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ACTING-OUT & ACTING-OUT
DIFERENÇAS E SIMILARIDADES

12/5/2010

O uso da expressão acting-out por J. L. Moreno tem servido a inúmeros equívocos e, algumas vezes, a críticas injustas. Tudo começou quando os textos de Freud foram traduzidos para o inglês, onde o termo agieren foi vertido para to act-out e seu substantivo correlato acting-out.
                      
A tradução completa das obras de Sigmund Freud se deu a partir de 1948 por decisão do Instituto de Psicanálise de Londres e da editora Hogarth Press, tendo como tradutor-chefe James Strachey. Antes dessa época J. L. Moreno em suas publicações inaugurais já se utilizava da expressão acting-out introduzida posteriormente na tradução inglesa de Freud.
 
Em seu Dicionário Comentado do Alemão de Freud (1996), o psicanalista Luiz Hanns instrui-nos para o fato de que "Embora valorize a sabedoria psicanalítica contida na linguagem comum e popular, Freud emprega com freqüência termos psicanalíticos que são herança de usos psiquiátricos e filosóficos, utilizando-os, desde o início, de maneira particular. Outros ora são empregados de forma próxima ao uso coloquial, ora ganham autonomia teórica, transformando-se em conceitos psicanalíticos, perdendo o contato imediato com a linguagem corrente."
 
A palavra agieren inscrita nesta observação final perdeu o contato com a linguagem vulgar e tornou-se um conceito psicanalítico. Daí porque a sua tradução tornou-se problemática.
 
Com o termo de origem latina agieren, Freud quis, no seu texto em alemão, determinar um acontecimento da ordem do pensamento, da palavra e das expressões motoras, capaz de ocorrer no processo do tratamento analítico, geralmente dentro e no momento desse processo, a partir de fenômenos transferenciais inconscientes, estabelecidos na relação médico-paciente. Esse acontecimento refere-se à possibilidade do paciente "agir" seus desejos, fantasias e fantasmas, de linhagem pulsional, como explicitação do recalcado (ou reprimido).
 
Segundo os autores estudiosos do tema, esse "agir" geralmente transgride o comportamento civilizado, tendo a finalidade de romper o contrato analítico ("Não quero me tratar."). Pode ocorrer dentro da sessão, com expressão transferenciais eróticas ou de hostilidade, mas também fora da sessão, com comportamentos de várias ordens, repercutindo nas relações familiares e sociais da pessoa analisada.
 
O agieren, assim, é considerado na clínica psicanalítica quando o paciente tem suas atividades interpretadas como substituição às recordações. Três itens enriquecem a essência do conceito: o fenômeno nunca tivera, até então, explicitação verbal; ele existe porque a palavra não dá conta de sua expressão, e se expõe porque a pessoa não tem elementos de crítica e inibição civilizatórias. O indivíduo "age" de forma a não controlar os impulsos primitivos da formação de sua personalidade.
 
Algumas são as versões para o vocábulo freudiano. Em francês: agissement e actuation; em espanhol: actuar; em italiano: agire; em português: atuação e, em inglês: acting-out.
 
Por força da liderança da língua inglesa, predominou em nosso meio o acting-out, com todo o peso das dificuldades técnicas, não se delimitando com precisão o que venha significar para Freud: desrecalque, ações transferenciais, ato falho, impulsividade, agressividade, catarse de ab-reação, atuação, simples ação?
 
De pronto, pode-se afastar a expressão de sua correlata "passagem ao ato" que é própria do universo conceitual da clínica psiquiátrica, para indicar atos de agressividade e violência, desconectados de qualquer tipo de relação transferencial. Na "passagem ao ato" da clínica psiquiátrica incluem-se comportamentos delituosos, suicídios, assassinatos, atentados ao pudor, crimes sexuais e formas de atuações psicóticas.
 
A título de informação é interessante assinalar que foi a partir desse conceito psiquiátrico que J. Lacan formulou a sua tese "Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade – O caso Aimée" (1931). Foi quando fez a exortação ética: "um analista não deve recuar diante da psicose". E marcou a sua entrada na psicanálise. Nesta tese concluiu que a "passagem ao ato" do psicótico tem como conseqUência certa estabilização em sua atividade delirante, pelos mecanismos de culpa e autopunição.
 
Ainda na clínica psiquiátrica encontramos transtornos de hábitos e impulsos que também são considerados por alguns autores como acting-out. São impulsos à ação que não podem ser controlados, bem como não têm suas causas compreendidas ou explicadas. Mesmo na psicanálise são incluídos, em analogia, com o "umbigo do sonho" de Freud. São: jogo patológico, piromania, cleptomania, tricotilomania, explosão intermitente de raiva, compulsão a comprar, adição a videogames, automutilação, compulsões sexuais. Esses distúrbios, em princípio, não são explicados com fatores de causa e efeito, não se encontrando transtornos mentais nem doenças biomédicas subjacentes.
 
