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REFLEXÕES SOBRE O COMBATE À VIOLÊNCIA

25/5/2009

“É isso: só quando o homem toma conhecimento através de seu rude olhar é que lhe parece um começo” (Clarice Lispector)
 
Violência. Tema tratado e discutido em todo canto atualmente; nos jornais, na TV, na internet, em escolas, mesas de bar, na sala de estar. Muito se pensa sobre o assunto, existem várias propostas, projetos e políticas públicas para remediar ou mesmo eliminar este problema. Entretanto ela está aí.
 
A preocupação com a violência não pode ser negada. Vemos várias ações sociais sendo realizadas por meio de organizações não-governamentais, coordenadorias especiais de combate, leis e decretos; discussões e reflexões em simpósios, congressos, debates em Universidades e Instituições de ensino. O que não percebemos, ou melhor, o que percebemos e nos inquieta, é o não esclarecimento social sobre o que é a tal violência.
 
É claro que a sociedade se da conta da violência escancarada por meio de homicídios, latrocínios, roubos, sequestros, atentados ao pudor... Mas e aquela violência sutil? Atos arbitrários ligados ao poder que são, socialmente, descaracterizados como violência. 
 
Aqueles que discutem o assunto criam várias categorias para conceituar violência: de gênero, doméstica, física, sexual, psicológica... Mas quem sofre esse tipo de violência, muitas vezes, passa por ela sem perceber.
 
Trabalhamos[1] com mulheres que vivenciam relações violentas e que acreditam que isto faz parte de qualquer relacionamento, da natureza dos relacionamentos. Não podemos ao menos dizer que essas mulheres aceitam essa violência, pois, em vários casos, elas não se dão conta de que estão em uma relação abusiva. Não sabemos dizer se são vítimas de violência, já que nem se apropriam desta situação. Na verdade, não se apropriam de suas vidas, depositam-nas na conta do destino: "vida de mulher é assim mesmo". O que não deixa de ser, também, violento!
 
Para elas, passar por humilhações, privações, agressões, abusos sexuais, faz parte do "ser mulher". Em suas concepções a esposa deve ser servil e obedecer ao marido, namorado, companheiro, ao homem, as regras sociais.
 
Uma porção de leis e ações são divulgadas diariamente, mas não vemos nada que seja efetivo para o esclarecimento do que é de fato "ser mulher", "vida de mulher", nesta relação de poder. Pelo menos aquelas com que trabalhamos, nunca foram informadas de que pra ser mulher não é necessário ser submissa. Acreditam e não vem outra forma de relacionar-se afetivamente, senão pela submissão.
 
Não deixamos de considerar todas as questões psíquicas e sociais envolvidas nesse posicionamento frente à violência, porém, nos preocupamos com o quanto as ações, públicas ou não, realizadas para atuar sobre esta violência, não implicam, de fato, essas mulheres (e a sociedade como um todo) no processo de combate (considerando, hipoteticamente, que isso seja concretizável).
 
Acreditamos que só é possível qualquer trabalho de combate ou prevenção, quando aqueles que sofrem a tal violência se apropriam dela. Como dizer a uma mulher que ela precisa sair de uma relação violenta se ela acredita que é assim mesmo que deve ser? Como eliminar a violência da vida de uma mulher que não se acha submetida a ela?
 
Como fazer esse tipo de trabalho? É aí que se inicia nossa reflexão...



[1] Trabalho realizado na Escola Técnica de Saúde Pública Professor Makiguti, localizada na Cidade Tiradentes, periferia da capital de São Paulo.

COMENTÁRIOS:(2)

  • 27/8/2009 20:30:22
    Nome:LUIZ HENRIQUE
    Site / Blog:www.psicorama.com.br
    Comentário:"O homem é o lobo do homem", a essência da fera!? Lógico que prevaleceu e ainda prevalece o embate físico duro e direto na submissão à mulher: misoginia(?). Agora, e o poder da mulher sobre os homens: têm o monopólio do "não" e, além de tudo, estão assimilando o pior dos homens - o machismo.
    Belo trabalho o de vocês.

  • 29/8/2009 17:23:16
    Nome:CARLA
    Comentário:Fiquei curiosa pelos desdobramentos do trabalho e pela questão que vocês colocam no fim do texto.

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