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MELANCOLIA E BULIMIA: PATHOS, ORALIDADE E AMOR

3/11/2010

Resumo:

Há palavras na língua portuguesa que sobrevivem há séculos, desde a antiguidade clássica, nascidas na língua grega. A melancolia, cara, ainda hoje, aos poetas e escritores, é uma delas. Bulimia, outra. Palavras que resistem ao tempo são aquelas que tem algo a dizer, paixões que continuam sendo ditas por elas ensejando sua existência perene, na linguagem. Pathos, que dá origem a psicopatologia, é também uma antiga palavra grega que em língua portuguesa melhor se nomeia como paixão. A fome devoradora, em grego bulimia, ou seja, fome de boi, tem sido descrita na literatura psicopatológica como um sofrimento psíquico caracterizado pela ingestão excessiva de alimentos, acompanhada de dolorosos esforços de purgação e vômitos, podendo levar à prostração e a morte, em ambos os sexos.Aqui trabalha-se com a hipótese de que em cada caso, há que se construir sua psicopatologia fundamental, em uma clínica que dê suporte à travessia de processos melancólicos, levando em conta a subjetividade e sua vulnerabilidade no seu contexto histórico-social.

 
 
INTRODUÇÃO
 
Na linguagem corrente, a bulimia ( etimologia: do grego: ― fome de boi‖) significa que o sujeito se entrega com um apetite ávido, senão com voracidade e sofreguidão a determinadas coisas ou atividades. A desmesura pode significar, em alguns casos, vitalidade e, para Brusset, a bulimia, no sentido próprio da ingestão alimentar desmedida e paroxística, é uma ilustração habitual da alegria de viver, uma paixão no sentido de excesso, pathos e como tal, é também a imagem bíblica de um dos sete pecados capitais, contrariamente a virtude e méritos que, em todas as religiões são esperados o jejum. A imagem cultural do excesso alimentar, esta associada à da orgia e, portanto, a determinadas qualificações ansiógenas da sexualidade feminina como insaciável, devoradora, vampírica e perigosa para o homem.( BRUSSET, 2003, p.7) (2) . Mas a idéia de orgia também nos remete para antiguidade clássica, estamos na dimensão do dionisíaco, por oposição ao apolíneo, onde vamos ao encontro de Baco e suas bacantes, ou seja, remetenos à tragédia grega, a partir da qual a Psicopatologia Fundamental nos convida a analisar o pathos.No mundo contemporâneo para Bernardo Brusset, deve-se analisá-la como efeito subjetivo do consumo exagerado no contexto da lógica do mercado:―Na cultura contemporânea, a bulimia aparece como o espelho invertido do culto do rendimento, ou seja, de uma alimentação racional, exatamente determinada pelas necessidades biológicas, eficaz adequada e própria: ela se contrapõe à preocupação da economia e da medida. Desafiando a fria racionalidade da ética que se funda sobre a ciência, ela oferece uma ilustração às vezes monstruosa dos efeitos do consumo exagerado da lógica de mercado. Em contraposição a representação social valorizada que explora a publicidade é antes a da ligação entre a saúde e a eliminação, a magreza e a distinção, a frugalidade e a eficácia social (2003,p. 8).
 
Na clinica psicanalítica a bulimia é identificada no discurso do analisante, como a busca de um gozo impossível, um tormento, um sofrimento, uma doença. Freqüentemente, ela é trazida como tendo sido inicialmente aceita, como tendo sido aparentemente escolhida e desejada, mas que, em algum momento da história do sujeito o ultrapassa, tornar-se uma conduta compulsoriamente repetida, fonte de angústia e causa de alienação. Nas palavras de Brusset ―o sujeito sente-se obrigado a atos que o tiram de si (p.8, 2003). Trata-se, na experiência social, de um ato privado, e só a demanda de ajuda dirigida a uma profissional faz deste ato um sintoma.
 