Esses actings necessitam de diagnóstico diferencial, cuidando-se dos fatores psicodinâmicos, história de vida, privação na infância, estruturas egóicas fragilizadas, afetos dolorosos não resolvidos, busca de afirmação social, busca do amor materno.
 
J. L. Moreno desdobrou o conceito psiquiátrico/psicanalítico de "passagem ao ato", como se fora uma versão do acting-out, sem conter obrigatoriamente os entendimentos que a psiquiatria e, particularmente Lacan, dão à locução, como sendo uma doença.
 
No pensamento moreniano, exposto em 1923 (Teatro da Espontaneidade) a "passagem ao ato" ou acting-out seria o atuar desde dentro, passando à execução de um ato concreto no ambiente onde o sujeito se encontra. Nesta visão, trata-se de uma fase oportuna e necessária para o avanço do tratamento, possibilitando tanto ao terapeuta como ao cliente a apreciação, crítica e avaliação do ocorrido em contexto profissional protegido.
 
Moreno entendia que atuar a situação afetivo-emocional, vinda das profundezas do imo, no contexto do teatro terapêutico, como representação teatral objetiva do que fosse subjetivo, significaria vivê-la (a situação afetivo-emocional) mais exaustivamente do que o próprio comércio da vida permitiria, possibilitando melhor entendimento interpretativo (a interpretação psicodramática).
 
Esse tipo de acting-out deverá, entretanto, ocorrer inserido num ambiente controlado, como medida preventiva ao acting-out irracional, patológico, com a possibilidade de contê-lo ou de tratá-lo.
 
Acting-out no Psicodrama é agir do interior para o exterior através do desempenho de papéis. O termo exige, pois, e sempre, a conotação teatral. E aí está a originalidade da proposta moreniana.
 
J. L. Moreno foi buscar na terminologia do teatro o sentido e a qualidade de sua intenção de trabalho, pois é no teatro que o termo acting-out tem a sua gênese.
 
O verbo inglês to act, usado de modo transitivo, estará todo o tempo referindo-se ao contexto teatral. Assim: to act a play significa representar uma peça, to act a part se traduz por desempenhar um papel cênico, to act out tem o sentido de colocar para fora, no palco, o conteúdo anímico, to act a role representar um papel, assumir o papel dramático dado ao ator ou, no método psicodramático, criado in loco pelo próprio ator. Então falamos em role-playing, role-taking e role-creating.
 
Portanto, em princípio, o acting-out psicodramático não tem nada a ver com o agierem psicanalítico, todavia, não se perde por esperar, num rigor de apreciação, que poderá até contê-lo.

COMENTÁRIOS:(9)

  • 14/5/2010 11:11:37
    Nome:MARINA DE OLIVEIRA COSTA
    Comentário:Wilson, gostei muito, gostaria de comentar a indagação de seu último parágrafo, quem sabe a cena dos próximos capítulos, continuando do final de seu texto. Acho que você tem razão, pois se fizermos aí uma "punção de líquor" pode contê-lo mesmo, já que a proposta winnicottiana é bem parecida, no sentido de compreender a psicose como uma defesa contra falhas ambientais específicas através do congelamento da situação falha. Nesses casos a regressão à dependência (no caso do analista), teria a função de proporcionar a experiência desses pontos de fixação em um ambiente confiável, o que promoveria tal qual no psicodrama, o descongelamento da situação original, num ambiente protegido.
    Acho também que se pegarmos ainda pelo viés do dicionário, o verbo interpretar pode significar (entre outras coisas) atuar, no sentido de desempenhar o papel numa peça e também traduzir ou verter de língua estrangeira (no sentido de não poder ser representada) ou antiga (arcaica?): acho que aí está o cruzamento entre psicodrama e psicanálise: o que não pode ser dito tem que ser mostrado, o que é uma outra forma do dizer. O que é estranho à razão pode ter somente inscrição no corpo e, se esse foi o caso, já dizia Ferenczi, é só a partir daí que pode ser despertado.
    Moral da história: como diz Ferro (“Técnica e criatividade”), um psicanalista italiano que tem muito de psicodramático, ao aceitar trabalhar os personagens que surgem como protagonistas da sessão, entre dizer e fazer nem sempre há o mar no meio.
    (Referência a um ditado italiano que diz fra il dire e il fare c’è di mezzo Il mare: entre dizer e fazer há no meio o mar).

    Super abraço

  • 25/5/2010 10:41:27
    Nome:CAMILA SALLES GONÇALVES
    Comentário:Apesar de excelente, não me surpreende pq Wilson Castello de Almeida sempre dá ótimas aulas. Mas está cada vez melhor em sua capacidade de síntese e clareza. E digo algo que, hoje em dia, tornou-se raro: o artigo está correto. O autor vai às fontes precisas e as compartilha. Não há dúvidas. Há é muita generosidade.

