COLABORADORES

Imprimir

ALGUMA COISA ESTÁ FORA DA ORDEM, FORA DA NOVA ORDEM MUNDIAL

25/5/2009

A psiquiatria é a especialidade médica que faz o limite entre as ciências naturais biológicas e as ciências humanas. Há quem diga que rotular um determinado jeito de praticar psiquiatria de "psiquiatria biológica" é redundância, pois se é uma especialidade médica toda psiquiatria seria biológica. Fazendo um contraponto, a palavra psiquiatria vem do grego "psique" (alma) e "iatros" (medicina) e quer dizer medicina da alma. Tomo a liberdade de deixar os deuses gregos e seus espíritos de lado, aproveitando apenas a inspiração, já que alma não cabe dentro das ciências naturais e aproximar alma de mente, algo introspectivo e subjetivo.
Aí já dá pra ver duas concepções diferentes de psiquiatria que têm relação com pelo menos duas concepções de mente. Ou, eventualmente, também haja quem tenha bem claro que sendo psiquiatra trate exclusivamente do cérebro que poderia nem ter relação com a mente, ou ser o substrato final numa procura linear do que seria a mente. Teríamos, aí, um psiquiatra ou um neurologista do comportamento?[1] Mas que diferença faria ficar gastando tempo e pensamento, se na hora que estiver diante de síndromes psiquiátricas muito claras, poderia acontecer de psiquiatras, com diferentes concepções de mente, medicarem de forma muito parecida?
Talvez a diferença seja que um saiba que tem um sujeito a ser escutado e possa ter uma escuta afiada para identificar a dor central da alma deste e perceber que aquela dor de forma indireta ou, muitas vezes, bem diretamente, tem relação com aqueles sinais e sintomas da síndrome, e, aí, saber que aquela escuta é central naquela consulta médica e não periférica. Ter claro que aquela escuta não é a escuta de um médico "preocupado" com seu paciente ou "educado" com seu paciente, ou "respeitoso" com seu paciente e sim é a arte central de seu ofício, mesmo que ele não esteja na função de psicoterapeuta ou psicanalista e, no final da consulta, provavelmente, prescreva uma medicação para tal paciente. Já esclarecendo, como uma vez disse-me um preceptor em minha residência médica em psiquiatria, o problema não é medicar, a idéia é, na hora de prescrever, não passar a mensagem de que aquele remédio vai resolver os problemas da vida do paciente. Em outros termos, resolver os problemas da alma ou da mente do paciente. Esta conduta fecha as portas da mente que a dor abriu. Este erro médico, que não é objetivável, não vai ter quem prove, não vai ter quem puna, mal vai ter quem veja, este não preocupa a mente nem dos profissionais, nem dos pacientes e nem dos parentes. Deixando claro, a cultura de exploração do erro médico, grande bobagem que vem dos americanos do norte, é mais um fator que ajuda a desvirtuar a boa prática médica, colaborando para que colegas se preocupem com detalhes periféricos objetiváveis e às vezes não prestem atenção, em nosso caso, na matéria central mais subjetiva.
A psiquiatria oficial atual, a que é defendida de forma predominante na grande maioria das escolas médicas do mundo, no mínimo pela grande maioria dos profissionais de muito sucesso e progressão nas carreiras docentes em psiquiatria, ou seja, formadores de opinião, e pelos mais jovens que seguem este caminho, como se fosse o único, e por coincidência também pelos laboratórios farmacêuticos que produzem psicotrópicos, é a psiquiatria que é baseada na ciência, ou melhor, nas ciências naturais, e no modelo de pesquisa que cabe dentro das ciências naturais. Este modelo é o que prioriza estatísticas, descrições precisas, o que chegar mais perto possível de se generalizar e que realmente é imprescindível na hora de se produzir um medicamento que vai ter uma indicação universalizada para quem tiver precisas e determinadas patologias. Mas, e a alma (psique), ou melhor, e a mente, e aquela dor, que é o mais singular daquele sujeito, muitas vezes o motivo central do pedido de socorro, o psiquiatra não tem nada a ver com isto? O homem é um ser natural? Há quem diga que com o atravessamento da linguagem, que é mais desenvolvida que nos outros animais, o homem já não é (deixa de ser) um ser natural e isto o diferencia.
 