Nossa experiência clínica confirma o que literatura indica, de que a bulimia atinge ambos os sexos e, se tem se mostrado com mais freqüência nos adolescentes e jovens, atinge até mesmo mulheres maduras e de idade avançada. Há pacientes que relatam que se sentem viciadas no ato bulímico, como se fosse uma droga. De fato, o ato de saciar uma fome de boi pode ser reconhecido como a busca de um grande prazer, mas nem sempre é disso que se trata, como tentaremos demonstrar. Nas palavras de Freud em texto de 1938:
 
O primeiro órgão a surgir como zona erógena e a fazer exigências libidinais à mente é, da época do nascimento em diante, a boca. Inicialmente, toda a atividade psíquica se concentra em fornecer satisfação às necessidades dessa zona. Primariamente, é natural, essa satisfação está a serviço da autopreservação, mediante a nutrição; mas a fisiologia não deve ser confundida com a psicologia. A obstinada persistência do bebê em sugar dá prova, em estágio precoce, de uma necessidade de satisfação que, embora se origine da ingestão da nutrição e seja por ela instigada, esforça-se todavia por obter prazer independentemente da nutrição e, por essa razão, pode e deve ser denominada de sexual. Durante esta fase oral, já ocorrem esporadicamente impulsos sádicos, juntamente com o aparecimento dos dentes.(FREUD, 1938, p.179).
 
Tomando então o modelo freudiano da fixação e da regressão, pode-se pensar, com efeito que a bulimia corresponde diretamente a um retorno à oralidade como primeira etapa da sexualidade pré-genital. A impossibilidade de acesso ao gozo genital suscitaria uma regressão pulsional para as fixações no estágio oral do desenvolvimento libidinal.
 
 
Seguindo Brusset, tomemos nas palavras de Freud uma análise precisa: ―O fundamento supremo de todas as inibições intelectuais e de todas as inibições de trabalho parece ser a inibição da masturbação na infância. Mas talvez isso vá mais fundo; talvez não seja sua inibição por influências externas, mas sua natureza insatisfatória em si. Há sempre algo que falta para a descarga e a satisfação completas — en attendant toujours quelque chose qui ne venalt point — e essa parte que falta, a reação do orgasmo, manifesta-se em equivalentes em outras esferas, em absences, acessos de riso, pranto [Xy], e talvez outras maneiras. — Mais uma vez a sexualidade infantil fixou nisso um modelo.(FREUD, 1938, p.336) (3) 
 
Neste trecho curto que Freud jamais irá desenvolver, temos algumas indicações bastantes úteis para este estudo: em primeiro lugar, a notável dificuldade de constituição de um autoerotismo, aqui expressa pela pena freudiana em sua relação de sobredeterminação com a inibição intelectual, que aqui se propõe poder observar na clínica como a súbita transição da angústia do vazio para o ato bulímico. Em segundo lugar, essa talvez se constitua na razão das enormes dificuldades de elaboração secundária de seus processos inconscientes, observada na clinica da bulimia, que resta também fundada na fixação no modelo da sexualidade infantil.
 
Isto posto, seguindo o método psicanalítico, passemos a tomar em consideração a transferência, como um dos analisadores desta psicopatologia e, desse modo, mais uma vez constatar, que longe de uma patologia alimentar, trata-se de dificuldades subjetivas cuja abordagem exige um trabalho de interpretação de processos psíquicos inconscientes. Nas palavras de Maria Helena Fernandes: ―São essas modalidades relacionais, e as vicissitudes de um equilíbrio narcísico-objetal precário que se atualizam na repetição transferencial. As dimensões paradoxais dessa transferência – fascínio e horror; amor e ódio, vida e morte – solicitam do analista, à semelhança da alteridade materna, que esta possa exercer uma função de pára-excitação em sua tripla dimensão de proteção, mediação e libidinização, permitindo à situação analítica funcionar como um reoraganizador da libidinização do corpo (2006, p.261)
 
O problema psicopatológico da bulimia, não pode ser, portanto restrito a um transtorno alimentar, ela destaca a necessidade de compreender que o objeto oral é mais amplo que o objeto comida, pois remete às formas primitivas de relação do sujeito com o outro e ao equilíbrio narcísico-objetal. Conforme o modelo freudiano da regressão e da fixação, pode-se supor que a bulimia corresponde diretamente a oralidade como primeira etapa da sexualidade pré-genital. A impossibilidade de acesso ao gozo genital suscitaria uma regressão pulsional para as fixações no estágio oral do desenvolvimento libidinal.
 
