esforço de sobrevivência familiar e, invariavelmente, concluída com a mesma enigmática expressão: "seu avô era muito sistemático" .

Ser sistemático era  expressão de uma época, de princípios firmados,  chapéus na cabeça, confiáveis fios de bigode e atitudes previsíveis. Um modelo de ser conveniente, adequado para expectativas culturais e sociais. Poderíamos ousar dizer que, naqueles anos dourados para alguns, uma normatização imperiosa dos costumes impregnava as condutas humanas. Havia um modo prescrito de ser. Aí tão bem se encaixava o homem sistemático: apresentava-se como modelo estruturado de um tipo ideal – a marca indelével  da cultura em um homem. 
                                                                          

                                                                           Luiz Henrique Alves

COMENTÁRIOS:(6)

Envie seu comentário

voltar

Irmãs Ross...Uma relíquia
Fantásticas, famosas na época.

.

Psicotramas

16/08 - Lançamento do livro Crônica de uma Ilha Vaga
Núcleos de Formação Permanente no CEP

Psicorama © - Todos os Direitos Reservados
psicorama@psicorama.com.br

MFSete