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NININHA - A VERTIGEM DO ACABAMENTO

25/5/2009

Este texto é a introdução de um artigo que analisa uma trama psicológica mortífera que apanha cada vez mais adolescentes - a anorexia. Discute a rede possível de determinações que confluem para a erupção da clínica, os conceitos psicanalíticos que sustentam a análise e, apresentando um caso clínico, discute os seus desdobramentos e as possibilidades terapêuticas. Em seu percurso, busca articular os conceitos centrais do narcisismo, das identificações, do jogo pulsional, da sexualidade e das estratégias defensivas utilizadas neste jogo de vida e morte. 

 
 
Quem não quer ver maluco que quebre espelhos.
Voltaire                                                      
 
Nininha de olhar lânguido e comportamentos exóticos. Com suas comidinhas esmeradas que servia, servia e não provava. Roupinhas coladas exibia, gabola, horas e horas entre espelhos. Nininha de lábios carnudos e pele pálida, dedos de piano tateando no corpo um instrumento desconhecido:  estrangeiro, maravilha e encantamento. Tão frágil, seu andar flutuava. Esgueirava-se na noite,  adivinhava enquanto suava na cama entre proibições e desejos de profanação. "Um doce, vim buscar um doce", a fala mansa e levemente insinuante distraia meu olhar de seus gestos furtivos escondendo as mãos. Mãos que me agarraram violentamente, cravando unhas e uma língua desesperada em minha boca, sorvendo, enfiando, engolindo, numa ânsia ciosa de seu alívio e que instantaneamente me incorporava fundido em suas entranhas; uma tresloucada sinfonia de uivos, gemidos, sim- não,  urros, falas mal articuladas, ampliada pelo silêncio na casa onde quase se apalpava a vigília de seus pais no andar de cima. Cumplicidade familiar desconcertante que me invadia e provocava uma paz desconhecida. Assim como entrou, saiu de mim e desvaneceu-se pela escada deixando-me nu e desconexo no chão gelado. E nunca mais. Olhava através de mim, mais que me ignorava. Abandonou o colégio, as aulas de dança, o namoradinho, e refugiou-se no quarto com as maçãs que nunca comia e seu chorinho gemido. Definhou. Agora jaz ali, lívida e celestial. Seu cadáver anguloso parece zombar da incompreensão de tudo que, agora, está finalmente alheio.
                                                                                           
Fome, medo, sofreguidão, o erotismo, o sagrado, mais medo, angústia, desejos, oralidade, encantamento, dor, muita dor, gozo paroxístico, estereotipia, cisão, negação da realidade, recusa, ambivalência, urgência, corpo. Temos uma menina-mulher em convulsão psíquica marcada pela mortificação. Temos morte. Vida e morte.
 
O que significa esse alarde, esse grito desesperadamente marcado no corpo, o gesto mudo, desesperado?
 
Olhe-se no espelho uma, duas vezes por dia. Olhe mais, uma ou duas vezes por hora. Acelere, não se acanhe nem se proteja. Olhe mais. Você começará a perder o contorno e aí então, Alice, você será tragada para além do espelho, para além do mundo da percepção. "O que você acha de morar na Casa do Espelho, Kitty? Será que lhe dariam leite lá? Talvez o leite do Espelho não seja gostoso...", disse Lewis Carrol para Alice, no País das Maravilhas.


(continua)

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