De acordo com as conclusões de Ana Cecilia Magtaz, em sua tese de doutorado, defendida na PUC-SP:― Nesses estudos, portanto a anorexia e a bulimia não foram tratadas como transtornos alimentares- da relação patológica com o objeto comida- mas sim como distúrbios da oralidade, isto é, distúrbios provenientes da relação entre eu e objeto; uma relação de amor, extrema dependência e também de ódio que se manifesta pela sintomatologia clinica‖ (2008, p. 13).(4)
 
Nestas condições, o desafio colocado para o método clínico psicanalítico são imensas e passaremos a apontá-las.Um aspecto se destaca entre outros: no processo psicanalítico pode-se observar, com freqüência, que o ato bulímico pode ser tomado como um acting-out. Para Jeammet: ―Nada de surpreendente se considerarmos que o comportamento atuado vem justamente, substituir o trabalho de elaboração psíquica que sofre um curto circuito (2008, p.113).
 
As condutas bulímicas, dominam com seu brilho o quadro clínico, constituindo-se como defesas para que se possa manter em um quadro neurótico de organização, o que coloca problemas para a questão essencial do tratamento e de um prognóstico. Entendendo-se, deste modo, as modalidades de arranjo das relações tanto com os objetos internos quanto com os externos, sabe-se que há uma semelhança na forma das condutas bulímicas, a saber, a natureza das relações de objetos destas pacientes e as características de seu funcionamento mental. A crise bulímica assume um valor paradigmático na compreensão desta relação, sem perder de vista, no entanto que permanece muito tempo escondida do entorno. Todavia o qualitativo da bulimia se aplica com pertinência ao conjunto de seu estilo relacional que é com as pessoas análogo ao vínculo que mantém com a alimentação e que alterna com a mesma intensidade, avidez e rejeição. ( JEAMMET, 2008, p.116)
 
Essa impossibilidade de manter um nível de funcionamento estável, estas oscilações no tudo ou nada, são uma constante nas bulímicas. Elas transformam o tratamento numa aposta permanente. Entre a extrema sensibilidade a qualquer decepção e a intolerância ao investimento tranferencial, as chances de manter este laço diminuem rapidamente. Sua instabilidade é o parâmetro fundamental nas primeiras entrevistas. Hipersensiveis às contra-atitudes do interlocutor, Philippe Jammet afirma que:―mudam voluntariamente de modos de expressão conforme este lhes responder por uma atitude de apoio ou de retraimento, ou se deixar levar em uma sedução narcísica recíproca. É assim que em estreita ressonância com esta resposta com o interlocutor, elas podem isolar-se unicamente no registro de sua conduta sintomática com o domínio que lhe confere ou autorizar-se um funcionamento em que as emoções, o peso de sua historia e de seus conflitos ocupam um lugar cada vez mais invasivo. (2008,p.116) (5)
 
