COLABORADORES

Imprimir

CHARLIE KAUFMAN - UMA POSSÍVEL LEITURA

17/8/2009

O filme marca a estréia de Charlie Kaufman como diretor, pois como roteirista é signatário de dois ótimos filmes, "Quero ser John Malkovich" e "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Kaufman, através de seus roteiros, problematiza o que há de mais central na existência humana, que é a impossibilidade de uma resposta última sobre a pergunta: "Quem sou?" Diante dessa impossibilidade, buscamos o outro sabedores, porém, que este também não detém tal resposta. O que permanece é a pergunta sobre a forma de um enigma.

Em seus dois primeiros roteiros, Kaufman de maneira criativa e com humor, nos mostra que às vezes esta busca pelo outro pode levar as personagens a "adentrar" na mente e no corpo do outro; outras vezes, a "reter" o outro em suas lembranças. Nesse último filme, Kauffman nos brinda com uma história que parece um quadro de "pintura em movimento" sendo a moldura como aquilo que oferece o contorno por onde se sustenta o vai e vem desta.

Vamos à história:

O enredo gira em torno do personagem Caden Cotard interpretado por Philip Seymour Hoffman de forma magistral. Caden Cotard é um diretor de teatro amargurado com seu trabalho e sua vida. Ele é casado com Adele, interpretado por Catherine Keener, que é pintora de figuras humanas nuas, porém há um detalhe neta arte: essas imagens são pintadas em miniaturas e para conseguir enxergá-las é necessário um óculos com lentes especiais. As profissões de ambos são elementos significativos para o transcurso da história. Eles têm uma filha de quatro anos que se chama Olive.

Desde o inicio, o filme mostra que a vida do casal não anda nada bem, pois os diálogos denotam a perda de admiração que um tem pelo outro, sobretudo de Adele em relação a seu marido. Ela pouco se interessa pela vida dele. Caden mostra-se apático frente ao desinteresse de sua mulher. O seu investimento amoroso é subvertido em "investimento" nas doenças de seu corpo. Este "investimento" produz como efeito a idéia de que a morte ronda sua existência. De que maneira isso se dá? O roteiro nos conta de um personagem que tem por sobrenome Cotard.

Este detalhe do roteiro é bem interessante, porque Cotard também se refere a uma síndrome catalogada no campo da psiquiatria, assim nomeada como síndrome de Cotard. Esta designação foi instituída em homenagem ao psiquiatra francês, Jules Cotard, que em 1882 descobriu alguns aspectos sintomáticos comum a vários pacientes; dentre eles o chamado delírio de negação.

Qual o conteúdo destes delírios? Eles apresentam a negação dos órgãos do corpo, na medida em que os pacientes acreditam que o corpo está apodrecendo, porque justamente os órgãos inexistem. Assim, eles são obcecados pela saúde e buscam os médicos para obter uma resposta precisa para seu sofrimento. Esses delírios de negação sobre o corpo situam a síndrome de Cotard como uma forma de hipocondria. O aprisionamento, em si mesmos, os coloca numa posição melancólica frente suas vidas, ou seja, tem-se a imagem de que se trata de sujeitos que se posicionam no mundo no lugar de "morto-vivos".

Certamente, na construção do personagem Caden Cotard, o roteirista foi cuidadoso na pesquisa sobre a síndrome, sem fazer daquele uma caricatura psicológica. Além desse aspecto do roteiro, Kaufman introduz outro conceito que, aparentemente não teria nenhuma relação com o personagem e a história do filme; entretanto, esse outro conceito serve como aquilo que nomeei como um filme numa "moldura de um quadro de uma pintura em movimento". Esse conceito chama-se sinédoque. 

O que vem a ser uma sinédoque? É uma figura de linguagem em que ocorre uma substituição de um termo pelo outro; porém, apresenta como característica uma substituição de termos em que há uma relação de extensão desigual. Extensão tanto na ampliação de um termo quanto em sua redução. Por exemplo: "Os mortais pensam e sofrem" (os mortais estão no lugar de homens).

Outro exemplo: "A estação das rosas chegou" (estação das rosas está no lugar de primavera). Portanto, trata-se de uma figura de linguagem em que um termo está incluído no outro termo.  Alguns autores consideram a sinédoque uma forma de metonímia.

Nesse sentido, numa aproximação com a figura de linguagem, Caden Cotard pode ser uma sinédoque em relação às pessoas acometidas da síndrome de Cotard, sem se tornar uma personagem caricata de tal síndrome. Assim como, o que veremos a seguir, no transcurso da história, é que Caden encenará sua própria vida num palco de um grande teatro improvisado. Encenar sua vida, no palco de um teatro, terá como cenário a cidade de Nova York. Mais uma vez, Kaufman, trabalha com a idéia do conceito de sinédoque. Desse modo, o roteiro tem um eixo central: O de tomar as personagens e cenários como termos substituíveis, ou seja, como se fosse possível tomar a parte pelo todo, como numa figura de linguagem.

Desse modo, ao realizar esse movimento de substituições dos termos, o roteirista situa as histórias singulares como formas de lidar com a impossibilidade em responder sobre um dos enigmas da existência humana, "Quem sou?". O máximo que se pode fazer é substituir-se enquanto ilusão do absoluto.

A personagem Caden Cotard é um homem as voltas com a tentativa de substituir-se, porém o faz de maneira circular, ou seja, toma a si mesmo como resposta. Isso o leva, portanto, a fracassar na tentativa de repetir o mesmo; como homem para uma mulher, como pai para uma filha e, como um sujeito sem criatividade diante de sua própria vida. Nessas andanças como "morto-vivo", ele é tomado pelas "doenças"; percorre alguns médicos para saber por qual doença está acometido. Dentre os vários momentos do filme em que procura diagnósticos médicos, ele recebe um diagnóstico que tem o nome de Sicose, doença dermatológica.