  • 29/5/2010 10:00:50
    Nome:CAMILA SALLES GONÇALVES
    Comentário:Continuando. Teve efeito curioso a proximidade da minha simples observação com o comentário de Marina Costa, que também constitui um texto. Acho que este é um ótimo exemplo do tipo de resposta desejável, um texto inspirado pelo outro, dialogando com ele. As pontuações de Marina trazem questões e informações importantes. Em relação ao texto de Wilson, agora, posso apenas acrescentar que nos dá um ponto de partida seguro e possibilita, sim outras concepções. Por, exemplo, sobre o acting out que ocorre em atos terapêuticos na parte de psicodrama público em situações tais como as desencadeadas pelo método "Vagas Estrelas". Não podemos ter acting out em dois sentidos (pelo menos)?

  • 20/9/2010 21:22:27
    Nome:FLAVIO PINTO
    Comentário:Caro Wilson: As tuas inquietações epistemológicas brindam-nos com conteúdos e questões interessantes. O tema não se restringe a uma mera discussão acadêmica, implicando no "modus operandi" ao enfrentá-lo na prática clínica. "Acting" ou "agiere" ou "atuação" é um fenômeno inerente à condição humana, carecendo de explicação ou compreensão. Dependendo da metodologia utilizada na apreciação desse fenômeno, pode haver um mar no meio, como refere a colega Marina Costa em se comentário. Como refere Jaspers, "o homem tende a explicar tudo aquilo que não consegue compreender". Esse parece ser o divisor que se estabelece entre interpretar, quando se busca explicar, e dar passagem ao ato,quando se busca compreender. A tua qualificada abordagem do assunto ressalta as questões etimológicas (e até transculturais), psicopatológicas e metodológicas que estão em jogo. Penso que a principal diferença conceitual se estabelece no modo de abordagem do mesmo fenômeno (função do terapeuta), na exposição permitida no setting terapêutico (papel do paciente)e na já desgastada disputa hierárquica entre palavra e ação, determinando uma suposta contradição entre o explicar e o compreender. Não sei se acrescento algo ao instigante tema, mas é o que me sobrevem da leitura de teu texto. Grande abraço.

  • 10/9/2013 09:49:20
    Nome:ARHEUXBM
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443497875
    Comentário:Yeah the primer is a ptrety helpful stage, if the primer doesn't go on well then the paint won't rest well on top of it. So yeah primering the entire thing is a good idea As for the teeth I'm afraid I can't really help you there I never really tried them myself> I would maybe suggest to paint a white layer and then paint black lines to show the teeth and that's a terrible deion But I'm not entirely sure really, sorry But yeah, definatly prime the face

  • 11/9/2013 08:19:04
    Nome:TY01IJPNQBQW
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    Comentário:I painted the model iteslf normall, after this video I slightly drybrushed the edges with a metalic greay to give it a sort of worn' look.As for the paint I'm not sure, the pot has gone somewhere and i can't find it nor can i remember the name, sorry. I know that it was one of the Citadale Foundation paints, one of the reds but i have no idea which one specifically, again I'm sorry : //qkilop.com [url=//eqszrd.com]eqszrd[/url] [link=//bfoxnkwjgph.com]bfoxnkwjgph[/link]

  • 11/9/2013 11:45:40
    Nome:ZWIWP1GP1
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    Comentário:yall niggas gotta stop "//tfcpyiy.com">geittn emotional everytime some footage s.. i just seen whites shoot up a whole school, do u try to avoid school too? i just seen whites shoot up a movie theatre, do u not watch movies anymore? i seen arabs fly a plane into a building, are u done with buildings? u sound crazy homey, u let the media perpetuate a stereotype and u fall for it.. 2 million other clubs were open that night and everyone had a good time and went home safely, u let the media show u the 1 or 2 that wasnt safe and now you're done with black clubs AKA black businesses that cater to black folk 9x outta 10.. do let em do that 2 u homey

  • 11/9/2013 16:26:15
    Nome:PTINUZ8UTP
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    Comentário:Wow! that's why I stay away from clubs my self nothing but"//sdttqtcehzz.com"> tbuorle half naked bitches who don't want you to speak to them or look at them & u never know who they niggas are or if some nigga gonna play save a hoe or if u step on a nigga shoe by accident or when u in the club black clubs anyway the guys mean mugging and shit then most smoking weed plus alcohol over crowded smh just a bad mix waiting for shit to happen

  • 12/9/2013 00:07:54
    Nome:VP0WE66BWM0V
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443427296
    Comentário:but their needs to be more guns right? thats the problem when guns are so preanlevt and so easily accessible, there just too easy to go to. this dude wasnt even fighting he instead just walked behind two dudes fighting and shot him smh crazy //phdhqxc.com [url=//wacoayvoy.com]wacoayvoy[/url] [link=//lspyyf.com]lspyyf[/link]

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