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A QUESTÃO IDENTITÁRIA NA ANOREXIA

25/5/2009

Vou fazer um pequeníssimo recorte dentro de um complexo universo que intersecciona os saberes da medicina, psicanálise e ciências sociais. Muito mais do que uma relação exclusiva com o peso, alimentação ou valores culturais, essa patologia tem a ver com as questões identitárias da constituição do sujeito. O corpo seria um invólucro que recobre a insuportabilidade das angústias, dores e incertezas e por compensação é tomado como objeto moldável. Entre parênteses: a mídia se impõe como a principal patrocinadora dessa ilusão! Para essas "meninas" a única certeza que existe é a de que querem sustentar com êxito um autocontrole, pois esse poder extremado demonstra o seu valor, enquanto ressentem-se de todas as outras insuficiências que as fazem silenciar na vida.
 
O estrondo que provoca essa legião de corpos desencarnados no nosso cotidiano, penso que se dá por se apresentarem principalmente através de uma figuração excêntrica: um corpo estranho ilustrando um sujeito em protesto. Suscitando admiração e ao mesmo tempo repulsa, essas mulheres são capazes de um controle incoercível sobre os próprios impulsos que não vemos em nós, nos nossos fracassos regulares para parar de fumar, para perder os quilinhos a mais… mas também representam uma  porção mórbida ou uma obsessão desmedida. O viço da juventude se esvai, ressecando toda a matéria viva que compõe o corpo e o flerte com a morte e a decrepitude é algo que ao sujeito contemporâneo desperta horror. Um corpo que apaga os traços curvilíneos do corpo feminino, que fica infértil, que quebra.
 
Esse corpo estranho se apresenta a nós de forma barulhenta, não pelo que seus representantes possam dizer, mas antes pelo que é indizível e se expressa na forma de sintoma. São corpos que muito comumente são decifrados a partir de um discurso fácil; como se buscassem adequação extrema aos padrões culturais da esbeltez, mas que pelo contrário, pretende-se um corpo de radical alteridade. Intenção de diferir para dar conta da indiscriminação com corpo e o desejo irrealizável da mãe.
 
A constituição da identidade se dá através da relação com o objeto primordial. Nas origens do sujeito há uma noção de contigüidade entre os corpos da mãe e do bebê, e o projeto de autonomização dos corpos e dos sujeitos depende de uma jornada complexa de desprendimento do desejo materno engolfador, porém necessário frente ao desamparo inicial. Se esse processo de desmistura é delicado em geral, no caso das meninas, é ainda mais difícil. Fazer o luto do objeto primário é em certa medida fazer um luto de si própria, uma vez que a distinção dos corpos não é nítida pela imaturidade do processo de desenvolvimento, mas também pela semelhança.
 
Aferrolhar a boca para não deixar-se alimentar ou para aquietar-se no quarto é o seu jeito de garantir a imposição de um não, que de outra maneira, não diz. Não é que sejam dóceis e cordatas, mas não suportam a idéia de deixar de ser a "menina dos olhos da mãe", com todo sentido simbólico que expressa.
 
A mãe, portanto, é aquela que erogeniza, oferece-se de modelo identificatório originário, interdita e ao mesmo tempo é o objeto de amor que precisa ser substituído pelo pai, tudo isso sobre uma imagem condensada ao mesmo tempo como um duplo da menina e como princípio da alteridade. A anoréxica congela o tempo nas passagens pré-edípicas e renuncia ao porvir, porque não consegue sair do espelho.
 
Quando a mulher vai buscar no amor do homem um reencontro (um novo encontro do objeto perdido lá atrás...), ela não achará nada semelhante, pelo contrário, sua perda será definitiva. Como lidar com essa perda é que é a questão, uma vez que, de certo modo, essa é a condição do sujeito, antes que uma questão exclusiva do gênero. O primeiro objeto é perdido por todos...

COMENTÁRIOS:(1)

  • 27/7/2009 15:47:04
    Nome:LUIZ HENRIQUE
    Comentário:Soraia, tudo bem? Agora vamos poder conversar um pouco. Escrevi também um texto sobre anorexia e que está publicado no site. Soraia, a questão identitária que você focaliza seria uma identidade de gênero ou uma identidade mais imaginária na constituição de um eu?

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