E neste caso a medida que as entrevistas evoluem a conduta bulímica desmorona para dar lugar a um transbordamento emocional que é dominado por uma oscilação entre um vivido depressivo e sensitivo, francamente persecutório e a emergência de uma história marcada pelo que se poderia reagrupar sob o nome de um rompimento vivido. Rompimento dos traumatismos cumulativos da infância; rompimento da erupção pulsional; rompimento dos limites de si juntamente com as confusões dos limites reinantes do lado parental que contribui para criar um clima incestuoso, característicos do ambiente destas famílias. Segundo Philippe Jammet:―Essa sensibilidade e mesmo vulnerabilidade na relação é expressão de uma dificuldade de gerir a distancia relacional, é também a primeira característica desses sujeitos. Ela se impõe desde o primeiro contato e se confirma se a relação se prolonga. É por isso que o ou os primeiros contatos são naturalmente enganosos, pois podem conduzir à superestimação das capacidades de elaboração mental dessas pacientes. Com efeito, contrariamente a outras patologias do comportamento e à anorexia mental, principalmente, suas produções fantasmáticas são ricas e teriam antes, a tendência a inundar-nos delas. Essa riqueza é justamente a prova de sua capacidade de representação, que, todavia, deve ser seriamente matizada por duas constatações: a de uma crueza fantasmática com uma significação demasiadamente clara do conteúdo, o latente e o manifesto compondo um só; e a de uma obrigação de fantasiar com uma taquipsiquia que não mais é uma liberdade associativa, mais uma necessidade de produção representativa para mascarar um perigo subjacente, que ele mesmo , não é facilmente acessível a um trabalho de representação. Esse excesso de brilho da significância, assim como no qualitativo da produção, permite perceber a fragilidade dos limites e das bases nascísicas, a pregnância do afeto sobre o sentido, o peso do econômico, assim como a fraqueza da organização e do estrutural.(1999, p.117)
 
A fragilidade narcísica das bulímicas se encontra tanto nas características de suas modalidades relacionais objetais quanto no olhar que dirigem sobre si mesmas e sobre sua relação com sua própria imagem. Essas características trazem marcas , ao mesmo tempo, das insuficiências das internalizações (e das bases narcísicas) e da fragilidade dos limites. Nas palavras de Jeammet, haveria um processo de diferenciação onde o que se destaca é a ―insuficiência do pára-excitação, falhas narcísicas, má diferenciação das imagos, permanência da bissexualidade, fracasso das identificações, má definição do Superego e do Ideal do Ego que permanecem impregnados de elementos arcaicos‖. O resultado disso é o fracasso dos mecanismos de defesa mais evoluídos: deslocamento e recalcamento, e mais, um funcionamento neurótico aleatório cujo fator organizador e o papel na economia psíquica dependem, em grande parte, do estado conflitivo do sujeito e da qualidade tolerante dos objetos externos do ambiente, verdadeiro auxiliares do Ego. O narcisismo destas pacientes, com efeito é amplamente sustentado pelos objetos externos, conforme modalidades que combinam, em proporções variáveis, a dimensão de apoio e de duplo. O que quer que seja, nos dois casos sua auto-estima é tributária deste suporte externo ( JEAMMET, 2008, p.119) (6)
 
A subestimação de si, freqüente nas bulimias, se traduz pelas atitudes de denegrimento que adotam face ao seu interior, marcadas por uma forte conotação anal ou pelo vivido vazio e da insignificância. O resultado disso é uma dependência comum em relação a fontes de valorização externas, mas também sua extrema vulnerabilidade que refletem sua sensibilidade e sua dificuldade em encontrar a boa distância relacional, oscilando da dependência afixada, mais idealizante que passional, ao fechamento com tons autísticos. Segundo Jeammet ―traumatismos cumulativos‖ da infância geraram tantas fissuras do Ego e clivagens que tem, eles próprios, como conseqüência, o fato de os afetos e representações suscitadas não serem o objeto de um trabalho de ligação e perlaboração, permanecendo ocultos e contra investidos pela ligação com objetos externos na origem do traumatismo ( JEAMMET, 2003, p. 120).
 
Quanto à imagem corporal, não à toa tão valorizada nos códigos de doenças, seguindo Jeammet, se a conduta bulímica constitui inegavelmente o principal ponto de parada e de organização do movimento regressivo, a imagem do corpo, como acontece na anorexia mental, não deixa de representar um ponto de fixação importante, principalmente para os casos em que o componente narcísico é essencial. Philippe Jeammet afirma em 2003:― Encontramos ai, ao mesmo tempo, a supressão da função de espelho da mãe e o apego a esta em uma busca da imagem ideal, em que os encontros com os objetos seriam então possíveis, pois estariam localizados sob o duplo signo da Idealidade e da Repressão das pulsões, como também das identificações femininas sempre marcada pelo signo da incompletude e insatisfação. A imagem de si, e o que ela supõe de busca do olhar do semelhante, ocupa uma posição central na regulação narcísica do sujeito. A importância do olhar assinala a supressão da interioridade e o primado do que acontece na superfície, do perceptivo sobre o vivido. Essa prevalência da exterioridade se reencontra como um dos eixos essenciais da compreensão do atuar bulímico‖ ( p.114)
 
