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NININHA III

27/10/2009

Sócios na Imagem


Nininhas proliferam por aí, condizentes com a ordem de demandas  narcísicas crescentes. Na sociedade da imagem são escravas do corpo idealizado, apunhaladas por exigências que não podem cumprir. Padecem de transtornos de tal ordem que uma análise superficial já evidencia a composição de moções diferenciadas e dilacerantes: a afirmação negativa de um corpo sem rumo.

Somos seres datados. As organizações psíquicas da subjetivização  são atravessadas pela sociedade onde emergem; a cultura é  a matriz  das séries complementares e não há cultura, tempo, espaço, nada, sem corporeidade.

O homem do capitalismo da modernidade investia-se em uma dimensão trágica: honra, reputação, dignidade, glória – seus paradigmas. Sua existência era marcada pelo devir, com espera, sentido prospectivo, luta; havia utopia, ideais coletivos, razão, ciência,  compromissos sociais, valorização da cidadania, da família, do amor romântico. O corpo era respeitado como mediador de finalidades, mas, também como sede de instintos malsãos, temido. O corpo era uma ameaça potencial aos costumes, aos modelos ideais, às regras de etiqueta e era necessário adestrar, disciplinar, reprimir, desviá-lo das impulsividades, recalcar suas moções. Enfim, conformá-lo aos ideais da época. [1] 

A sociedade pós-moderna rompe com estes paradigmas do homem burguês, do romantismo amoroso. A lógica cultural do capitalismo tardio é outra, seu  maquinismo locomotor  é a  produção e reprodução do espetáculo: mídia, web, câmeras, moda, imagem, corpo-fetiche – a sociedade do panopticon. A vida coletiva se reduz rapidamente ao imagético: as palavras minguam, os valores discursivos vem do grande outro televisivo, globalizador; o pensamento entorpece, o consumo de imagens torna-se lazer; exibe-se e se espia compulsivamente, o faz de conta faz de tudo. No lugar da autoridade, a celebridade. Tudo disponível, à venda. E é preciso gozar rápido.  

A falência do homem trágico da modernidade gera obstáculos para o desejo de singularização e instala a produção do homem em série, homogeneizado nos padrões estereotipados das grifes. Trata-se da  institucionalização de uma outra lógica mediadora das relações sociais onde a imagem ganha qualidade de fetiche – quem não é visto com as marcas do discurso hegemônico é descartado. A identificação impositiva, especular, com alcance de massacre.

Adiante, em rápido processo, este sistema de poder rompe com os pactos que anteriormente estruturavam os laços sociais, sustentavam o desejo e impunham a simbolização. Em seu lugar,  o isolamento. Somos tornados competidores ou consumidores: ao desejo oferece-se o fetiche da mercadoria.[2] “A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo”[3]– o rebaixamento do desejo à necessidade, e neste enlace o sujeito é tornado objeto; algo como se a pulsão pudesse ser rebaixada ao instinto – animalesco procedimento.  

Este apagamento do desejo de subjetividade e escravização à imagem desencarnada necessita de um poder ideológico de massa, a que Adorno chamou de industria cultural.  Daí, “...nas condições atuais em que os homens valem menos como força de trabalho do que como consumidores, os valores que condicionam a exclusão se inverteram. Não mais o esforço e o sacrifício, mas o “direito ao prazer”. Não mais o adiamento da gratificação, mas o gozo imediato de tudo o que se oferece para esse fim. Não mais a renúncia pulsional e a castração, mas a fantasia narcisista de um eu que se prolonga nos seus objetos de satisfação. Nesse contexto, o recalcamento seria contraproducente. Não se trata mais de recalcar o desejo e sim de seduzir o sujeito do desejo, no sentido de “desvia-lo de seu caminho”.[4] 

Ora, esta sociedade não está sustentada por reciprocidade, renúncia, espera, adiamento, alteridade, pactos. A ausência de utopias cria individualismos, desesperança, fome de sentidos -espaço por onde penetra o fascínio totalizador, o olho da serpente. Este movimento de colagem do eu ao objeto, do objeto enfiado orifícios ao dentro, cria um campo de paradoxos: todos vão se assemelhando mas ignora-se o semelhante, ignoram-se os pactos sociais. Somos uma espécie constitucionalmente violenta que só sobreviveu graças a sua precariedade instintual e conseqüente desamparo que fomentaram interdependências. Somos agressivos, não vivemos sem pacto social. Ele  necessita ser inscrito precocemente na psique, instalado ativamente no Pacto Edípico, mas necessita de confirmação, necessita de reinscrição pelo Pacto Social.[5]

Sem pactuar entramos no terreno da fascinação: enamoramento, fusão, retorno às hordas, fascismo, anomia. Há uma ameaça concreta ao nosso devir, poderemos ser lascas, feixes de um todo. “O teu corpo é luz sedução” , diz o terrível engodo.

 

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[1] Freire Costa, J. Café Filosófico. TV Cultura, 2003

[2] Videologias, Bucci,E e Kehl, M.R. – Videologias, São Paulo: Boitempo, 2004

[3] Debord, Guy, A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto,1997, pg 24

[4] Kell, in Videologias Op. cit.

[5] Pellegrino, Pacto Edípico – Pacto Social. Texto amplamente divulgado no início da década de 1980 e que discute os perigos da anomia na sociedade brasileira.

COMENTÁRIOS:(1)

  • 23/6/2010 12:29:23
    Nome:MARIANA FARINAS
    Site / Blog:estudante da PUC
    Comentário:E o poder do corpo magro? O poder de sentir que não se necessita de situações prazerosas que muitas vezes são acompanhadas de agressões. No caso das mulheres, de fugir dos estupros visuais e simbólicos na rua, de uma mãe que alimenta mas envenena, etc.

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