Há uma cena em que Caden está com a filha passeando pela rua, quando por instantes eles interrompem o passeio para que o pai ajeite o casaco da menina. Neste momento, ela percebe no rosto do pai que há uma mancha e pergunta o que é aquilo, ele responde que é Sicose, uma doença de pele e, com uma dose de humor, acrescenta: "Quase que por uma letra eu não teria outra doença: Psicose".

A cena descrita acima faz parte do que chamarei de primeiro momento do roteiro, em que Caden, Adele e Olive funcionam como uma família que, poderíamos descrever  como um "barril de pólvora" prestes a explodir de maneira silenciosa. As aparências contidas são quebradas por Marta, interpretada por Jennifer Jj. Leigh, que surge para fazer uma alusão ao romance com Adele. Nesse período em que o casamento não andava nada bem, Caden se aproxima de Hazel, interpretado por Samantha Morton, a bilheteira do teatro no qual Caden dirigia uma peça.

Esse paralelismo amoroso vivido por Caden e Adele atinge seu final quando ela decide viajar com a filha para a Alemanha, a fim de que consiga ter melhor projeção profissional. Essa decisão de Adele deixa Cotard mais amargurado do que nunca. Há uma cena em que essa amargura de Cotard é transformada numa obsessão em limpar sua casa. Ele apanha uma escova e esfrega o chão com tamanha força e rapidez que a imagem de um homem extenuado não diz respeito ao esforço físico, mas acima de tudo extenuado em limpar aquilo que, supõe tenha sido sua "sujeira" que impediu a vida familiar. Talvez, tenha sido essa obsessão uma forma de tentar trazer a família de volta.

Após vários encontros e desencontros com Hazel, a bilheteira do teatro, o romance é desfeito. Caden, então, parte para uma terceira tentativa amorosa com a atriz Clarie, interpretada por Michele Willians. Deste romance, nasce uma menina. Mais uma vez, a história com as mulheres se repete, ou seja, ele sempre se coloca como um espectador da vida amorosa, como se aquele que está com a mulher escolhida fosse outro que não ele.

A partir de algo inesperado, o filme passa a um segundo momento. Caden recebe pelo correio uma carta de uma fundação que "subvenciona a genialidade", e ganha um orçamento bastante alto para realizar uma peça que possibilita a ele a realizar um sonho: encenar uma peça sobre sua vida na cidade de Nova York.

A criatividade de Kaufmann neste segundo momento do roteiro é impressionante porque trata a peça como uma sinédoque, não apenas do cenário montado de Nova York, mas a idéia do figurante como parte do todo que é a personagem. Para isso, ele faz com que se imbriquem a história "real" e a história ficcional; o ator contratado com a personagem "real"; a cena "real" e a cena fictícia. Nesses momentos ficamos com a sensação de que não há nem "real", nem ficção, ambos constituem dois lados de um mesmo plano.

As cenas em que as personagens da vida "real" dialogam com os atores contratados para representá-los procuram retratar fielmente aquilo que foi a vida de Caden Cotard. O interessante dessa montagem é que há momentos em que o figurante tenta se impor ao personagem "real" e as situações geradas por causa disso apresentam toques de humor e sensibilidade, assim como de sofrimento.

Na cena final do filme, Caden percorre o Galpão em que a peça foi encenada num determinado sentido, e nos dá a impressão de que ele caminha do começo para o fim de algo. Nesse sentido ele encontra o silêncio e os restos do cenário. Em seguida, ele apanha um carro e dirige no sentido contrário ao anterior, como se fizesse um movimento do fim para o começo. Agora ele encontra uma personagem que foi figurante, num primeiro momento, que foi a avó de sua segunda filha; num segundo momento, ela foi figurante de uma personagem que era a faxineira que arrumava a casa de sua primeira esposa. Casa essa em que ele entrava, porque recebia a chave de uma vizinha muito idosa. Assim, por um equívoco dessa senhora, que deveria entregar a chave à faxineira, a entregava a ele. Cotard percorria a casa vazia e por lá permanecia por algum tempo, como se esperasse pela chegada da ex-mulher e da filha. Algo que nunca aconteceu.

Então, nessa cena final Cotard encontra a figurante "avó-faxineira", esta está em silêncio, senta-se ao seu lado e ele, num momento desolador diante do que foi sua vida, ouve a voz da personagem faxineira. Essa voz tem um mandato, pois afinal de contas ela representa a última tentativa de "limpeza".

Desse modo, Kaufman segue escrevendo roteiros que tratam das questões da existência humana de maneira criativa, com uma dose de humor, sem precisar respondê-las, apenas colocá-las e, assim nos envolve como partes de um todo em constante movimento de substituições de um termo pelo outro. Quem sabe, o enigma "Quem sou?", possa ser apenas uma "sinédoque" daquilo que nunca poderemos ser.

COMENTÁRIOS:(1)

  • 20/8/2009 09:49:37
    Nome:LUIZ HENRIQUE ALVES
    Comentário:O corpo em negativo "Há doenças piores que as doenças, Há dores que não doem, nem na alma Mas que são dolorosas mais que as outras. (…) Há tanta cousa que, sem existir, Existe, existe demoradamente, E demoradamente é nossa e nós..." Fernando Pessoa

Envie seu comentário

voltar

Irmãs Ross...Uma relíquia
Fantásticas, famosas na época.

.

Psicotramas

16/08 - Lançamento do livro Crônica de uma Ilha Vaga
Núcleos de Formação Permanente no CEP

Psicorama © - Todos os Direitos Reservados
psicorama@psicorama.com.br

MFSete