Em 1914, em seu texto sobre o narcisismo, Freud assinala que o narcisismo primário da criança é fundado sobre as exigências parentais frustradas e sobre as falhas narcísicas dos pais:―His Majesty the baby... concretizará os sonhos de desejos que os pais não realizaram, ele será um grande homem, um herói, em lugar do pai; ela desposará um príncipe, compensação tardia para a mãe. O ponto mais crítico do sistema narcísico, essa imortalidade do ego que a realidade ataca encontrou um lugar seguro, refugiando-se na criança.‖ ( 1914)
 
O que dizer então de um bebê que foi mal investido narcisicamente por uma mãe deprimida? Sabemos por outros estudos a conseqüência: será ele também um melancólico, no sentido freudiano do termo, uma neurose narcísica. Será que o paciente bulímico se expõe perigosamente para evitar a depressão de um de seu genitores, é o que se pergunta Catherine Couvreur (2003, p. 31). (7) E mais: ― Encarnaria ele o objeto de um luto impossível da mãe? Foi particularmente seu corpo investido narcisicamente, com ambivalência, na idealização e portanto no ódio? Concebe-se que essa configuração do ― sistema narcísico, que o liga ao destino psíquico de uma outra pessoa, possa lançar posteriormente sua sombra sobre todo seu desenvolvimento posterior.
 
Em 1915, Freud formula, como nenhum outro o fez antes ou depois dele, a resposta ao enigma da melancolia (FREUD, 1915[1917]), embora vá distingui-la das psicoses só em 1924, quando postula que é única na categoria das ―neuroses narcísicas‖, estabelecendo uma distinção tópica entre elas (FREUD, 1924). Ele se pergunta sobre estes casos em que uma perda de objeto, longe de se resolver por um processo de luto, vai acarretar uma inclusão no ego e clivá-lo em duas partes, uma atacando a outra. O objeto foi certamente, suprimido, mas ele se afirmou no entanto mais poderoso que o próprio ego, que com ele se identifica e o torna parte de si. É ao devorá-lo que o ego incorpora o objeto, e passa a ser aterrorizado por ele, que é incorporado como objeto mau. A auto-tortura da melancolia, apontada por Freud como indubitavelmente rica em gozo, significa assim como o fenômeno correspondente da neurose obsessiva, a satisfação de tendências de sadismo e de ódio relativas a um objeto, sofrendo assim um retorno para o próprio ego (FREUD, (1915[1917]). Eis o que permite entender a direção que tomou a análise de uma paciente, atendida por uma das autoras, quando, perguntada sobre sua fome, algo como ―você tem fome de que?‖, ela respondeu, em uma condensação que a ambas surpreendeu: ―fome de medo!
 
Medo do objeto mau é o que foi escutado, e conduziu a análise dos processos melancólicos e auto-torturantes vividos pela paciente com o seu entorno. Ali parecia ter se revelado o medo de morrer ao desamparo, de fome, pois o objeto para sempre perdido foi inicialmente um objeto nutridor, com quem regressivamente ela, em sua ambivalência, se identificava ao devorar É tanto o medo de morrer habitada por um cadáver saboroso, na expressão de Maria Torok (1968) para nomear o objeto da melancolia, que é preciso devorá-lo para que saia de cena, mas a seguir vomitá-lo, para expulsá-lo de si e ver concretamente que ele foi destruído. E isso compulsivamente, quantas vezes persistir o vazio do desamparo inundando o frágil eu melancólico de angústia de morte.
 