Nesta concepção natural biológica da psiquiatria, ele (o psiquiatra) pode ouvir (por educação - como uma vez já ouvi um psiquiatra falar) e encaminhar para psicoterapia de forma burocrática, ou ele pode, por sua postura, simplesmente, traduzir uma dor da alma por um correspondente desequilíbrio de neurotransmissores e o paciente, até para se defender de sua angústia, acreditar nisto e se robotizar. "Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial". O sujeito e o singular estão fora da nova ordem mundial. Muitos psiquiatras também seguem suas receitas de bolo, suas entrevistas diagnósticas padronizadas e seus algoritmos de tratamento, assim evitam a singularidade da conduta, o erro médico e assim erram todos juntos, numa cumplicidade alienada, com uma "responsabilidade" ingênua, que não vai aparecer negativamente nas estatísticas, errando sempre no que se trata da singularidade da mente daquele paciente e na quase extinta singularidade da arte do ofício de cada psiquiatra[2].
 


[1]
Já teria se perguntado Mário Eduardo Costa Pereira no seu texto ”A paixão nos tempos do DSM: sobre o recorte operacional do campo da Psicopatologia”, integrante do livro: “Ciência, Pesquisa, Representação e Realidade em Psicanálise”, Editora Casa do Psicólogo: Educ, 2000, São Paulo.

[2] Mário Eduardo Costa Pereira já se referiu à perda da prática artesanal na psiquiatria atual em seu texto “A paixão nos tempos do DSM: sobre o recorte operacional do campo da Psicopatologia”, ob.cit.

COMENTÁRIOS:(5)

  • 18/7/2009 13:53:39
    Nome:LUIZ HENRIQUE
    Comentário:Paulo, quantas dores testemunhamos na nossa clínica, não? Confesso que, atordoado, às vezes pego no receituário como quem saca revólver pra caçar fantasmas...

  • 10/9/2013 08:05:38
    Nome:SJBYYZBM
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443756686
    Comentário:Ne3o concordo que a cieancia da reeancsne7a tenha comee7ado como reace7e3o e0 metafedsica. Tratou-se antes, julgo eu, de uma mudane7a de metafedsica. (Uma leitura interessante para essa coisa das mudane7as de metafedsica e9 o Koyre9, nos estudos galilaicos, por exemplo.)Concordo com os que pensam que ne3o he1 cieancia nenhuma sem metafedsica. Nesse ponto concordo, p.ex. com Popper (embora discorde em muitos outros pontos).

  • 11/9/2013 08:05:00
    Nome:WYJINVDT
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443604199
    Comentário:Acho que preciso de ajuda! Rsrsrs. Olha sf3 meu redtluaso:06/21/109 18:47Dependeancia de InternetInformae7e3oFirst Name: Je0b4ice BorgesTotal de pontos: 50.Avaliae7e3o:Vocea tem passado por problemas ocasionais ou freqe0bcentes por causa da Internet. Vocea deve avaliar seu impacto total em sua vida.POr falar em Internet, deixei um selo pra vocea le1 no Jornalismo SL. Boa semana!.-= Je0b4ice Borges postou em seu blog .. =-. //czfguzzo.com [url=//upcmibk.com]upcmibk[/url] [link=//ladqnqkhs.com]ladqnqkhs[/link]

  • 11/9/2013 11:32:44
    Nome:CZZR3ETHDR
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443965195
    Comentário:Gentee, eu preciso de "//mgvcvsm.com">ajduar urgentementee eu nao consigooo viver sem internet eu fico on o diaaa inteiroo nao fasso nadaa a nao ser internet, eu tentoo estudar mais nao consigoo pq fico pensandoo em quem esta on pra mim cv .concluindoo gentee eu precisoo urgentemente de umaa ajudaaa .ME AJUDEM eu nao consigoo ficar sem internet

  • 11/9/2013 16:11:45
    Nome:4HY6QROZMHN
    Site / Blog://www.facebook.com/profile.php?id=100003443606262
    Comentário:Eis meu resultado:Total de "//imfokxcz.com">poonts: 71.Avaliae7e3o:Vocea tem passado por problemas ocasionais ou freqe0bcentes por causa da Internet. Vocea deve avaliar seu impacto total em sua vida.Agora fiquei mais preocupada. Depois do falcimento da minha avf3 eu praticamente fico na frente do computador do que outra coisa.SOCORRO

Envie seu comentário

voltar

Irmãs Ross...Uma relíquia
Fantásticas, famosas na época.

.

Psicotramas

16/08 - Lançamento do livro Crônica de uma Ilha Vaga
Núcleos de Formação Permanente no CEP

Psicorama © - Todos os Direitos Reservados
psicorama@psicorama.com.br

MFSete