Para concluir, fiquemos então com as observações de Couvreur que postula que nesses pacientes bulímicos, o acompanhamento materno primário não foi adequado, o objeto externo mal encontrado foi mal perdido, os objetos internos,―mal criados, ou seja, mal constituídos. O investimento do objeto perdido, por continuar excessivamente intenso, nostálgico, terá dificuldade para ser inibido e se fará em detrimento do investimento narcísico secundário. Então, segundo esta autora, nem o complexo de Édipo, nem a angustia de castração poderão se estruturar e desempenhar seu papel organizador. Persistirá um modo de funcionamento sempre tributário da realidade externa do objeto e predominarão modalidades de defesas primitivas: incorporar o bom, projetar o mau, clivar, idealizar. Mais do que a um superego, herdeiro do Complexo de Édipo, esses pacientes são confrontados a um ideal de ego tirânico (COUVREUR, 2003).
 
Convém, portanto, perceber a bulimia mais como a busca do objeto primário cujo luto foi impossível do que como uma perversão do instinto de nutrição, eis a tese que defendemos aqui, com Brusset (2003, 2008) e Magtaz (2008).(8) 

 
 
Referências:

BRUSSET, B. Psicopatologia e metapsicologia da adição bulímica. In: B. BRUSSET, COUVREUR, A. FINE. A Bulimia- São Paulo: Escuta, 2003.

-----------------Introdução Geral. In: B.BRUSSET, COUVREUR,A. FINE. A Bulimia- São Paulo: Escuta, 2003.

-----------------Anorexia Mental In: URRIBARRI, R. Anorexia e bulimia. São Paulo: Escuta, 2008.

----------------Introdução Geral In: URRIBARRI, R. Anorexia e bulimia. São Paulo: Escuta, 2008.

COUVREUR,C. Fontes Históricas e perspectivas contemporâneas. In: B.BRUSSET, COUVREUR, A. FINE. A bulimia. São Paulo: Escuta 2003.

JEAMMET, P. Abordagem Psicanalítica dos transtornos das condutas alimentares. In: URRIBARRI, R. Anorexia e bulimia. São Paulo: Escuta, 2008.

-------------------As condutas bulímicas como modalidades de acomodação das desregulações narcisistas e objetais In: URRIBARRI, R. Anorexia e bulimia. São Paulo: Escuta. 2008.

------------------Desregulação narcísica e objetais na bulimia B. BRUSSET, COUVREUR, A. FINE. A bulimia. São Paulo: Escuta 2003.

FERNANDES, M. H. Transtornos alimentares: anorexia e bulimia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

FREUD, S.(1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. In:FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v. 14.

FREUD, S.(1917[1915]) Luto e melancolia. In:FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v. 14.

FREUD, S. ( 1924 [1923]).Neurose e psicose. In: Freud S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v. 19.

FREUD, S.(1937-1938) Achados, idéias, problemas. In:FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v.23.

FREUD, S. (1940[1938]).Esboço de Psicanálise. In:FREUD, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud 2 ed. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v. 23.

MAGTAZ, Ana Cecília. Distúrbios da oralidade na melancolia, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Tese de Doutorado,(mimeo) 2008.

VINDREU,C. A bulimia na Clínica psiquiátrica. B. BRUSSET, COUVREUR, A. FINE. A bulimia. São Paulo: Escuta 2003.

*Trabalho apresentado no IV Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e

X Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, no Simpósio: O amor, a oralidade e seus destinos, Curitiba, 4 a 7 de setembro de 2010. Projeto financiado pelo CNPQ Processo: 402953/2008-8.

** AUTORES: MOREIRA,A.C.,ORENGEL,J.

ANA CLEIDE GUEDES MOREIRA, Psicanalista, Doutora em Psicologia Clínica PUC-SP, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia UFPA, pesquisadora do HUJBB e da AUPPF.

JACQUELINE ORENGEL, Psicanalista, médica e pesquisadora do HUJBB e do Laboratório de Psicanálise de Psicopatologia Fundamental UFPA, Especialista em Saúde Pública.

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